A Companhia do Chapitô estreia, na quinta-feira, “Ensaio sobre a Lucidez”, a partir de José Saramago, nos 30 anos da companhia, peça que alerta para a “falta de humanismo e debilidade das democracias” atuais, disse esta terça-feira o encenador à Lusa.
“Ensaio sobre a Lucidez” foi o texto escolhido por ser “muito interessante e muito atual”, ao pôr “em causa uma democracia que é extremamente frágil”, acrescentou José Carlos Garcia.
Ao contrário do que a companhia faz habitualmente, que é pegar numa ideia, desenvolvê-la no palco e depois, no final, elaborar o guião, desta vez foi decidido “dissecar o livro de José Saramago, página por página, e perceber” como seria possível “contar esta alegoria que ele faz, este exercício de imaginação, e depois transportá-la para palco”, explicou o encenador.
O “sentido de humor e a própria ironia” do escritor e das suas personagens estão também na peça, uma vez que “não deixam de ser personagens reais observadas por ele na sua vida”, disse José Carlos Garcia.
“‘Ensaio sobre a Lucidez’ é exatamente o que acontece no dia em que as pessoas decidem por vontade própria, não por uma organização, sem falarem uns com os outros, votarem quase todos em branco”, o que faz com que o medo se instale no governo, levando a que um Estado democrático “possa revelar impulsos autoritários”, frisou.
“Por isso, a questão de uma democracia frágil”, enfatizou.
Nos 30 anos da companhia, o coletivo decidiu então “montar um espetáculo através de um livro de José Saramago”. Fazia-lhes “todo o sentido, 30 anos depois estar a falar desta democracia que, às vezes, como se diz, é frágil, mas também musculada“, precisou José Carlos Garcia.
O encenador sublinha que se trata de um texto super atual, que “faz todo o sentido hoje em dia, pelos sinais velados de que podemos estar nesse caminho”, alertou.
Garcia refere-se ao caminho do “autoritarismo e da falsa democracia mundial”, precisando que o cidadão “está, muitas vezes, perdido, sem oportunidade de interferir politicamente e tentar mudar”.
“É como se fossemos impotentes diante das instituições democráticas”, frisou.
Em cena, “Ensaio sobre a Lucidez” pauta-se pelo cenário minimalista, sem mecanismos cenográficos nem figurinos especiais, em sintonia com a estética da Companhia, privilegiando-se “todo o trabalho de corpo do ator para servir a história”.
A peça começa com uma enorme tempestade, com os delegados da secção 14 de voto muito preocupados com a ausência de votantes. Só após o temporal é que chegam eleitores para votar, o que leva os delegados e o presidente da mesa a ficarem extremamente contentes até ao momento do escrutínio em que percebem que a maior parte da população votou em branco.
A partir daqui, começa a escalada: o Governo volta a marcar eleições, das quais resultam 83% de votos em branco, dando o tiro de partida para um clima de medo e de violência que o Governo vai instalar face a um povo que nem revoltado estava, mas apenas lúcido.
“E se o maior perigo para um governo não for um povo revoltado, mas um povo lúcido?” é a questão deixada pela peça que estará em cena até 25 de outubro, no Chapitô, com sessões de quinta-feira a sábado, às 21h00, e, ao domingo, às 17h00.
A peça é uma criação coletiva e conta com interpretação de Jorge Cruz, Pedro da Silva, Susana Nunes e Tiago Viegas.
Na assistência de produção e de encenação está Leandro Araújo.