Nos primeiros três dias do Festival de Locarno em curso, o eclipse solar chegou mais cedo do que o badalado fenómeno anunciado para meio desta semana. De Lucila Mariani, nada se sabia excepto que é uma jovem cineasta argentina com algumas curtas premiadas. A sua longa de estreia, Los días libres (na Cineastas do Presente, a segunda competição do festival), foi um dos filmes que se impôs nesta primeira leva de obras apresentadas. Alguém por aí ouviu falar de um eclipse que está a aproximar-se? Lucila Mariana sim, em curiosa coincidência com o calendário deste mês de Agosto de 2026.
Los días libres fixa-se em Begonia, que todos tratam por Bego, adolescente de 12 anos que, no Verão de um futuro próximo, procura o seu lugar no mundo, em vésperas de um eclipse anunciado. E onde se refugia ela? Na realidade virtual, com as suas amizades que não são de carne e osso, e numa iniciação ao “shifting”, prática pela qual os teenagers acreditam ter acesso a outras realidades, teleportando a mente, como se a vida simulada, substituindo a verdadeira, fosse um sonho de olhos abertos.
Nada disto é original, dir-se-á, mas Lucila Mariani tem talento, pelo insólito e pela estranheza que consegue acrescentar a cada cena. Begonia e a sua geração de amigos atravessam um atónito torpor e isto tem tudo que ver com a família albiceleste e uma herança cinematográfica desenvolvida naquele país da América do Sul, por cineastas como Lucrecia Martel ou Milagros Mumenthaler. Os jovens querem partir, deixar aquele Verão pardacento. Querem eclipsar-se. Ou escapar-se por um qualquer portal alternativo.
“Los Dias Libres”, surpresa argentina de Lucila Mariani
Não faltou em Locarno quem logo visse em Los días libres um retrato da actual situação política da Argentina de Javier Milei, que decapitou o acesso a fundos públicos do cinema argentino, um dos mais criativos do mundo. Mas a apreciação é duplamente deslocada: a origem do projecto, iniciado há sete anos, é anterior ao governo incumbente daquele país; além disso, uma das grandes qualidades de Los días libres é a forma como o filme se desembaraça de qualquer cartilha política. Podia passar-se em Pretória ou em Xangai, não deixaria de ter igual valor. Certos interlocutores da adolescente que protagoniza são brasileiros e, envolvida na co-produção, está a portuguesa Persona Non Grata, produtora de António Ferreira.
No concurso principal pelo Leopardo de Ouro, Locarno fez jus ao slogan que, em edições passadas, descreveu a cidade como a “capital mundial do cinema de autor”. De facto, só nos primeiros dias, fomos do Punjab indiano de Rehmat, de Gurvinder Singh (um filme desequilibrado com três histórias) a uma adaptação chilena de A Princesa com Pele de Burro, conto infantil de Perrault, várias vezes levado ao cinema, nomeadamente, por Jacques Demy, em Peau d’âne (1970). Princesa Burro, da dupla chilena Joaquín Cocina/Cristóbal León, está entre Ruiz e Michel Gondry no onirismo da proposta e nas viagens da protagonista do título, que graças à pulseira oferecida pelo rapaz que é um amor proibido, atravessa vários mundos — e cada um deles traz ao filme um género diferente, da fantasia e da animação ao realismo social sul-americano.
“Princesa Burro”, da dupla chilena Joaquín Cocina/Cristóbal León, está entre Ruiz e Michel Gondry no onirismo da proposta
Locarno senta todas as noites na Piazza Grande 10 mil pessoas frente a um ecrã com 14 metros de altura e 26 metros de largura. É um espaço propício para apelar ao star system que o festival não pode dispensar, entre as visitas de Olivia Wilde (que veio apresentar O Convite, estreado há um mês em Portugal) e os prémios de homenagem a Isabella Rossellini, Virginie Efira (que falou bastante do seu trabalho recente com Hamaguchi) ou James Gray (o seu novo trabalho, Paper Tiger, esgotou a Piazza este domingo).
É óbvio que, neste lote, encaixa Monica Bellucci, que é uma óptima actriz e a intérprete que mais se aproxima hoje daquilo a que outrora se chamava de “diva” na idade de ouro do cinema italiano. Curioso: é a segunda vez, em 2026, que vemos Bellucci em participações secundárias e em filmes que não estão à sua altura, primeiro num thriller falhado que fechou o concurso de Cannes (Histoires de la nuit, de Léa Mysius), agora num coming of age italiano, produzido por Luca Guadagnino e realizado por um cineasta que já abordou por mais do que uma vez a adolescência: Giovanni Tortorici.
A Piazza Grande de Locarno em noite de festival
Ketticè é um filme auto-biográfico para Tortorici, siciliano de Palermo (foi assistente de Guadagnino na série We Are Who We Are). A acção decorre naquela cidade em 2012 e, para uma série de adolescentes de 16 anos, como Giulio e Ketty (Bellucci interpreta a mãe do primeiro), é um espaço estagnado, sem perspectivas. Infelizmente, o filme não sai do cliché (ao contrário de Los Dias Libres), não há ideias nem trabalho de dramaturgia suficientes para desenvolver estas personagens, que não vão a lado nenhum. Já o dialeto siciliano falado pelos jovens é tão copiosamente carregado que vai provavelmente exigir que o filme se estreie legendado nas salas do resto da Itália.
O autor escreve segundo a antiga ortografia