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Solos, teatro de objetos, bailados e revista à portuguesa: sete peças para ver em outubro

Figuras de barro que recontam clássicos, um público refém num picadeiro de circo ou a poesia de Fernando Pessoa em palco. Eis sete espetáculos que merecem lugar marcado na agenda.

"Afro SALOYÁ ", de Isabél Zuaa, é um dos espetáculos em destaque em outubro
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▲"Afro SALOYÁ ", de Isabél Zuaa, é um dos espetáculos em destaque em outubro

Joanna Correia

▲"Afro SALOYÁ ", de Isabél Zuaa, é um dos espetáculos em destaque em outubro

Joanna Correia

“O Avesso da Pele”, de Coletivo Ocutá

TAGV — Teatro da Universidade de Coimbra, Coimbra (2 de outubro), Teatro Aveirense, Aveiro (3 de outubro), Cineteatro Louletano, Loulé (10 de outubro), Teatro Municipal de Ourém, Ourém (17 de outubro)

O Avesso da Pele, romance do escritor brasileiro Jeferson Tenório (editado em Portugal pela Companhia das Letras), chega agora a palco numa encenação do Coletivo Ocutá. A história acompanha Pedro, um jovem que tenta reconstruir a memória e a trajetória do seu pai, Henrique, um professor de literatura brutalmente assassinado numa abordagem policial violenta. A partir dos objetos deixados no apartamento do pai, o protagonista resgata o passado familiar para expor as pequenas tragédias e as marcas profundas da desigualdade racial no Brasil.

▲ "O Avesso da Pele" coloca em cena quatro atores que alteram entre as personagens

Quatro atores alternam papéis em palco, vestindo a pele ora do pai ora do filho ao longo do espetáculo. A peça faz um périplo por Portugal no âmbito da programação da bienal de teatro brasileiro Todos São Palco, que nesta edição se dedica a trazer à Europa narrativas e visões críticas que desafiam a identidade e as contradições do país.

“O Mundo Mágico do Tudo Bem”, texto de António Afonso Parra e Luís Araújo, encenação de António Afonso Parra

Teatro Viriato, Viseu (2 de outubro)

Em O Mundo Mágico do Tudo Bem, uma trupe de artistas de circo, exausta de servir como fuga e anestesia, decide trancar as portas do recinto durante uma atuação e fazer da plateia refém. Com texto e dramaturgia assinados por António Afonso Parra e Luís Araújo — e encenação de Parra —, o espetáculo desconstrói a fantasia circense para confrontar o público com o colapso moral e as urgências do mundo real.

▲ Hélder Guimarães, Isabel Abreu, João Grilo, Rui Paixão compõem o elenco de "Um Mundo Mágico do Tudo Bem"

Com interpretação de Hélder Guimarães, Isabel Abreu, João Grilo e Rui Paixão, a produção contrapõe a promessa de evasão a um acerto de contas direto com as contradições do mundo. Depois de uma estreia fugaz no Teatro Rivoli, no Porto, em dezembro passado, a peça mostra-se agora no Teatro Viriato, em Viseu, propondo uma reflexão crua e provocatória sobre a impossibilidade de continuarmos a ignorar as crises que nos cercam.

“Mil Vezes Revista”, de Filipe La Féria

Teatro Politeama, Lisboa (8 de outubro a 29 de novembro)

Filipe La Féria está de regresso ao género que faz parte da história do teatro português, trazendo de volta a acutilância, a sátira social e o bom humor com que sempre habituou o público do “seu” Politeama. Em Mil Vezes Revista, Portugal volta ao palco para se olhar ao espelho e rir do poder, das modas e das figuras do nosso tempo.

▲ Filipe La Férias retorna a um género profundamente português com "Mil Vezes Revista"

ANDRÉ MARQUES / OBSERVADOR

Grande destaque para o retorno de dois pesos-pesados da revista: Marina Mota e Joaquim Monchique, que justificam, só por si, a viagem ao Rossio. A liderar um extenso e talentoso ensemble de atores, cantores, bailarinos e uma orquestra ao vivo, o elenco principal conta ainda com Paula Sá e Miguel Dias.

“Os Miseráveis”, a partir da obra de Victor Hugo, da Compagnie Karyatides

Teatro Carlos Alberto, Porto (11 e 13 de outubro)

A belga Compagnie Karyatides reinventa o monumento literário de Victor Hugo num espetáculo de teatro de objetos que, depois de ter conquistado o FIMFA em 2024, chega agora ao Teatro Carlos Alberto, no Porto. Em cena, a trágica saga de Jean Valjean — o homem condenado a quase duas décadas de galés por roubar um pão — ganha corpo longe do registo tradicional: a miséria, o amor e a redenção são esculpidos a partir de centenas de figuras de barro e madeira resgatadas de feiras de velharias.

▲ Nesta adaptação de Os Miseráveis para teatro de objetos, as personagens são representadas por centenas de figuras de barro e madeira

Com condução e interpretação de Karine Birgé e Marie Delhaye, a produção acumula mais de 700 apresentações pelo mundo (estreou-se em 2014) ao transformar pequenos achados em protagonistas de uma escala épica. O resultado é um fresco sobre a dor, a dignidade e a busca inquebrável por justiça. E uma reflexão que nos recorda, até no material das peças em palco, que somos todos moldados do mesmo pó.

“Caminho do Céu”, de Juan Mayorga, encenação de Rita Cabaço

Teatro, Lisboa (18 de setembro a 31 de outubro)

Caminho do Céu, do espanhol Juan Mayorga, é uma peça inspirada num acontecimento histórico macabro: a farsa montada pelos nazis em 1944 no campo de Terezín, que foi transformado numa cidade de fachada para enganar a Cruz Vermelha. Em cena, um comandante nazi obriga um prisioneiro judeu a fingir que é o presidente dessa autarquia fantasma, forçando toda a comunidade a encenar uma vida normal sob um guião rigoroso.

▲ "Caminho do céu" marca a estreia de Rita Cabaço na direção artística e encenação

O espetáculo marca a estreia da atriz Rita Cabaço na encenação. Cabaço (colaboradora regular de encenadores como Marco Martins, por exemplo) escolheu trabalhar com catorze pessoas sem experiência teatral, de várias idades e origens, selecionadas através de uma open call. Em vez de se limitar a olhar para o passado e para o Holocausto, a encenação usa a construção da mentira como um espelho para os dias de hoje, questionando o papel de cada um de nós quando a história ameaça repetir-se.

“Desassossego”, Companhia Nacional de Bailado

Teatro Camões, Lisboa (22 de outubro a 1 de novembro)

A Companhia Nacional de Bailado (CNB) leva a palco Desassossego, uma nova produção que transpõe a inquietação e a multiplicidade do universo de Fernando Pessoa para a linguagem da dança contemporânea. O espetáculo estrutura-se em dois bailados autónomos mas complementares.

▲ "Desassossego" é o nome do espetáculo da CNB que congrega dois bailados distintos, de dois criadores, que revelam diferentes formas de olhar a obra de Fernando Pessoa

O primeiro é Elsewhere within stillness, de Daniel Cardoso, coreógrafo e diretor artístico da Quorum Dance Company com um percurso internacional consolidado e formação na prestigiada Martha Graham School, em Nova Iorque. O segundo é Eles, Invertidos, criação de Marcelino Sambé, atual bailarino principal do Royal Ballet de Londres e uma das figuras de maior projeção da dança britânica contemporânea. Ao cruzarem perspetivas e linguagens distintas, as duas obras inéditas oferecem-nos diferentes olhares sobre a escrita pessoana a partir do corpo em palco.

“Afro SALOYÁ”, de Isabél Zuaa

Fábrica da Criatividade, Castelo Branco (31 de outubro)

Depois de ter tido a sua estreia cancelada no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, depois da denúncia de um episódio de violência e racismo, Afro SALOYÁ, de Isabél Zuaa encontra finalmente palco numa apresentação única em Castelo Branco, no âmbito da 7.ª edição do festival Singular.

▲ Depois de se estrear em Castelo Branco, "Afro Saloyá", de Isabél Zuaa, viaja até ao Porto, onde se mostra em novembro no Grande Auditório do Rivoli

Joanna Correia

A performance é descrita como “um espetáculo-concerto-pop-ritualístico, de uma artista afro-saloia que cresceu num subúrbio rural africano na periferia de Lisboa”. Num diálogo afetivo entre a infância no bairro do Zambujal, em Loures, as várias fases do crescimento e as referências de quem a moldou, a peça assume-se como um ponto de encontro em palco entre memórias, raízes e reinvenções de identidade da artista que, em 2019, foi cofundadora, com Cléo Diára e Nádia Yracema, do coletivo Aurora Negra.

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