Pouco a pouco, começam a notar-se em San Sebastián os filmes que contam neste concurso. E é preciso contar com The Debut, salto significativo no percurso do actor e realizador Jesse Eisenberg (n. 1983). É a sua terceira longa-metragem. O auto-indulgente e irritante When You Finish Saving the World assim como o elementar A Verdadeira Dor (que, apesar de tudo, elevou o nível) parecem exercícios escolares face ao novo trabalho.
The Debut tem raízes na própria vida de Eisenberg, decorrendo em circunstâncias semelhantes às que rodearam as suas primeiras experiências como actor enquanto crescia em New Jersey, numa família judia, muito antes do filme que o lançou há pouco mais de 20 anos, A Lula e a Baleia, pela mão de Noah Baumbach. A paixão evidente pelo teatro acompanhou o seu trabalho de dramaturgo, nada de espantar que Jesse tenha acabado por explorar agora esse universo no grande ecrã.
The Debut é a história de uma dona de casa suburbana de New Jersey que se deixou apagar aos poucos pela sua família de classe média confortável, e que certo dia, sem qualquer experiência na representação, decide fazer uma audição para um musical da companhia de teatro local. Chama-se Mona Friedman. O papel agarra logo pois temos uma actriz oscarizada a fingir que não sabe nada de interpretação. O encenador, Jerry, não chegou à Broadway mas é muito mais profissional, exigente e implacável do que o espírito de amor à camisola que anima aquele teatro. E assim se cruzam Julianne Moore e Paul Giamatti, que são só dois dos maiores talentos do cinema americano nascidos na década de 1960.
O perigo de se levar demasiado a sério
Mas o elenco, por si só, não garante que o filme está ganho. Ora, aquilo em que Jesse aposta, uma vez exposto o sonho de triunfo de Mona, é na sátira, a partir do momento em que a personagem, que sempre se secundarizou a si própria na vida, descobre ter uma identidade artística. No musical Nosy Neighbors que Giamatti está a ensaiar, é suposto que Mona interprete a responsável pela manutenção de um prédio de apartamentos que, além de cobrar a renda aos inquilinos, também desentope retretes.
▲ Jesse Eisenberg, esta quarta-feira, na conferência de imprensa de San Sebastián
Europa Press via Getty Images
Só que ela faz mais: obcecada pela perfeição e ofuscada como Narciso pela sua imagem no espelho, Mona leva ao extremo os ensinamentos de inspiração stanislavskiana do encenador da peça e perde a cabeça, quase até à loucura — um bocadinho com a bailarina insegura de Natalie Portman no Cisne Negro de Aronofsky – deixando de distinguir realidade de ficção e pessoa de personagem. É um processo emocional duríssimo. E Julianne Moore, secundada por um excelente Giamatti, cresce para picos só atingíveis por intérpretes de alto nível.
A ver vamos se The Debut confirmará os rumores de Óscares que a imprensa especializada americana lhe colou do lado de lá do Atlântico. O filme é imperfeito no ritmo e a torção da realidade que propõe esconde sabor amargo para os palatos da Academia. Já o que faz Julianne Moore (que não pôde vir ao País Basco), com personagem a precipitar-se na tragicomédia e no embaraço, é descomunal: tornou-se a favorita à Concha de Prata de Melhor Interpretação Principal (em 2021, San Sebastián também entrou na moda de abolir a distinção de género nos seus prémios de interpretação). Não lhe faltarão nomeações e louvores nos meses de Outono/Inverno que se avizinham.