A poesia de Inês Lourenço vai ser homenageada na Feira do Livro do Porto, com uma exposição, uma instalação sonora e a dramatização de um poema sobre a tragédia na Palestina por alunas do Balleteatro, disse esta quinta-feira a poeta.

Em entrevista telefónica à agência Lusa, a propósito da atribuição de uma Tília de Homenagem nos Jardins do Palácio de Cristal, no âmbito da Feira do Livro do Porto deste ano, a poeta portuense, uma antiga operadora dos CTT nascida há 83 anos na freguesia de Santo Ildefonso, revelou que a sua poesia sempre procurou aliar a “reflexão à emoção”.

“Na minha poesia procuro aliar a reflexão à emoção, porque não há arte sem emoção, e de maneira que essa emoção é precisamente para passar para o leitor aquilo que eu pus na página, que eu escrevi. […] Aliás, eu tenho um poema que acaba com o seguinte: um poema é sempre uma pergunta sem resposta. Portanto, também é uma grande reflexão sobre o poder da escrita”, disse.

Questionada sobre a atribuição da Tília de Homenagem, Inês Lourenço confessou que não contava com esta distinção em vida e ficou “surpreendidíssima” com a homenagem e com o programa, que inclui uma dramatização de um poema sobre a tragédia em Gaza, uma exposição com objetos pessoais e uma playlist das músicas prediletas para passar no evento literário.

“Tive sempre uma participação discreta na vida literária e nunca gostei muito de muitas tertúlias e muita confusão, de maneira que prefiro mais o trabalho individual e a reflexão sobre as coisas, e ler e ouvir música”, declarou, acrescentando ser estranho estar a ser homenageada em vida, pois muitos dos anteriores visados foram-no quando “as pessoas já não estavam, já não pertenciam”, como foi o caso de Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Agustina Bessa-Luís, Eduardo Lourenço ou Manuel António Pina.

No âmbito da homenagem à autora de Cicatriz 100%, a Feira do Livro vai inaugurar no sábado, pelas 12h00, uma exposição intitulada Na lâmina implacável do tempo com vários objetos pessoais da escritora, havendo ainda uma instalação sonora que cruza os versos de Inês Lourenço com a música de Surma.

Na sexta-feira, às 21h00, no auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, alunas e alunos do Balleteatro vão dramatizar o poema Neste Escuro e Sinuoso Abrigo, sobre a Palestina, a partir de versos como “Às vezes / numa pequena pausa do ribombar monstruoso e longínquo / neste escuro e sinuoso abrigo, invento uma forma / de não enlouquecer”.

Segundo a poeta portuense, na exposição, o público vai poder ver vários objetos do seu arquivo pessoal, como correspondência trocada com Sophia de Mello Breyner ou Eugénio de Andrade, manuscritos, obras de arte, livros, fotografias e até várias capas da revista Hífen, na qual trabalhou vários anos.

Questionada pela Lusa, a autora elencou como principais temas da sua obra a infância, a cidade do Porto, o poder da literatura e da poesia, os animais e a música.

“O gato é o meu animal predileto, pela sua independência e pela sua não-subserviência. E também gosto de cães, tive as duas espécies, gatos e cães, e gosto muito do cavalo e de animais que metem geralmente muito medo e horror às pessoas”, contou, referindo que na área da música clássica elege Robert Schumann e Franz Schubert como os compositores preferidos, enquanto na música pop elege Beatles, Bob Marley e Freddie Mercury.

Dos artistas portugueses, Inês Lourenço colocou na playlist, que vai estar a ser tocada na Feira do Livro, artistas como Sérgio Godinho, Rui Veloso, GNR e muitos outros.

Recentemente distinguida com o Grande Prémio de Poesia Gil Vicente, Inês Lourenço assumiu ter ficado muito contente por este ano a 13.ª edição da Feira do Livro do Porto ser dedicada à poesia, considerando que a arte da poesia pode ser uma boa ferramenta nos tempos de tecnologias e de rapidez.

“A poesia nestes tempos que correm é muito necessária, porque […] em poucas palavras diz muito”, considerou, realçando que numa “altura da velocidade”, “de perder pouco tempo a olhar para as coisas e a ler as coisas”, a possibilidade de entrar num poema e deter-se num verso pode fazer diferença.

A 13.ª edição da Feira do Livro do Porto organizada pela Câmara Municipal abre sexta-feira e decorre até 6 de setembro nos Jardins do Palácio de Cristal, com mais de 200 iniciativas espalhadas por 144 stands de editoras, livreiros e alfarrabistas.

Uma das novidades desta edição é a presença de convidados internacionais, uma estreia na história da feira, como é o caso do poeta e ativista palestiniano Mohammed El-Kurd, ou de Rim Battal, Elvis Guerra, Keeley Forsyth e Angélica Liddell.

A Feira organizou também 83 sessões pensadas para bebés, crianças, jovens e famílias fazerem oficinas criativas, sessões de leitura, cinema e jogos tradicionais, distribuídos pelos Jardins do Palácio de Cristal e pela Biblioteca Municipal Almeida Garrett.

Cinema ao ar livre, teatro e concertos de Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves (Clã), Janeiro com Tatanka, ou Lena d’Água com Benjamim são outras das atividades previstas para a 13.ª edição da Feira do Livro do Porto, com entrada gratuita.