A Câmara Municipal de Cascais vai comprar o Atlântida Cine, cinema de bairro em Carcavelos atualmente encerrado, confirmou o gabinete de imprensa do município ao Observador. A autarquia “chegou a acordo com os proprietários para a aquisição do imóvel e do respetivo recheio, incluindo mobiliário e equipamento de projeção, pelo valor de 600 mil euros”.
O Atlântida Cine, o último cinema de bairro da linha de Cascais, foi fundado em 1982 por Fausto Semedo e durante mais de 40 anos operou na cave do Centro Comercial de Carcavelos, junto à estação de comboios. Encerrou em maio de 2024 e, em dezembro desse ano, foi colocado à venda, noticiou então o jornal Público, já dando conta do interesse da autarquia.
O encerramento “não foi porque não tivesse a não dar [dinheiro]”, garante Alexandre Semedo, 56 anos, um dos filhos do proprietário e fundador do Atlântida, ao Observador. “Foram questões familiares”, explica. “Quando o meu pai faleceu, a minha família decidiu vender o cinema.” Fausto Semedo morreu em janeiro de 2025 e, desde então, houve interessados no aluguer do espaço, garante o filho, mas só a autarquia demonstrou interesse na compra no imóvel.
▲ Os últimos filmes a serem exibidos foram A Natureza do Amor (2024), de Monia Chokri, e Ainda Temos o Amanhã (2024), de Paola Cortellesi , como atestam os cartazes ainda nas vitrines
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
“O processo tem estado em desenvolvimento, com as necessárias diligências entre os serviços municipais e os proprietários para obtenção e análise dos elementos com vista à concretização do negócio. No entanto, durante esse trabalho, foi necessário esclarecer questões técnicas e jurídicas sobre o imóvel, o que tem arrastado no tempo a conclusão do processo”, esclarece a câmara, por e-mail. Segundo apurou o Observador, falta apenas formalizar a escritura.
Até lá, as portas do Atlântida Cine continuam fechadas. Os últimos filmes a serem exibidos foram A Natureza do Amor (2024), de Monia Chokri, e Ainda Temos o Amanhã (2024), de Paola Cortellesi , como atestam os cartazes que ainda estão nas vitrines. Junto à bilheteira consta a indicação de que o cinema de Carcavelos se encontra “encerrado para férias e obras de melhoramento”, que não aconteceram.
▲ Junto à bilheteira, a indicação de que o cinema de Carcavelos se encontra ”encerrado para férias e obras de melhoramento”
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
“A viabilidade económica do cinema está em perigo se demorarem muito tempo”, alerta proprietário
“Acho muito triste que o cinema esteja fechado porque os números são positivos, o cinema tem viabilidade”, desabafa Alexandre Semedo, que trabalhava com o pai na programação do espaço. “Trabalhei 40 anos no cinema”, solta. “É muito triste que o cinema esteja fechado e seria muito positivo para Carcavelos que o cinema estivesse a funcionar”, recordando a “programação para adultos, de qualidade” que ofereciam nas duas salas de cinema.
O atual proprietário teme a morosidade do processo de escritura, que atravessou uma mudança de autarca no município. “Gostava que a Câmara agisse mais depressa”, assume. “A viabilidade económica do cinema está em perigo se demorarem muito tempo, porque as pessoas estavam habituadas a ir àquele cinema”, alerta. Sem o cinema de bairro, o hábito dos residentes perde-se, adverte. “Está a demorar muito tempo”, insiste, lembrando que “estrategicamente para Carcavelos, é um local importante, a vila tem estrangeiros e muitos dos nossos clientes já eram estrangeiros”, nota.
Além disso, segundo Alexandre Semedo, “o cinema está funcional”, mas há máquinas e equipamentos que precisam de ser utilizados periodicamente. Entretanto, da fachada do prédio desapareceu o néon do cinema Atlântida Cine onde se lia: “Atlântida Cine Exibições diárias tardes e noites”. Ao Observador, o ainda proprietário explica que foi a administração do Centro Comercial de Carcavelos que pediu para retirar o objeto “devido ao vento e chuva”. “Com a chuva estragava-se”, admite, garantindo que o “o centro comercial guardou o néon”, pese embora “deva estar muito danificado”.
▲ Da fachada do prédio desapareceu o néon do cinema Atlântida Cine onde se lia: “Atlântida Cine Exibições diárias tardes e noites”. Ao Observador, o proprietário garante que o néon está guardado
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
O último cinema de bairro da linha deverá ser “cinema e auditório”
O atual proprietário garante que a intenção da autarquia é manter o Atlântida Cine “como cinema e auditório”, ainda que o município não responda taxativamente ao Observador sobre a finalidade da aquisição. “O imóvel está a ser adquirido por se tratar de uma sala de cinema com história no concelho de Cascais”, responde o gabinete de comunicação da Câmara de Cascais, perante a insistência.
Em setembro de 2022, na página da União das Freguesias de Carcavelos e Parede, um pequeno vídeo de Fausto Semedo dava conta do sucesso do funcionamento das “suas” salas de cinema. “A maioria das salas fecharam e este cinema tem-se mantido graças à fórmula de funcionar das nossas salas: a qualidade, em termos de som e projeção, e o atendimento das pessoas. É uma forma de estar completamente diferente das outras salas de cinema”, dizia. “Toda a gente em Carcavelos conhece a nossa sala”, continuava, reconhecendo que gostavam de ter mais público. “Mesmo assim, nós vamos aguentando e há muito público que reconhece a nossa sala e frequenta, temos tido clientes razoavelmente.”
[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Na página de Facebook do Atlântida Cine, multiplicam-se mensagens saudosas de frequentadores habituais: “O meu cinema preferido desde sempre! Um verdadeiro oásis. Que o regresso seja rápido e ainda melhores!”; “Quando reabrem?”; “O Atlântida é um bem cultural raro. Não se pode perder.” A expectativa, tanto dos atuais proprietários como dos frequentadores habituais, é de que este mantenha a sua função cultural.
▲ A expectativa, tanto dos atuais proprietários como dos frequentadores habituais do Atlântida Cine, é de que este, nas mãos da autarquia, este mantenha a sua função cultural
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
De resto, a vila de Carcavelos, no concelho de Cascais, chegou a contar com outra sala de cinema de bairro: o Vitória Cine. Após o encerramento, o edifício teve diferentes utilizações, tendo funcionado como ginásio, até ser demolido em 2017. No seu lugar acabaria por ser construído o Criarte, não um cinema, mas um espaço cultural polivalente da Câmara Municipal de Cascais.
Transformado em polo cultural, o antigo cinema passou a acolher “todos os tipos de apresentações, como cinema, teatro, música, dança, artes, conferências e workshops”, segundo a página da autarquia. No entanto, de acordo com a agenda pública do centro cultural até ao final de fevereiro estão programados concertos e peças de teatro, não estando prevista a exibição de qualquer filme.