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Um programa notável no regresso do DocLisboa, com a apoteose “Biografia de Jorge Luis Borges”

Foram anunciados 198 filmes de 51 países, entre eles 34 estreias mundiais, com Edgar Pêra a abrir e Alain Cavalier a fechar. Obra de Lino Brocka em retrospectiva, homenagem a Patricio Guzmán.

Biografia de Jorge Luis Borges, do argentino Mariano Llinás, é um dos grandes destaques de mais uma edição do DocLisboa
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Biografia de Jorge Luis Borges, do argentino Mariano Llinás, é um dos grandes destaques de mais uma edição do DocLisboa

Biografia de Jorge Luis Borges, do argentino Mariano Llinás, é um dos grandes destaques de mais uma edição do DocLisboa

Por vezes, é hábito perguntar-se neste tipo de textos de apresentação: e se só pudesse ver um, um só e nada mais? O DocLisboa, que corre este ano entre 15 e 25 do próximo mês, vai mostrar quase 200 filmes na Culturgest, no Cinema São Jorge, na Cinemateca Portuguesa e no Cinema Ideal, além de uma performance agendada para o CAM, na Gulbenkian. Ver só um, é muito pouco. Mas se um só fosse pedido, a resposta tinha que ser esta: Biografia de Jorge Luis Borges, do argentino Mariano Llinás.

Arranca em Genebra, junto à campa do génio, mas não tem pinga de homenagem funerária. É antes vida celebrada, com intensidade, leitura cruzada de uma obra inteira, interrogada, revolvida, também biografia estudada, ao segredo, com malícia, com prazer pelos detalhes (a grande e suculenta relação de amizade criativa entre Borges e Bioy Casares, um de tantos exemplos). Deste filme, ninguém poderá dizer tudo, nem mesmo o seu obstinado e generoso realizador, já que caímos em labirinto sem fim, um dos mais completos das artes e letras do século XX, labirinto borgesiano, como não poderia deixar de ser. Cinco horas e meia de cinema em três partes. O DocLisboa exibe-o na secção Riscos.

Guerra no Asfalto, filme de Edgar Pêra, parte do livro homónimo de Manuel Ricardo Sousa para cruzar os relatos de um antigo operacional das FP-25 com as memórias do realizador sobre os turbulentos anos 1980 (entre arquivos, ficção e inteligência artificial). Abre o festival, dia 15, depois da estreia mundial recente, no Festival de Locarno. E nem parece, mas é o mais confessional, o mais auto-biográfico filme do seu autor.

A fechar o Doc, chega-nos outro auto-retrato, sensibilíssimo, tão comovente, porventura o derradeiro de Alain Cavalier, 95 anos feitos há pouco, a 14 de Setembro: Merci d’être venu. Como já antes se escreveu nestas páginas, é um doce adeus, lúcido e limpo, a esta forma tão generosa de ter sabido observar, amar e estar próximo de nós, com uma imensa alegria de estar vivo e, em simultâneo, ciente de que tudo na vida acaba. O cinema de Alain Cavalier é único.

Há já longos anos (e sem desprimor para os seus concorrentes na ficção) que o DocLisboa é o festival português que mais aposta (fruto de muito trabalho antes desenvolvido) numa coisa rara em Portugal e num país tão pequeno como o nosso: a primazia de estreias mundiais. Ninguém estava habituado a isto até o Doc nos provar que tinha argumentos. E este festival mudou, de facto, as regras do jogo. Há hoje artistas, espalhados pelo mundo, que escolhem o Doc para mostrarem pela primeira vez as suas obras.

“A veces me entra tristeza, otras veces rebelión”, de María Aparicio

Neste campo, com sete destas estreias mundiais na Competição Internacional, não será invulgar descobrir-se no concurso 13 Alfinetes (após a passagem, em Outubro de 2025, de uma versão não completa do filme na Cinemateca), afinal é um filme dos lisboetas João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, inspirado num milagre atribuído a Santo António e pintado em Madrid por Goya — e vai até à Lisboa dos nossos dias. Os dois artistas ultimam, por esta altura, a nova longa-metragem de ficção de João Pedro, que se estreará certamente em 2027.

Já invulgar — e motivo de grande satisfação — é notar-se, no mesmo concurso internacional, a presença do libanês Ghassan Salhab (um dos mais prestigiados cineastas do seu país), que apresentará Don’t Touch Me / Noli Me Tangere. Ou a dupla bielorussa e politicamente aguerrida Nikita Lavretski/Sergey Kolosovski, que trará até nós, antes de qualquer lugar no mundo, um novo trabalho, Smarty, produzido na Lituânia (recordamos ainda a memória da passagem, no DocLisboa 2022, de A Date in Minsk, do mesmo Nikita Lavretski).

Ou, para mudar de paragens, a escolha de Saturno o pequeño tratado de la melancolía, de Mariano Donoso Makowski, que nos chega da Argentina. É o autor do hipnótico e lírico Buenos Aires al Pacífico, que se guarda na lembrança com estima. Os franceses Éric Baudelaire (Car la lune), Jacques Meilleurat (Le centaure) e Isabelle Prim (Mémoires d’un blaireau) regressam ao Doc, assim como a brasileira Paula Gaitán (About Space and Depth), sinal claro de que têm em consideração o certame português, que o tratam como um dos mais importantes.

Na Competição Nacional, que também não distingue curtas de longas (um filme é um filme e isso basta), há 11 obras — e aqui sim, todas sem excepção, em estreia mundial, facto assinalável. São elas Povo e Poder, de Ico Costa, Os Continuadores da Revolução, de Pedro Neves, The Morning Wind, de Cláudia Ribeiro, Visitas de Uma Parente Afastada, de Inês Oliveira, A Voz de Todos, de Manuel Mozos, Hipogeus, de Raul Domingues, A casa é a ruína de uma casa, de Inês Sapeta Dias, Sopa de Cavalo Cansado, de Maria Novo, Golden Hour, de André Santos Martins, La continuación, de Maxime Martinot, e Mysticisme du Sud, de Fábio Penela.

Na mesma secção Riscos que programa o “monumento” de Mariano Llinás encontram-se filmes de autores como Lee Anne Schmitt, Ben Russell, Declan Clarke, Lucía Seles, Ted Fendt e Lynne Sachs. Outra obra argentina de grande valor, e que venceu em Veneza a secção Giornate degli Autori — A Veces me entra tristeza, otras veces rebelión, de María Aparicio — surge no mesmo lote, do qual também faz parte o canadiano Violence du corps de l’autre, de Denis Côté, que vem da competição de Locarno.

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O filipino Lino Brocka fotografado em Cannes, em 1989, dois anos antes da sua morte

Gamma-Rapho via Getty Images

A Palestina está igualmente no centro do programa Aude Fourel and Monica Maurer: Bringing Back the Images of Palestine. Uma história de imagens da Palestina desde os anos 70 ergue-se agora através de duas artistas que documentaram abundantemente a vida naquele território. Aude Fourel e Monica Maurer virão a Lisboa para apresentar e partilhar o seu trabalho com o público do festival.

Já antes anunciada fora a retrospectiva, em colaboração com a Cinemateca Portuguesa, da obra recentemente restaurada do filipino Lino Brocka (1939-1991), intitulada Matem o Artista Nacional. Brocka foi um artista único desse país eternamente à mercê de conquistadores, ditadores e caciques de toda a espécie aquele que melhor deu voz a uma desilusão colectiva, vertida, com frequência, pelas armas do melodrama, em histórias que não esqueceram a faca nem o alguidar. A sua descoberta no Ocidente, em especial pelo Festival de Cannes desde o final dos anos 70, deu-lhe uma reputação que, em grande parte, ficou ligada à memorabilia desses festivais porque os filmes nunca se estrearam, de facto, nos circuitos comerciais, salvo algumas excepções, e a obra caiu no esquecimento até à conclusão dos restauros mais recentes, apresentados este ano no Il Cinema Ritrovato, em Bolonha. Aproveitou o DocLisboa este legado para organizar com a Cinemateca Portuguesa, enfim, uma análise profunda do legado de Brocka. O ciclo conta com o apoio à curadoria do cineasta e artista plástico filipino Khavn de la Cruz.

Por fim, é de notar a homenagem que o Doc presta ao chileno Patricio Guzmán, que tinha particular estima pelo festival lisboeta: Mi país imaginário, o último filme do realizador, ainda inédito em Portugal, será exibido em sessão única.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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