Mark Ruffalo respondeu à Paramount Skydance depois de a empresa de comunicação social o ter acusado de recorrer a “estereótipos antissemitas” nas críticas do ator à fusão prevista com a Warner Bros Discovery.

O ator norte-americano, que há muito se tem manifestado abertamente contra a conduta militar de Israel em Gaza e em defesa dos direitos dos palestinianos, foi um dos signatários da carta aberta de mais de mil profissionais de Hollywood a oporem-se à fusão da Warner Bros. e Paramount, alertando para os riscos da fusão dos dois gigantes de Hollywood: menos concorrência, menos oportunidades para os criadores e pouca diversidade de conteúdos.

Na passada sexta-feira, as críticas de Ruffalo subiram de tom, com o ator a recorrer às redes sociais para apontar as ligações entre a Paramount Skydance, cujo CEO é David Ellison, e a Oracle, a empresa de tecnologia dirigida pelo pai de Ellison, Larry. A Oracle fornece software às Forças de Defesa de Israel, ao Ministério da Defesa, à Força Aérea, ao governo e à polícia israelita há décadas. Shmulik Hauser, diretor da divisão de vendas da Oracle, afirmou ao site Ynet no ano passado: “Apoiar Israel está no nosso ADN — mesmo que isso nos custe clientes. É essa a nossa agenda.”

O ator de 58 anos partilhou uma publicação do movimento pela Palestina BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) com um vídeo da vice-presidente executiva da Oracle, Safra Catz, a descrever a “tecnologia verdadeiramente assustadora” que a empresa forneceu a Israel após o ataque do Hamas, em 7 de outubro de 2023. Na mesma publicação, Ruffalo criticou Larry Ellison, a quem acusou de “usar a [Oracle] para financiar a aquisição da Warner Bros. pelo seu filho David”.

Larry Ellison, cujo património está estimado em 189 mil milhões de dólares, concordou em garantir pessoalmente 40,4 mil milhões de dólares em financiamento por capitais próprios para ajudar a Paramount Skydance a adquirir a WBD num negócio no valor de 110,9 mil milhões de dólares.

“Estas ‘tecnologias verdadeiramente assustadoras’ serão muito provavelmente integradas num dos maiores conglomerados de comunicação social do mundo e, um dia, utilizadas contra vocês”, escreveu Ruffalo. “Vejam como [Catz] se deleita com o que agora passámos a considerar um genocídio, que foi construído sobre um sistema de opressão de apartheid impulsionado pela Oracle.”

Ruffalo exortou os seus seguidores a oporem-se à fusão, que, segundo ele, seria “catastrófica” para a indústria do entretenimento devido à perda de postos de trabalho e à redução da concorrência.

Vinte e quatro horas depois, o gabinete de comunicação da Paramount respondia a Ruffalo, expressando “preocupação quando se recorre a clichés antissemitas, alegadamente ao serviço de um litígio comercial”. “Palavras como “genocídio” e “apartheid”, aplicadas a uma transação empresarial, não são apenas erradas — vão demasiado longe e banalizam o sofrimento muito real que essas palavras pretendem descrever”, afirmava o comunicado da Paramount, citado por vários meios, como o jornal The Guardian. “Isto não merece uma resposta na mesma moeda — e, para que fique claro, não toleramos preconceitos de qualquer tipo, contra ninguém.”

Ruffalo respondeu à Paramount com uma declaração por escrito, publicada nas suas redes sociais este sábado à noite. “A acusação de que sou antissemita é chocante e fundamentalmente desonesta”, começou por dizer. “Criticar as ações do primeiro-ministro israelita, um contrato de tecnologia militar ou os executivos que o fornecem não é o mesmo que criticar o povo judeu”, continuou. “Este diálogo crítico e necessário é então desonestamente apresentado como sendo anti-Israel.”

O ator afirmou que as suas opiniões provêm das suas “próprias convicções políticas e nunca devem ser interpretadas como hostilidade para com o povo judeu”, pelo qual nutre “um profundo amor e respeito”. “Tudo o que sei sobre representação, ativismo e humanismo foi profundamente moldado pelos amigos, colegas e entes queridos judeus que têm sido parte integrante e uma família em todas as fases da minha vida.”

“Esta fusão tem consequências reais para pessoas reais e para todo o país”, acrescentou. “É justo e necessário analisar minuciosamente os Ellison, incluindo o negócio da Oracle baseado em dados, tecnologia de vigilância e contratos governamentais, bem como a grave ameaça à liberdade editorial e a perda do sustento de milhares de famílias. O negócio de 111 mil milhões de dólares daria a uma única família o controlo sobre a CNN, a HBO e a Warner Bros., apoiado em parte por capital estrangeiro cuja influência nas decisões editoriais nunca foi totalmente explicada ao público.”

Embora o Departamento de Justiça dos EUA tenha aprovado a fusão em junho, esta continua suspensa enquanto um juiz federal analisa uma ação judicial interposta por uma coligação de 12 estados norte-americanos que contestaram o acordo. Uma fusão entre a Paramount e a WBD reuniria dois dos cinco últimos estúdios tradicionais de Hollywood, bem como uma série de redes de televisão e catálogos de streaming.

O processo que foi movido pelos 12 estados, transcrito pelo New York Times, refere que se a fusão avançar quatro empresas (Paramount, a Disney, a Universal e a Sony) controlariam 86% do mercado de filmes de grande distribuição. Estas quatro distribuidoras iriam controlar mais de 90% dos filmes com maior receita de bilheteira. É ainda referido que a Paramount teria mais de 25% dos principais canais de televisão por cabo do país.