O cenário é minimalista e denota solidão: há uma mulher, de camisa de noite, sobre um divã; tem aos pés um tapete vermelho e, sobre a cabeça, um lustre a precisar de arranjo. A mulher é Benedetta Croce, atriz cuja idade de ouro parece ter ficado para trás, tal como o reconhecimento, o glamour, as festas, os amigos e, muito claramente, a juventude. É uma mulher só, ela e os fantasmas, desenterrando figuras e acontecimentos do passado. Não sabemos ao certo o que é real. Sabemos, sim, que recebeu o telefonema de um realizador a convidá-la para participar num projeto chamado Medeia, o que espoleta memórias, reflexões.
“No espelho, o meu rosto lembra-me alguém que eu já fui”, solta Benedetta. Para logo se corrigir: “Não posso pensar tanto. Tenho de limpar a cabeça. Esta casa é grande de mais para uma pessoa só”. Entretanto, vai chamando por outra mulher, que não responde. E questiona: “Terá morrido?”. Estará naquele momento a sangrar, “a estragar-me a tijoleira insubstituível da cozinha”? Ou ter-se-á escapulido “pelas traseiras para ir namorar com o filho da porteira”? Os pensamentos atropelam-se. “O realizador disse que eu podia ser o centro do filme, a primeira personagem, a Mulher.” Assim, com letra grande. “Eu vou ser esse centro maiúsculo.” Está dado o tom de Maiúscula, a mais recente criação própria do Teatro Nacional São João, no Porto, que se estreia já nesta quarta-feira, 9 de setembro.
O espetáculo que abre a nova temporada do teatro nacional portuense é um monólogo protagonizado por Luísa Cruz, com base num texto de Jacinto Lucas Pires escrito a pensar na atriz. Uma a interpretar outra, portanto. Uma atriz que, apesar da experiência de quatro décadas, continua a subir ao palco “de braço dado com o medo”, garante aos jornalistas, à margem de um ensaio. Já lá vamos. Por agora, continuamos atentos a Benedetta, que divaga sobre o seu ex, Thomas, “numa praia do Pacífico, com a nova namorada”. Ele “todo bronzeado”, os dentes “impossivelmente brancos”; ela, uma “mulher estupidamente nova”, ao lado, “de fio dental”. Olhando em redor, diz que tudo lhe surge agora como “obsceno”: das mãos com manchas e veias salientes ao “cheiro tão parado dos objetos”.
▲ “É fundamental para qualquer ator fazer um monólogo, porque revela o que de melhor e pior está dentro do ator e da própria pessoa. Todas as inseguranças, todas as forças"
JOSÉ CALDEIRA
Quem é, afinal, Benedetta Croce? Marcos Barbosa, responsável pela encenação, contextualiza: trata-se de uma atriz de teatro e cinema com uma carreira gloriosa atrás de si, uma diva que, atingida certa idade, ficou “um bocadinho esquecida”, e que encontramos sozinha em casa, à procura do seu lugar. Ora, “aparentemente, recebeu um telefonema para fazer um novo filme sobre Medeia, um papel que ela fez, de sucesso, no passado; e está nessa casa, com essas memórias, a pensar no futuro, presa ao passado”, completa. Fala do filho, fala do ex-marido, fala da tal mulher que chama e não há meio de aparecer. Ausentes, todos eles. E o telefonema do tal realizador “foi há 30 anos, naquela manhã ou na semana anterior”? Terá sequer acontecido? Benedetta está viva? Está morta? Muito é deixado em aberto. São espaços em branco para os espetadores preencherem.
“O que vemos é uma mulher a falar dela própria, dos outros, da sua relação com o corpo, da sua relação com a idade, com o filho, com o ex-marido”, refere, por seu lado, Luísa Cruz. O espetáculo “não aponta caminhos ou soluções”. Mas põe em cima da mesa vários temas. “Fala-se de ter a coragem de viver num corpo verdadeiro”, exemplifica. “Ela diz que não faz plásticas. Que quer ser uma mulher antiga e livre, seja lá isso o que for.” E como é, para uma atriz, interpretar outra atriz? “Gosto de ir buscar coisas ao mundo, e não só a mim. Porque o mundo é muito maior do que eu. Portanto, quando ela diz: agora sou uma mulher antiga e livre, penso em todas as mulheres que não são livres.”
“Uma deusa grega no pátio, em biquíni”
A obra Medeia, de Eurípides, também não surge por acaso. “Quando está a fazer a personagem, Benedetta torna-se esta mulher maiúscula de que fala”, comenta Marcos Barbosa, assumindo algum paralelismo com a história da mulher forte que, uma vez traída, tece a sua vingança. É que, assim como Medeia matou os próprios filhos, Benedetta resolve “matar os seus fantasmas”. “Como a Medeia, ela exige o seu lugar”, acrescenta o encenador. E, de algum modo, “será sempre uma espécie de deusa grega no pátio, em biquíni”.
Para Marcos Barbosa, o texto de Jacinto Lucas Pires é tão “cheio de empatia” que conseguimos imaginá-lo na boca de uma mulher, apesar de vir da cabeça de um homem. Ademais, “é um texto cheio de memórias do teatro e de homenagem ao grande teatro, este teatro das grandes peças, o teatro da palavra, o teatro de atores que representam através da imaginação e nos levam para esse imaginário”.
O espetáculo foi construído em diálogo com a atriz e o encenador, a partir de um convite do São João. “Isto foi um desafio que o Teatro Nacional São João me lançou. Eu disse que não, já tinha feito um monólogo, não queria fazer mais”, recorda Luísa Cruz. Afinal, é um trabalho muito solitário e sem rede, no sentido em que só depende de si em palco. “Depois convenceram-me, por várias razões. Nomeadamente, porque a peça vai andar em digressão. É muito importante a descentralização.” Houve ainda a questão de o texto ser escrito de propósito. “Isto é um bónus muito grande, é uma honra. Não é todos os dias que escrevem para um ator ou para uma atriz”, reconhece.
▲ O que vemos é uma mulher a falar dela própria, dos outros, da sua relação com o corpo, da sua relação com a idade, com o filho, com o ex-marido”, refere Luísa Cruz
JOSÉ CALDEIRA
Apesar de ter estado reticente, Luísa Cruz crê que “é fundamental para qualquer ator fazer um monólogo, porque revela o que de melhor e pior está dentro do ator e da própria pessoa. Todas as inseguranças, todas as forças. O cérebro está sempre a dizer: não vais ser capaz de fazer isto, vais enganar-te, vais ter uma branca… Há que lutar contra isso e trazer o medo para dentro de cena, connosco, assim, de braço dado, senão não fazemos nada.”
O espetáculo, com pouco mais de uma hora de duração e classificado para maiores de 12 anos, está em cena até 13 de setembro, no Teatro Carlos Alberto, com sessões quarta, quinta e sábado, às 19h; sexta, às 21h; e domingo, às 16h. Os bilhetes custam 12 euros. De seguida, parte em digressão nacional, com apresentações no Teatro Municipal da Lousã, no dia 14 de novembro; no Teatro Municipal António Pinheiro, em Tavira, no dia 21 de novembro; e no Teatro Municipal de Bragança, em 20 de março do próximo ano.
Maiúscula insere-se no ciclo Parla-Solos, um programa de três monólogos que abrange também Kung-Fu, de Dieudonné Niangouna, com dramaturgia e encenação de Renata Portas e interpretação de Pedro Manana, em cena de 17 a 19 de setembro; e Cantar de Galo, de Robert Schenkkan, com direção e interpretação de Jorge Andrade, para ver entre 24 e 26 de setembro.