Uma cientista responsável pelo programa Artemis da agência espacial norte-americana NASA disse esta quinta-feira à agência Lusa esperar que aquela missão de exploração da lua possa inspirar os mais jovens como os programas Apollo fizeram há meio século.

Em declarações à margem da conferência internacional GLEX Ignition, a cimeira de exploração global que esta quinta-feira começou em Coimbra, no Centro de Portugal, Kelsey Young destacou ainda a importância da exploração científica da lua para dar resposta a questões ainda em aberto sobre a ciência lunar e sobre a relação desse satélite com a Terra e o sistema solar.

No âmbito do programa Apollo, 12 homens norte-americanos pisaram a superfície lunar, entre julho de 1969 e dezembro de 1972, em seis missões bem-sucedidas, estando o regresso à lua agendado para 2028 – na missão Artemis IV – 59 anos depois do astronauta Neil Armstrong ali ter chegado pela primeira vez na história.

“Trabalho na NASA com um monte de gente realmente incrível e inteligente, e muitos deles, como eu, seguiram uma carreira que os levou à NASA ou a outra agência espacial ou científica, ao assistirem ao programa Apollo e a inspirarem-se nele”, declarou Kelsey Young.

“Espero, realmente, que aquilo que estamos a fazer com o Artemis dê início a uma nova geração dessa inspiração e descoberta. Eu não sou astronauta, não viajo para o espaço, mas apoio quem o faz. E há crianças e jovens que me perguntam sobre carreiras nas áreas de ciências e da engenharia, e como é incrível que aquilo que estamos agora a fazer possa, um dia, inspirar toda essa nova geração de cientistas, engenheiros, artistas e mentes criativas a dedicarem-se a ajudar a levar a humanidade ainda mais longe”, argumentou a cientista.

“Também sou mãe, tenho dois filhos pequenos. Por isso, levo muito a sério a missão de preparar as futuras gerações para o sucesso, para a inspiração e para a descoberta”, enfatizou.

Kelsey Young lidera, desde 2022, a integração das equipas científicas do programa Artemis nas operações de controlo de voo da NASA, tendo sido também responsável pelos objetivos científicos lunares da missão Artemis II – o sobrevoo da lua por quatro astronautas que ocorreu em abril – incluindo as observações e fotografias da lua e da Terra.

Participa ainda na formação científica dos astronautas, incluindo exercícios no terreno que simulam condições de exploração noutros corpos celestes.

Questionada sobre aquilo que mais a surpreendeu durante a segunda fase do programa Artemis – a primeira missão tripulada, em que quatro astronautas sobrevoaram a lua na cápsula Orion – a cientista norte-americana assumiu ter tido surpresas, “algumas sobre ciência e talvez só uma sobre assuntos humanos”.

“Em algumas observações científicas, a nossa tripulação viu flashes de impacto [clarões de luz que ocorrem na superfície da lua, concretamente na face oculta, quando detritos espaciais ou pequenos meteoritos, face à ausência de atmosfera, colidem contra o solo] o que era esperado por alguns cientistas, mas eu, na verdade, não o esperava”, vincou.

“E isso dá-nos uma ideia sobre o ambiente lunar moderno e dinâmico e como ele pode afetar os futuros exploradores humanos”, acrescentou Kelsey Young.

Outro objetivo científico sobre o qual reconheceu que não tinha conhecimento prévio, o que a obrigou a estudar e aprender bastante, foram as chamadas observações fotométricas, ou seja, a forma como a luz do sol incide sobre a superfície lunar.

“Ao fazer com que a nossa tripulação fotografasse e descrevesse as mesmas características mais do que uma vez, conseguimos reunir esse banco de dados sobre fotometria, sobre como a iluminação se comporta na superfície lunar. E assim, mesmo durante a nossa passagem de apenas seis horas, conseguimos reunir dados realmente interessantes, imagine o que poderíamos fazer se estivéssemos mais tempo em órbita”, alegou.

Já do ponto de vista humano, assumiu não ter pensado – ocupada que estava na preparação do voo espacial – como iria ser a reação do público, mundo fora, à missão Artemis.

“A quantidade de apoio e energia positiva que recebemos foi simplesmente notável e inspiradora. E isso continua a impressionar-me até hoje, mesmo seis meses depois, o facto de o mundo inteiro se ter unido por algo tão positivo. Foi tão, tão difícil fazer o que fizemos, que as pessoas terem reagido a isso foi, ao mesmo tempo, surpreendente e totalmente gratificante”, enalteceu.