Uma estadia de um mês no Espaço, num ambiente de microgravidade, equivale a cerca de um ano de envelhecimento para os nossos músculos. O termo técnico é Powerpenia e, apesar de conter um anglicismo, foi cunhado pelo português Sandro Freitas para descrever a perda gradual de força muscular explosiva em resultado do declínio das unidades motoras de contração rápida. Isto aplica-se e verifica-se tanto no envelhecimento natural, como nas missões espaciais que são cada vez mais frequentes.
Foi esta correlação que despertou o interesse da Agência Espacial Europeia no Astro Power. O projeto tem sede na Caparica, numa sala do Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa. O princípio é simples: se os investigadores conseguirem mitigar os efeitos da perda natural de função muscular dos mais velhos, podem utilizar o mesmo método para os astronautas no Espaço.
No centro do Astro Power está um “sistema de biofeedback acústico” composto por elétrodos que são ligados aos músculos, e um dispositivo que está ligado por bluetooth a um computador para transmitir a informação. E claro, um aparelho para fazer exercício. Quando se “ativam” os músculos, o elétrodo passa um sinal que é lido por um software (também disponível numa app que pode ser utilizada no telemóvel) e, naquele instante, é reproduzido um som.
É um “beep” que, dependendo do esforço físico, fica mais alto ou mais baixo, mas também nota “vibrações”. Traduzindo: se o som for alto e estável, então a potência muscular está no patamar desejado para o exercício que está a ser realizado. Se ouvir um “beep” fraco ou tremido, então é preciso reajustar a forma.
A equipa do Astro Power é liderada pelos professores Hugo Gamboa e Luís Silva, e por Dania Furk, estudante de doutoramento em Engenharia Biomédica da NOVA FCT — e vencedora do prémio de melhor póster na primeira conferência internacional dedicada à Powerpenia, em Lisboa este verão. Para testar a capacidade deste sistema, recorreram a um grupo de 23 pessoas entre os 63 e os 78 anos, numa colaboração com a Universidade Sénior de Almada.
▲ Através de elétrodos e um software desenhado de raiz, os investigadores conseguem "desbloquear" uma utilização mais eficaz dos músculos e mitigar perda de potência
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Para testar esta amostra, transportaram a máquina Speediance Gym Monster que, como o nome indica, é um equipamento de ginásio que permite realizar múltiplos exercícios recorrendo a forças de tensão aplicadas por cabos, dispensando o uso de pesos físicos. Não foram muitos quilómetros de viagem, mas o professor Luís Silva brinca que a logística envolvida para transportar o aparelho não foi nada fácil. “Para lá ainda foi num dos nossos carros. Mas a voltar, pedimos mesmo uma carrinha para a levar”, afirma ao Observador.
Com a máquina de ginásio montada, o conjunto de elétrodos brancos e o computador para analisar a resposta, começaram o trabalho. Os 23 escolhidos foram divididos em dois grupos. Um utilizaria música enquanto fazia os exercícios previamente escolhidos pelos investigadores — sempre monitorizados. Dania não é personal trainer, mas é uma atleta de alta competição em atletismo, outra área em que este estudo foi aplicado. No outro grupo, os únicos sons que ouviam enquanto faziam o seu “workout” eram os beeps emitidos pelos próprios músculos. Assim, conseguiam perceber se este “biofeedback acústico” tinha, ou não, algum tipo de influência na qualidade do exercício.
“O que notámos foi que ao terem uma perceção da força que estavam a exercer, as pessoas conseguem desbloquear o seu potencial muscular”, explica o professor Hugo Gamboa. Nos resultados oficiais deste estudo, partilhados com o Observador, registaram um aumento da velocidade de contração em agachamentos, um pico de força superior no supino (exercício de musculação centrado no peitoral) e uma maior contração muscular, de forma geral. E, com este feedback sonoro, era fácil perceber o que precisava de ser corrigido para garantir que os músculos eram ativados corretamente.
Todos estes indicadores foram, de uma forma global, um sinal positivo para os investigadores. Ao exercitar estas vertentes, reduz-se a perda de função muscular explosiva, aquela que, com a idade, é a primeira a dissipar-se, acrescenta o especialista.
▲ A equipa do LIBPhys, do Departamento de Física da NOVA FCT, que desenhou o projeto Astro Power
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
No total, e espalhados por várias instituições, 27 investigadores, estagiários e estudantes realizaram três estudos distintos numa população de 154 pessoas. Para além dos 23 idosos, o mesmo método foi aplicado num público mais jovem, compreendido entre os 18 e os 29 anos. A preparação é idêntica e continuam a utilizar os elétrodos brancos, produzidos pela empresa portuguesa PLUX e que serviram de inspiração para o filme Disclosure Day (2026), de Steven Spielberg. E os resultados revelaram ainda mais efeitos positivos desta técnica. Apesar de não terem identificado qualquer alteração na coordenação neuromuscular, notaram que a performance no supino melhorou naquela amostra de 24 jovens adultos.
A terceira fase do estudo é a maior. Será apenas uma sessão, com uma população de 107 participantes, entre os 18 e os 89 anos. Com o mesmo equipamento, mas com uma análise à composição corporal, à coordenação muscular e ainda medição da força das mãos com recurso a uma versão melhorada de um dinamómetro, vão procurar comparar a idade biológica funcional com a cronológica.
Ao contrário das opções tradicionais, em que se aplica a força de compressão e lê-se apenas o valor da intensidade da força, este dinamómetro tem em consideração fatores como a dinâmica do próprio movimento, que confere um grau adicional de informação sobre quem utiliza o equipamento. Basta pressionar o “gatilho” e os resultados aparecem no ecrã do computador. Tempo, força e intensidade ficam registados na plataforma e, a partir desse valor, fazem uma comparação entre a sua capacidade física verdadeira e a idade que apresentam no cartão de cidadão — com a ajuda de valores de referência.
O objetivo é sempre o mesmo. Conhecendo o possível desfasamento entre estas duas métricas, conseguem atuar sobre a perda de capacidade de potência muscular. Ao mesmo tempo, têm mecanismos para acompanhar o comportamento fisiológico durante o exercício. Os elétrodos monitorizam a ativação muscular, a intensidade de sinalização elétrica do músculo, de forma não invasiva. Esta metodologia, que produz resultados detalhados sobre a ativação das fibras musculares, permite a deteção de possíveis padrões fisiológicos prejudiciais, que passam a poder ser corrigidos.
▲ A equipa desenvolveu um novo tipo de dinamometro para obter informações mais detalhadas sobre a potência muscular
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
E isto não se aplica apenas aos atletas de alta competição e aos mais envelhecidos, mas também aos astronautas. No Espaço, a degradação dos músculos é amplificada pelo ambiente de microgravidade. Por isso, mesmo que sejam sempre escolhidos indivíduos aptos e em boa forma física para o papel, é preciso um cuidado redobrado com esta realidade.
Por isso, existem já múltiplos dispositivos que foram criados com o objetivo de mitigar este efeito. Parte da rotina diária dos astronautas inseridos em missões na Estação Espacial Internacional passa precisamente por um período de exercício físico, adaptado às condições em que estão, para garantir que voltam à Terra com a mínima atrofia muscular possível.
Ainda não existe um calendário para a implementação deste projeto nas missões tripuladas da ESA, mas os primeiros resultados indicam que, apesar de não resolver esta perda de potência associada à idade — ou, neste caso, à microgravidade —, o Astro Power pode cumprir um papel importante como complemento nos esforços de mitigação.
▲ O póster "vencedor" que tem Dania Furk, estudante de doutoramento da NOVA FCT, como primeira autora. Foi apresentado na primeira conferência internacional dedicado à Powerpenia
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR