Um terço dos portugueses está descontente com as cidades onde vivem, sendo que os residentes na Área Metropolitana de Lisboa revelam maior insatisfação, segundo um inquérito da Fundação Francisco Manuel dos Santos divulgado na terça-feira.
O mais recente “Barómetro das Cidades”, executado pela DOMP para a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), revela que as cidades portuguesas apresentam resultados menos favoráveis do que os registados no contexto europeu.
Em Portugal, apenas 70% dos inquiridos declaram estar satisfeitos com as suas cidades, face a 86% dos residentes europeus, com base no inquérito “Quality of life in European cities”, da Comissão Europeia.
A Área Metropolitana de Lisboa (AML) é a região do país que regista menor satisfação com a qualidade de vida: apenas 58% dos residentes estão agradados com a cidade onde vivem.
A AML apresenta as avaliações menos positivas em várias dimensões do ambiente urbano, como o ruído (apenas 35% estão satisfeitos), a qualidade do ar (40%) ou a limpeza urbana (30%).
A satisfação aumenta significativamente na Área Metropolitana do Porto (AMP), para 76%, com níveis de insatisfação mais baixos e mais próximos da média nacional.
A AML regista ainda avaliações negativas no acesso à saúde e à educação: nos cuidados primários de saúde, a satisfação situa-se nos 39%, abaixo dos 60% registados na AMP e dos 53% de média nacional.
São as cidades pequenas do litoral não metropolitano que registam as avaliações mais positivas nos domínios da saúde e da educação.
O barómetro analisa a qualidade de vida urbana, as relações comunitárias e a participação cívica, comparando áreas metropolitanas, cidades médias e pequenas do litoral não metropolitano, cidades do interior e regiões autónomas.
O inquérito demonstra que a crise da habitação pressiona sobretudo as áreas metropolitanas, enquanto nas restantes cidades a grande preocupação é a falta de oportunidades de emprego.
Mais de 65% dos inquiridos a nível nacional identificam a saúde e a habitação como as duas grandes prioridades para melhorar a qualidade de vida urbana, mas na AML estas prioridades sobem para a casa dos 70%.
A nível nacional, 51% dos inquiridos confirmam que os custos com a habitação condicionam outras despesas familiares e quase 80% rejeitam a ideia de que é fácil encontrar habitação adequada a preço razoável, situação que assume maior pressão na AMP (88%) e na AML (82%) e menor nas cidades das Regiões Autónomas (67%) e do interior (70%).
Em terceiro lugar das prioridades surge o emprego, apontado por 40% dos inquiridos a nível nacional, percentagem que aumenta para a casa dos 50% nas cidades do interior.
No que diz respeito à mobilidade, apontada como uma das áreas mais críticas nas cidades, o automóvel continua a ser o principal meio de transporte nas deslocações diárias, usado por 79% dos inquiridos.
O transporte público é a opção de apenas 28% dos residentes nas cidades portuguesas (aumentando para 44% na AML e 34% na AMP), abaixo dos 43% registados nas urbes europeias.
Os principais obstáculos apontados para não usar o transporte público não são os custos, mas a frequência insuficiente e a fraca articulação entre diferentes meios.
A falta de fiabilidade e pontualidade é destacada sobretudo na AML (42%), estando os residentes da AMP mais satisfeitos a este respeito (16%).
É na AML que se registam os níveis mais baixos de sentimento de pertença à comunidade (39%), confiança nos vizinhos (42%) e participação nas atividades do bairro (33%). Em contraste, nas cidades do interior, 68% dos residentes confiam nos vizinhos.
A perceção de segurança segue o mesmo padrão: mais de metade dos residentes da AML (51%) não se sentem seguros a andar sozinhos nos seus bairros à noite, valor que desce para 29% nas cidades do interior e 24% nas regiões autónomas.
O inquérito – que se baseou em 1.247 entrevistas a pessoas com mais de 18 anos, realizadas entre 10 de março e 24 de maio de 2026 – revela também diferenças no perfil sociodemográfico em função do tipo de cidade.
As cidades do interior concentram a população mais envelhecida (33% de residentes com 65 ou mais anos) e a maior proporção de reformados (30%), enquanto as cidades médias do litoral não metropolitano têm uma população mais jovem (27% entre os 18 e os 34 anos) e mais escolarizada (51% com ensino secundário ou superior).
Já a população migrante tem uma distribuição relativamente homogénea pelos diferentes tipos de cidade.
Apesar dos desafios identificados, a maioria dos residentes nacionais continua a imaginar o seu futuro na cidade onde vive, com apenas 19% a admitirem mudar de cidade e 18% a emigrarem para o estrangeiro.