O mexicano Alejandro González Iñarrítu (Birdman, The Revenant: O Renascido, Bardo, Falsa Crónica de Umas Tantas Verdades) não é um realizador desprovido de talento e de ofício técnico. O problema é que Iñarrítu é também um realizador cabotino, bombástico, presunçoso, laborioso, redundante, superficial com maquilhagem de “profundo”, autocondescendente, que gosta de pregar sermões com o dedo bem esticado e padece de chico-espertismo formal e narrativo. Não há talento nem ofício que sobreviva a tanto defeito, e todos eles estão mais uma vez à vista em Digger.

[Veja o “trailer” de “Digger”:]

Interpretado por Tom Cruise num duplo papel, Digger é difícil de descrever, tão grandes e tão importantes são as reviravoltas do enredo, uma das quais até acontece poucos minutos antes do final (e o espectador minimamente atento já percebeu um pouco antes que se vai dar). Iñarrítu quis fazer um filme que diz Coisas Muito Importantes sobre o futuro da humanidade, e tem uma mensagem de Grande e Urgente Atualidade (pelo menos para ele — a coisa mais importante para o espectador é que a fita acabe depressa, e a mais urgente é esquecê-la logo). Digger quer ser como que o equivalente de Doutor Estranhoamor, e estar para as catástrofes ecológico-climáticas como a obra-prima de Stanley Kubrick esteve para a guerra nuclear nos anos 60.

Só que Digger não é brilhantemente satírico, é pobremente grosseiro; em vez de eloquente, é flatulento; ao invés de articular um argumento, eructa-o; não sabe o que é ser subtil, só ser pesudo. Alejandro González Iñarrítu filma com traço grosso e muitos sublinhados, e fala aos espectadores como se se estivesse a dirigir a pobres de espírito, insultando o nosso bom senso e a nossa inteligência. A certa altura, e após a primeira reviravolta da história, o realizador chega ao ponto de encarregar uma das personagens secundárias de nos explicar o que aconteceu no passado recente, e o que se está a passar nessa altura.

[Veja uma conversa com o elenco do filme:]

Maquilhado para parecer mais velho e pançudo, Tom Cruise dá corpo a Digger Rockwell, a personagem do título, uma paródia de uma caricatura desajeitada. Digger é um poderoso e bronco magnata do petróleo que trata o presidente dos EUA por tu, só tem olhos para a sua incontinente e moribunda gata de estimação e é temido pelos empregados. A história passa-se num futuro próximo, em que existe uma série de novos gadgets de comunicação e computacionais, e Digger é informado de que houve um grave acidente numa das suas plataformas de exploração de petróleo no Ártico, que levou ao desprendimento de uma colossal massa de gelo. Se as correntes e os ventos não a desviarem, a bisarma poderá atingir a Noruega e provocar um megadesastre na Europa.

[Veja uma entrevista com o realizador:]

Tendo o presidente (John Goodman) à frente, o governo dos EUA reúne-se na mansão de Digger para, com este, e o seu aterrorizado cientista-chefe (Riz Ahmed) pensarem em como impedir que o mastodôntico iceberg chegue ao Velho Continente, mas o ambiente geral é de pânico, estupidez e boçalidade surreais. Entretanto, o presidente deu a Digger uma informação dramática sobre o futuro e a irmã do multimilionário (Sandra Hüller) já o confrontou, furiosa, com o facto de a sua nova empresa “sustentável” e ecologicamente corretíssima estar comprometida.

[Veja o trabalho de maquilhagem de Tom Cruise no filme:]

Por esta altura, já se deu a primeira reviravolta no argumento, uma daquelas quebra-costas, e também – inevitavelmente – “meta”, pelo que o filme passou a ter duas camadas narrativas, uma artificiosa e outra “real”, mas umbilicalmente ligadas, tornando-o duplamente pomposo, demonstrativo e pretensioso. E tornando a palestra que Iñarrítu nos quer impingir ainda mais óbvia, repetitiva, autoconvencida e balofa de didatismo. E a desejada comédia negra não existe, apenas um débil riso amarelo, muito pouco ajudado pela personalidade visual lúgubre e monocromática da fita.

Quanto mais Tom Cruise se esforça na pele do seu Digger, mais se percebe que o ator está prisioneiro de um cartoon ingrato, grotesco e ruidosamente hiperbólico (palavra que houve momentos do filme em que tive pena dele, tal o esforço – completamente vão – que Cruise faz para tentar impor a personagem). As restantes interpretações registam quase todas entre o histérico gutural e o frenético muito gutural, e nem sequer a pobre gata se aproveita, por causa da primeira reviravolta na história. Alejandro González Iñarrítu conseguiu fazer um filme sobre uma calamidade global que é ele próprio uma catástrofe cinematográfica.