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Uma sessão lotada no Cinema Trindade, no Porto, para uma exibição especial do filme "Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho
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▲Uma sessão lotada no Cinema Trindade, no Porto, para uma exibição especial do filme "Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho

Cortesia Cinema Trindade

▲Uma sessão lotada no Cinema Trindade, no Porto, para uma exibição especial do filme "Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho

Cortesia Cinema Trindade

Em Portugal há cada vez menos gente no cinema, mas nestas duas salas "há novos públicos a descobrir o prazer de ver um filme"

Num ano catastrófico para os cinemas portugueses, o Cinema Nimas, em Lisboa, e o Cinema Trindade, no Porto, escaparam à queda generalizada de espectadores. Um retrato de duas salas em contraciclo.

Os números divulgados recentemente confirmam uma tendência preocupante para o cinema em Portugal. Em 2025, as salas registaram o menor número de espectadores do século, excluindo os anos da pandemia, acompanhados por uma quebra de 8,2% face a 2024 e uma redução de 3,9% nas receitas.

E, no entanto, foi um ano positivo para as exibidoras Medeia e Nitrato, que exploram os cinemas Nimas, em Lisboa, e Trindade, no Porto, respetivamente.

“Fala-se muito em crise de espectadores. Parece que toda a gente quer que haja crise de espectadores”, atiçou Paulo Branco, responsável pela Medeia, exibidora que explora o cinema Nimas, em Lisboa, numa conferência de imprensa na semana passada para divulgar os resultados do ano que findou. No caso do Nimas, os números são animadores. Esta sala de cinema encerrou o ano de 2025 com 88.512 espectadores, registando um crescimento de 31,5% face a 2024.

Num contexto nacional marcado pela quebra continuada da frequência das salas de cinema e do fecho recente de várias, como se explica que uma sala esteja em absoluto contraciclo e, mais do que a sobreviver, a conquistar espectadores, com sessões esgotadas?

Quando os números nacionais não contam a história toda

Para Paulo Branco, produtor, distribuidor e exibidor, a resposta não é simples. “É um trabalho que tem dado frutos”, diz ao Observador. A sala de cinema na Avenida 5 de Outubro está a fazer uma retrospetiva integral da obra do cineasta João César Monteiro (1939-2003), e tem tido sala cheia, por vezes dias antes das sessões. “Temos conseguido transmitir um bocado esta nossa paixão cinéfila e, sobretudo, estamos muito atentos para haver um equilíbrio entre filmes novos, fazendo uma escolha criteriosa dos filmes que estreamos e com todo um trabalho sobre a história do cinema e sobre a cinematografia. Partindo agora, inclusivamente, deste período em que as cópias restauradas começam a existir já de uma maneira mais substancial, temos conseguido cativar novos públicos que estão a descobrir o que é o prazer de ver um filme em sala.”

▲ Paulo Branco, responsável pela exibidor Medeia, que explora o cinema Nimas, em Lisboa

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

O responsável aponta vários ingredientes para uma possível “fórmula” de sucesso, além da programação: a importância de ter uma equipa de frente de sala em permanência, uma comunicação reforçada (nas redes sociais e através de um jornal mensal), um cuidado especial com a projeção (“temos, talvez, a melhor projeção do país”, gaba), bem como a aposta em sessões especiais com convidados para promover a discussão com o público.

“Por exemplo, quando passei aqui o Branca de Neve (2000), fiz toda uma primeira exposição sobre como é que se chegou aqui, como é que o João César Monteiro acabou por fazer o filme da maneira que fez… Para não ser só o lado anedótico que existe da relação das pessoas com o filme”, recorda. “Foi impressionante porque não houve uma pessoa que saísse durante o filme todo. E no final houve um aplauso, absolutamente extraordinário. As pessoas realmente perceberam o que é que o João César tinha feito. Foi talvez a primeira projeção em que senti essa adesão em Portugal, como já tinha sentido lá fora”, diz, comparando a experiência à que viveu nos anos 70, em Paris, quando programava a sala do Action République.

O sucesso do cinema lisboeta não se explica apenas pelas retrospetivas de clássicos. “Temos uma diversidade que vai dos grandes clássicos a novas cinematografias. Não nos ficamos só com a parte de história de cinema, mas mostramos filmografias de jovens cineastas, de maneira a que haja uma dinâmica que ativa públicos muito diferentes”, enumera.

"O Trindade é uma sala que recuperou essa dimensão do cinema social, é uma sala onde as pessoas se encontram. Vejo as pessoas a falar sobre cinema, que era algo que se tinha perdido. Estamos a resgatar essa ideia de cinema que aproxima as pessoas. É mesmo um ponto de encontro. O cinema, às vezes, é mesmo um pretexto para as pessoas estarem juntas"
Américo Santos, do Cinema Trindade, no Porto

Se é certo que há cineastas de culto que convocam uma afluência garantida — como o inglês Alfred Hitchcock, Wong Kar Wai, cineasta de Hong Kong, ou o português João César Monteiro — Paulo Branco refuta que as salas esgotem devido aos ciclos de cinema do passado. “Os blockbusters do Nimas são todos. Esgotou o filme do Jim Jarmusch [Pai Mãe Irmão Irmã], que é um filme que se estreou agora, mas anteontem esgotou o Branca de Neve [de João César Monteiro]. Ontem esgotou as Recordações da Casa Amarela [1989] e o Psico [1960]. Portanto, entre o Hitchcock, o César e filmes estreados, os filmes esgotam e têm todos público”.

Branco nota ainda o facto de, numa sessão recente do clássico de Hitchcock — no Nimas mostra-se agora o maior ciclo dedicado ao realizador em décadas — a média de idades não ter ultrapassado os 25 anos. “Há muitos jovens que querem vir ao cinema. Estão a descobrir uma experiência diferente, percebem que ver o Psico numa sala destas é muito diferente do que ver num computador.”

▲ O Cinema Medeia Nimas, em Lisboa, na noite de 12 de janeiro, entre as sessões dos filmes "Recordações da Casa Amarela" e "Psico", ambas esgotadas

Cortesia Medeia Nimas

Com uma cidade em plena transformação, a pressão turística e o fluxo de novos residentes na ainda não se sente na sala de cinema das Avenidas Novas. “Os espectadores são portugueses”, garante. “Logicamente, quando passamos um filme de uma [realizadora] iraniana, há iranianos que vêm aqui ver, quando vem um filme turco, há turcos que vêm aqui ver. Quando passamos por essas cinematografias, logicamente, há quem venha cá ver, mas isso é normal.”

Situação distinta é a do Cinema Trindade, no Porto, onde já há sessões de filmes portugueses legendados em inglês. “Já o estamos a fazer há uns anos, mas nos últimos tempos houve um incremento dessa lógica porque também há mais estrangeiros na cidade. Havendo correspondência, nós acompanhamos”, explica Américo Santos, responsável pela Nitrato Filmes, exibidora que explora as duas salas do Cinema Trindade. “Neste momento, por exemplo, estamos com o Agente Secreto, do Kleber Mendonça Filho, e algumas sessões passam com legendas em inglês. Não abusamos muito disso, fazemos em sessões comunicadas, o público é alertado, mas é a pensar nesse público que já representa bastante.”

▲ Em 2025, o cinema português foi visto por 229.455 espectadores, menos de metade da audiência do cinema português em 2024

André Gouveia / Global Imagens

Circular entre salas, formar públicos

Em 2025, a Nitrato Filmes (também distribuidora) que programa o Cinema Trindade, no Porto, fez 96 mil espectadores, um aumento de 22,3% face a 2024. “Os resultados surgem sobretudo na fidelização do público. Neste momento há um circuito Cinéfilo, na Baixa do Porto, há uma circulação de públicos e o Trindade faz parte desse circuito”, justifica Américo Santos.

A conjuntura nos últimos anos tem sido favorável a esta sala de cinema, a caminho dos nove anos (nesta nova vida). Para o responsável, há vários fatores para isso — nomeadamente, a programação. Tal como no Nimas, também ali se faz “um cruzamento entre as estreias nacionais, aquilo que chega de novo às salas, com constantes ciclos de cinema”. “Ou seja, praticamente todos os meses propomos uma ideia de ciclo que está muitas vezes adjacente à própria história de cinema, a temáticas pertinentes. Acho que é um bocadinho esta fórmula que está a atrair o público”, revela ao Observador.

Ainda assim, o programador reconhece que há uma peça-chave para os números históricos do último ano: o fenómeno Ainda Estou Aqui, longa-metragem de Walter Salles que. “Foi um fenómeno. Aconteceu no início de 2025, logo em janeiro, e fez espectadores acima do normal para uma sala como o Trindade”, recorda. “Esse filme contribuiu muito para, logo desde o início do ano, nós começarmos a funcionar com esta rede. O filme teve imensos espectadores e isso permitiu ao Trindade poder fazer propostas de programação mais arriscadas, porque tínhamos uma ‘cobertura’ por esse filme, por esse número de espectadores”, elucida. “Nunca desde a nossa existência tinha acontecido um fenómeno assim semelhante, um filme que bateu todos os recordes de público diário, semanal, foi extraordinário”, regojiza-se.

"Os blockbusters do Nimas são todos. Esgotou o filme do Jim Jarmusch ('Pai Mãe Irmão Irmã'), que é um filme que estreou agora, mas anteontem esgotou o 'Branca de Neve' (de João César Monteiro). Ontem esgotou as 'Recordações da Casa Amarela' (1989) e o 'Psico' (1960). Portanto, entre o Hitchcock, o César e filmes estreados, os filmes esgotam e têm todos público.”
Paulo Branco, do Cinema Nimas, em Lisboa

As sessões especiais também contribuem para que o público habite o espaço da sala de cinema além do tempo do filme. “Neste momento temos um público fidelizado e interessado, e recuperamos muito essa ideia da dimensão social do cinema. Isso é que neste momento é um grande fator diferenciador das restantes propostas de cinema que surgem nos multiplex. O facto de estarmos em contraciclo deve-se muito a esta ideia: de as pessoas irem ao cinema e terem algo mais do que o próprio filme.”

“O Trindade hoje é uma sala onde as pessoas se encontram no cinema. Vejo as pessoas a falar sobre cinema, era algo que se tinha perdido e estamos a resgatar um bocadinho essa ideia de cinema que aproxima as pessoas. É mesmo um ponto de encontro. O cinema, às vezes, é mesmo um pretexto para as pessoas estarem juntas”, acredita.

O Batalha Centro de Cinema, outra sala de cinema na cidade com porta virada para a rua, não é concorrência, não disputa espectadores. “Não o entendemos como concorrente, bem pelo contrário”, esclarece Américo Santos. “O Batalha tem um papel importantíssimo, tem uma grande missão de formação de públicos. Isso demora tempo, é preciso também sublinhar isso, mas achamos que esse trabalho que o Batalha está a fazer vai trazer frutos ao Trindade.”

Aliás, também o Batalha Centro de Cinema registou, no ano passado, a maior afluência desde a sua reabertura em dezembro de 2022, com um crescimento de 16% face ao ano anterior. “Há um público comum ao Trindade e ao Batalha, ele circula entre as salas e isso não é um problema, bem pelo contrário, é esse complemento. Entendemos que o Batalha é muito importante porque tem um papel fundamental, desde o público infanto-juvenil até um público adulto que também tem a hipótese de pôr a história do cinema em dia”.

É a pensar nesse espectador circulante que existe o Cartão Tripass, que dá acesso privilegiado ao circuito de cinema da Baixa do Porto com desconto nas salas Cinema Trindade, Cinema Batalha, Teatro Municipal do Porto – Rivoli / Campo Alegre e Passos Manuel. “O Tripass é importantíssimo porque é um excelente contributo para a fidelização de públicos. Não é um cartão específico do Trindade, é um cartão que é alargado a esse circuito e que foi muito importante para esta circulação de públicos”, afirma Américo Santos. Dez euros anuais pelo dito cartão dão direito a um bilhete gratuito para uma sessão à escolha e 25% de desconto nos restantes bilhetes.

"[Os proprietários do Cinema Trindade] são pessoas que durante décadas viveram do negócio do cinema e, portanto têm um carinho muito especial pelo cinema, não são só empresários. A pressão imobiliária hoje nas cidades, em Lisboa e Porto, é complicadíssima, mas nós temos o futuro assegurado nos próximos tempos. Enquanto estivermos com eles, nós continuaremos”
Américo Santos, do Cinema Trindade, no Porto

Segundo o responsável pelo Cinema Trindade, os utilizadores do Tripass representam “um quinto do público” desta sala de cinema. “Ainda não fizemos uma análise muito profunda do que foi o ano de 2025, mas sentimos sobretudo uma coisa muito importante: o Tripass é um cartão muito usado por estudantes, estudantes Erasmus e até algum público estrangeiro residente na cidade, nómadas digitais. Não são turistas, é um público residente no Porto. Isso é importante. Significa já um quinto do nosso público e isso é bastante considerável. Percebemos que isso permite uma integração desse público estrangeiro na própria cidade, através do cinema”, aponta. “É importante porque torna os bilhetes mais acessíveis e torna a ida ao cinema mais confortável”, conclui.

Já para a Medeia Filmes, que explora o Cinemas Nimas, o preço dos bilhetes é uma não-questão. Até porque no caso do Nimas, [o preço] “é mais alto que os outros”, confirma Paulo Branco. Segundo o responsável, “este trabalho tem que ser recompensado”. Nos 88.512 espectadores do Nimas do último ano “não há bilhetes gratuitos”, frisa. “Os espectadores respeitam o trabalho de quem fez os filmes, quem os distribui e quem corre esses riscos e quem os produz. Não se vai ao futebol à borla, nem ao teatro à borla, não se bebe uma cerveja à borla. Ir ao cinema é um ato, uma decisão de uma pessoa que quer ver um filme”, defende.

Em tempos, a Medeia Filmes — que chegou a ter outros cinemas além do Nimas, como o Monumental, no Saldanha — chegou a ter disponível um cartão de fidelização que permitia, pelo valor de 20€ por mês, assistir a um máximo de dois filmes por dia, em sessões diferenciadas de pelo menos duas horas. Mas há muito que a exibidora não está a aceitar novos subscritores. “Tinhamos um cartão que era o Medeia Card, mas deixei e cada vez reduzo mais. Para já, porque só tenho uma sala. Isto justifica-se quando se tem muitas”, explica Paulo Branco, que adianta que “ainda há 30 ou 40 pessoas que têm o cartão, pessoas que há muitos anos vêm aqui ao cinema e que não quero de maneira nenhuma que de um dia para o outro deixem de poder vir.” Mas, segundo o produtor, o trabalho e o sucesso fazem-se “sem que seja necessária essa fidelização”. “Sempre fui contra”, insiste. “[Não foi pelo preço do bilhete,] as pessoas deixaram de ir ao cinema por escolha, mas foram um bocado por consumir pipocas. Aqui é o contrário. Aqui não temos pipocas, não temos publicidade, não temos nada. Temos realmente uma relação dos filmes com os espectadores e voltámos ao que pensamos ser a pureza do que é a exibição cinematográfica.”

▲ Em 2025, o Cinema Trindade, no centro do Porto, fez cerca de 96 mil espectadores, um aumento de 22,3% face ao ano anterior

Cortesia Cinema Trindade

Aos 75 anos, Paulo Branco, que foi distinguido com o Prémio Carreira nos Prémios Sophia em 2025, continua a programar livremente, mas escutando o espectador. “Somos mais livres do que uma cinemateca”, disse na conferência de imprensa da semana passada, sobre a agilidade de uma sala independente no que toca à programação. “A vantagem [que temos em relação] às cinematecas é essa: enquanto houver espectadores não paro [de mostrar os filmes]”. Assim também se explica o fenómeno de Dias Perfeitos, filme de Wim Wenders que esteve um ano em exibição no Cinema Trindade, no Porto. Porquê? Porque havia espectadores.

Que futuro para as salas de cinema em cidades gentrificadas?

Para lá dos números risonhos da bilheteira, há outro ponto comum a estes dois casos de sucesso: ambos se situam em cidades fortemente pressionadas pelo mercado imobiliário. Em Lisboa e no Porto, é quase diário o anúncio ou notícia do fecho de mais um espaço que transporta consigo a história e a memória urbana — lojas, salas, lugares que resistiram ao tempo, mas não à especulação.

“Foi uma grande batalha, mas isto [Nimas] agora está classificado, e sendo classificado não poderá ser outra coisa que não seja cinema”, diz Paulo Branco. A classificação implica que, caso os proprietários entendam fazer do espaço outro negócio que não um cinema, seja necessário a aprovação do Ministério da Cultura para uma desafetação do espaço para outras atividades sem ser a exibição cinematográfica. “De uma certa maneira, faz com que os proprietários nos prefiram ter a nós”, diz, garantido que a Medeia, sendo arrendatária, tem um contrato de “longo termo”.

Já no caso do Trindade, “é uma sala que tem a vantagem de ter proprietários ligados à história, estão ligados ao cinema”, diz Américo Santos. “É uma família que foi fundadora do cinema no Porto, tem raízes e, portanto, não é um corpo estranho, são pessoas que têm uma afinidade com o cinema e, portanto enquanto isto estiver na mão deles nós também cá estaremos”, diz com tranquilidade.

Refere-se aos herdeiros da firma Neves & Pascaud, criada por Manuel da Silva Neves e Edmond Pascaud, que teve um importante papel na difusão da exibição cinematográfica no Porto, e que além do Cinema Trindade detém também o cinema Batalha — que está arrendado à CMP por 25 anos. “São pessoas que durante décadas viveram do negócio do cinema e, portanto, têm um carinho muito especial pelo cinema, não são só empresários, são pessoas que têm uma ligação ao cinema”, assegura. “A pressão imobiliária hoje nas cidades, em Lisboa e Porto, é complicadíssima, mas temos o futuro assegurado nos próximos tempos. Enquanto estivermos com eles, continuaremos.”

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