Onde estão os pobres na Competição de Cannes? Com nove filmes (sobre 22) do concurso vistos até agora, a pergunta tem razão de ser. Os pobres não estão seguramente na escultora e na arquitecta de Nagi Notes, de Fukada, nem na reputada cirurgiã de Léa Drucker em La vie d’une femme, de Charline Bourgeois-Tacquet. Fatherland, o filme que, até à manhã de sábado, levava a preferência, está rodeado de miséria (a Alemanha dividida do Pós-II Guerra Mundial) mas a sua figura central é um Thomas Mann que fugiu para salvar a pele e goza, na paz podre de 1949, de celebridade merecida (e confortável, pois claro).
Com “Fatherland”, o concurso de Cannes começa a ganhar gravidade
Os pobres também não fazem parte da realidade da escritora de craveira que Isabelle Huppert interpreta em Histoires parallèles, filme francês (e jogo de espelhos) rodado em Paris pelo iraniano Farhadi (embora um pobre entre às tantas pela porta do apartamento da protagonista). Em Soudain, novo trabalho de Ryusuke Hamaguchi, pobres, nem vê-los: aliás, imagino a fortuna que deve custar (o filme nunca o dirá) a diária daquele lar de idosos parisiense em que se encontram Virginie Efira e Tao Okamato, no segundo filme em língua francesa (e nipónica) realizado por Hamaguchi.
Em Gentle Monster, da austríaca Marie Kreutzer, filme em torno da dissolução de um casal de artistas com um filho devido à revelação de um crime hediondo, está tudo, felizmente para os envolvidos, muito bem na vida: ela é artista consagrada na música (verte ao piano covers de canções pop como Boys Don’t Cry), ele produz trabalhos para a TV.
Continuemos: em Sheep in the Box, novo filme de Koreeda passado num “futuro não muito longínquo”, um casal formado por uma arquitecta e um construtor civil abonado “compra” a perfeita criança humanóide numa tentativa de mitigar a perda irreparável de um filho. Dinheiro é coisa que não lhes falta. Já em El ser querido, esbanja-se dinheiro com fartura, por teimosias e caprichos: o novo trabalho do madrileno Rodrigo Sorogoyen (que antes nos deu As Bestas, 2022), acompanha a rodagem de um filme dentro do filme, com o protagonista (interpretado por Javier Bardem), realizador célebre em vias de lançar-se numa nova longa-metragem no Deserto do Saara, a usar o cinema para tentar reparar a relação com a sua filha, que é actriz (e que ele negligenciou, por puro egoísmo). Até agora, no concurso, estamos nisto: frustrações interiores, sentimentos de culpa de alto a baixo.
“Paper Tiger”, de James Gray
Na altura em que se escreve, todos estes títulos, há pouco acabados de ver, começam já a afastar-se da cabeça (alguns já se eclipsaram) porque, entretanto, chegou o filme deste festival até à data, poderoso regresso de um cineasta que seguimos há mais de 30 anos, dos seus melhores aos menos bons momentos — mas Paper Tiger é tremendo! Apoteotizou este Cannes 2026. Por dinheiro (e um pouco de ganância, até), cometem as suas personagens erros terríveis. Neste ponto, é um filme que põe em perspectiva e serve de contra-campo a toda esta primeira metade de festival.
Duas vezes filmada de longe em Paper Tiger, Nova Iorque guarda ainda na linha do horizonte as Torres Gémeas. Ao fim de uma hora de filme, há um calendário de parede que nos coloca em 1986. Até aí, dois irmãos surfam a onda de uma ilusão, embriagados pela perspectiva de um negócio que lhes trará fortuna numa altura em que o poder em Nova Iorque decide avançar com a despoluição do Gowanus Canal, em Brooklyn — então a zona mais poluída da cidade, dominada pela máfia russa.
Gary (Adam Driver), ex-polícia, metade-sol metade-sombra, propõe então ao irmão Irwin (Miles Teller), que mora na 75th Street, em Queens, um negócio de chico-esperto, levando-lhe a fanfarronice. Irwin, engenheiro, cai nas boas intenções. É casado com Hester (Scarlett Johansson) e pai de dois miúdos, um deles prestes a fazer 18 anos. Irwin fica eufórico com a perspectiva, em contraste com a mulher dele, que em segredo descobre estar doente. Para James Gray, é personagem que toca no osso, livremente inspirada em dados biográficos do pai do realizador.
▲ Miles Teller, James Gray e Adam Driver no photo call de “Paper Tiger”, este domingo, em Cannes
Getty Images
A história deste filme vai seguir a avidez galopante dos manos judeus que, por terem descendência russa (tal como James Gray), julgam ser possível apertar a mão à máfia da mesma procedência sem pagar um preço. Não é. E naquele tempo em que a América ainda comunica por beep e os italianos começaram a ceder aos russos o monopólio do crime organizado em Manhattan, Irwin deslumbra-se certa noite, e mete a família ao barulho.
Mais não se diz, além destas duas coisas: 1) sabemos de outros filmes de James Gray que as suas personagens dão-se mal quando querem pertencer a lados antagónicos. Gary, por ter sido polícia, sente-se protegido por meios e contactos. Acredita ser capaz de ficar com um pé na lei e outro no crime, como acontecia em We Own the Night. 2) Há um momento em que Gary trata os mafiosos russos de “amigos” para satisfazer o seu próprio ego. Se há lição a tirar daqui, é esta: não se chama “amigo” a quem não o é e com a máfia, não se brinca, muito menos com a russa.
“Quanto mais mexes na porcaria, mais sujo ficas” – diz o provérbio. Ora, os dois irmãos de Paper Tiger não sabem estar quietos. À frente deles, vem a fatalidade do destino, num filme sublime que começa a citar Agamemnon, de Ésquilo (“Let there be wealth without tears; enough for the wise man who will ask no further”) e termina, operaticamente, num canavial de perdição, como uma parábola bíblica.
Há muito que os actos de sacrifício fazem parte das ficções crepusculares de James Gray. O sacrifício que foi visto este sábado em Cannes é de antologia — uma das mais belas cenas do cinema americano da década. O cineasta voltou à família culpada, à dívida afectiva e à redenção impossível do sonho americano. Regressou ao grande cinema da sua origem.
Uma vitória no palmarés chega? Qual quê: em Cannes, Gray nunca ganhou nada. Esta é a sexta vez que concorre à Palma de Ouro. Está habituado a perdê-la. Não quer saber de prémios, prefere a culinária. Em entrevista que há-de vir, conta como fazer a melhor tagliatelle con ragù alla bolognese de todos os tempos.
Paper Tiger é um dos sete filmes a concurso rodados em película Kodak 35mm (e que fotografia assombrosa tem, de Joaquin Baca-Asay!), no preciso momento em que tomba na caixa de mail a informação de que László Nemes, que também rodou Moulin em película, suplicou a Cannes uma projecção “à antiga”, em cópia 35 mm (tal como já sucedera em Veneza, no ano passado, com Orphan, que a Midas Filmes distribuirá em Julho). É óbvio que Cannes, mortinho para desenferrujar a maquinaria pesada que continua a afinar religiosamente no Palais des Festivals, logo validou o desejo e fez notícia da veleidade do autor húngaro (projecção em 35mm essa que, como se sabe, é hoje rareza e privilégio de Cinematecas).
Hamaguchi: a vida como um romance
Mas voltemos atrás no texto, estacionemos em Soudain (ou All of a Sudden, o título internacional em inglês), o mais longo dos 22 a concurso de Cannes (3h16), nem por isso o que mais demorou a passar. Hamaguchi escreve admiravalmente. Tão bem escreve que nos perguntamos se ele não deveria ser romancista, em vez de cineasta.
▲ Hamaguchi, em Cannes, entre as suas actrizes: Virginie Efira e Tao Okamoto
Corbis via Getty Images
O assunto de Soudain é muito sério e parte de Franco Basaglia (1924-1980), neurologista e psiquiatra italiano cujo trabalho influenciou agora a pluma inspirada do nipónico, com Marie-Lou (Viriginie Efira), directora francesa de um lar de idosos chamado Le Jardim de la Liberté, e Mari (Tao Okamoto), dramaturga e encenadora japonesa a quem foi diagnosticado cancro terminal, a unirem esforços, pela ciência e pela arte, numa reflexão sobre algo nada brando nem fácil de abordar: o fim da vida.
Que pode ser feito para melhorar a comunicação com quem deixou de poder compreender o mundo (doentes de Alzheimer, por exemplo), tornando o lar, ou instituição psiquiátrica, num espaço de inclusão em vez de uma derradeira célula de confinamento? — perguntou Basaglia nos anos 70 e, por ele, Hamaguchi em 2026.
O cineasta nipónico, com um filme mais verboso e extenso que o anterior Drive My Car (Marie-Lou e Mari exprimem-se ambas no filme em francês e japonês), volta a recorrer ao teatro para sustentar ideias, diálogos e profundidade psicológica de personagens. Soudain é um filme denso, a levantar questões complexas sobre a doença, a resistência à dor, a terapia, a ética e uma noção de liberdade nas nossas vidas no tempo presente, tal como é complexa a construção das suas cenas, algumas com mais de 30 minutos, divididas por capítulos ao sabor da passagem dos dias do mês de Junho de 2025.
Soudain resulta de uma observação lúcida da realidade. No fim da projecção, deixa-se a sala como quem acaba de ler um romance, o que não é propriamente o menor dos elogios.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.