O Atlântida Cine, cinema de bairro em Carcavelos atualmente encerrado, poderá vir a reabrir não como sala de cinema, mas como auditório multiusos, uma opção criticada numa carta aberta enviada esta terça-feira à Câmara Municipal de Cascais, que está em vias de comprar o imóvel.

“Até onde pudemos apurar, a intenção da Câmara não será manter o espaço como sala de cinema, mas transformá-lo num auditório polivalente, destinado a acolher eventos de natureza diversa”, pode ler-se na “Carta aberta pelo futuro do Atlântida Cine” a que o Observador teve acesso.

“Um auditório onde ocasionalmente se projeta um filme não substitui uma sala de cinema com programação regular e uma relação contínua com o seu público”, consideram os signatários, entre os quais estão Luís Apolinário, Luís Urbano e Stefano Savio, figuras ligadas ao cinema e fundadores da empresa Cinetoscópio (que explora o Cinema Fernando Lopes, em Lisboa) e um grupo informal de “fãs do Atlântida Cine”.

A alteração do uso “significaria, na prática, o fim do Atlântida Cine enquanto sala de cinema, descaracterizando um espaço que tem uma identidade e uma história próprias”, alertam.

Durante muitos anos, o Atlântida Cine foi um importante ponto de referência para os amantes de cinema desta zona, distinguindo-se por uma programação de qualidade e diferenciada e reunindo um público fiel e recetivo. Todo este trabalho corre o risco de se perder definitivamente caso o Atlântida Cine não retome a sua atividade original: uma programação regular de cinema de qualidade, dirigida ao público do concelho de Cascais e não só.”

A carta, dirigida a Nuno Piteira Lopes, presidente da autarquia liderada pela coligação Viva Cascais (formada pelo PSD e pelo CDS-PP), lembra que o Atlântida Cine não encerrou por falta de público, mas na sequência da decisão da família Semedo, atual proprietária, de não prosseguir a atividade.

“Com base na nossa experiência, estamos convictos de que, através de um trabalho atento de programação e comunicação, o cinema poderia voltar a afirmar-se como uma sala de referência para toda esta zona, atualmente privada de uma oferta deste tipo”, alegam, nomeando exemplos de sucesso como o Cinema Nimas, em Lisboa, ou o Cinema Trindade, no Porto, que “demonstram que este tipo de programação pode ter impacto cultural e local e encontrar o seu público”.

Argumentam ainda que a criação informal da “Comunidade de Fãs do Atlântida Cine”, aquando do encerramento do cinema em 2024, “mobilizou muitas pessoas interessadas no futuro da sala e na preservação da sua atividade e das memórias que o cinema deixou na vida de muitos” e adiantam que “mais recentemente, em parceria com a Associação de Moradores do Bairro das Caixas, foi criado o projeto Cinema no Bairro, que promove a exibição de uma sessão de cinema informal todos os meses, precisamente com o objetivo de manter vivo e relembrar a importância do Atlântida Cine”.

“As sessões têm tido uma adesão muito significativa, tendo a última sido realizada no salão da SMUP e reunido cerca de 100 pessoas. Esta mobilização é uma demonstração concreta de que o Atlântida Cine faz falta e de que existe uma comunidade local interessada em voltar a ter um cinema com uma programação regular e diferenciada”, justificam.

DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR

Os últimos filmes a serem exibidos foram A Natureza do Amor (2024), de Monia Chokri, e Ainda Temos o Amanhã (2024), de Paola Cortellesi

Em maio de 2024, quando o cinema da Linha fechou, a Cinetoscópio entrou em contacto com a família Semedo, proprietária do espaço, com o objetivo de assumir a exploração da atividade, tendo chegado a um acordo com vista à reabertura do cinema em setembro de 2024. A proposta previa a manutenção da atividade cinematográfica e um investimento de cerca de 200.000 € no imóvel, destinado à sua melhoria e modernização, adiantam.

No entanto, o processo foi, entretanto, interrompido quando, em janeiro, o Observador noticiou que a Câmara Municipal de Cascais tinha demonstrado interesse na aquisição do imóvel e chegado a acordo com os proprietários para comprar o cinema de bairro em Carcavelos e respetivo recheio, incluindo mobiliário e equipamento de projeção, pelo valor de 600 mil euros. O Observador questionou a autarquia para saber se já foi concretizada a escritura, mas não obteve resposta até à data de publicação deste artigo.

Transformar cinema em multiusos “é um desperdício enorme”

“Tendo nós feito uma proposta super concreta para explorar a sala de cinema, e com toda a campanha da Ministra da Cultura sobre a desafetação… É um desperdício enorme”, lamenta Stefano Savio, da Cinetoscópio, em declarações a este jornal. “Oferecemos à câmara [de Cascais] a proposta de programar”, diz o também distribuidor da Risi Film, notando o facto de o Atlântida Cine ser uma sala com condições para abrir com efeitos imediatos. “É abrir a porta. É uma sala que amanhã tu programas cinema”.

A Cinetoscópio “apresentou uma proposta que permitiria manter a atividade cinematográfica sem qualquer intervenção ou investimento público”. “Procurámos também estabelecer contacto com os serviços da Câmara Municipal para avaliar possíveis formas de colaboração, mas nunca nos foi dada a possibilidade de realizar uma reunião”, lê-se no texto enviado ao município esta terça-feira.

Já na reportagem do Observador em janeiro, o atual proprietário do cinema afirmava que a intenção da autarquia seria usar o Atlântida Cine “como cinema e auditório”. Mas o município nunca respondeu taxativamente sobre a finalidade da aquisição do cinema, mesmo perante a insistência do esclarecimento cabal dos objetivos para o espaço. O gabinete de comunicação da Câmara de Cascais diria apenas que “o imóvel está a ser adquirido por se tratar de uma sala de cinema com história no concelho de Cascais”.

O Atlântida Cine, o último cinema de bairro da linha de Cascais, foi fundado em 1982 por Fausto Semedo e durante mais de 40 anos operou na cave do Centro Comercial de Carcavelos, junto à estação de comboios. Encerrou em maio de 2024 e, em dezembro desse ano, foi colocado à venda.

[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]