É responsável por alguns dos maiores sucessos de bilheteira do teatro nacional e pelo lançamento de muitos talentos que hoje fazem parte do panorama artístico português. Mais do que um criador, Filipe La Féria tornou-se uma instituição, um nome que se confunde com o do Teatro Politeama, em plena baixa lisboeta.
“Sou artista porque não suporto a realidade. Em vez de ir passar o dia a praia ver o sol estou aqui encerrado a inventar o outro mundo”, diz aos primeiros minutos de Filipe La Féria – O Teatro como um Ato de Fé, documentário de Miguel C. Saraiva e Lígia Gonçalves, uma produção Promenade que se estreia este sábado na RTP2.
Com uma obra que se confunde com a própria história recente do teatro português, o encenador, dramaturgo, produtor e empresário tem percurso que cruza décadas de palcos cheios e um papel decisivo na aproximação do grande público às artes cénicas. Visionário e incansável, culto e exigente, aos 80 anos, La Féria continua fiel ao que o guiou sempre: a capacidade de sonhar. Recebe o Observador quando a noite cai no teatro nas Portas de Santo Antão. O silêncio é sepulcral, contrastante com a euforia da noite anterior, com casa cheia para assistir ao filme que mergulha na vida e na criação artística de uma referência do teatro nacional.
Ficou emocionado quando viu o filme.
Já o tinha visto, porque me tinham mostrado antes. Mas emociono-me, sobretudo porque muitos dos protagonistas, dos atores, dos cenógrafos, dos artistas que trabalharam comigo estavam presentes [na antestreia]. Outros viram de outro modo, mais além, mas também viram. Não esperava tanta gente e tantos amigos que não via há muito tempo. O filme fez-me recordar muita coisa… Embora não seja muito preso ao passado. Sou mais do presente. O passado já passou e o futuro… ainda não chegou.
O encenador Ricardo Neves-Neves diz que “o Teatro Politeama e o Filipe Lá Féria quase que se confundem”.
É natural. Isto era um velho cinema… No pós-25 de abril houve aquela curiosidade pelo cinema erótico, até pornográfico, todos estes cinemas faziam isso. Depois houve uma quebra — há sempre uma ascensão e queda — nesse género de filmes. O teatro, quando aqui cheguei, estava quase em ruínas.
▲ La Féria conhece como ninguém os bastidores do Politeama, teatro que reabriu em 1992 após o sucesso de "Passa Por Mim no Rossio", que apresentara no Teatro Nacional
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Lembra-se do primeiro dia em que aqui entrou?
Sim. Entrei como espectador. Por vezes passavam filmes de que gostava, lembro-me de ser espectador. Não nessa época do cinema pornográfico, mas anterior ainda, passava muito cinema americano. Vi muitos filmes aqui.
Quando é que passou a ver o Politeama como um possível teatro?
Depois do Passa Por mim no Rossio [1991], que foi um facto político e histórico do teatro português, surgiu-me a ideia… Estava habituado à Casa da Comédia, que era um pequeno teatro, onde passei 16 anos da minha vida. Quis aventurar-me a um teatro maior. Quis ter um teatro em que pudesse dar aso aos meus projetos, à imaginação, ao que eu sonhava. Era uma aventura perigosa, mas muito importante. É por isso que o Ricardo diz que se confunde, porque é muito a minha vida o Politeama.
Tinha acabado de fazer o Passa por Mim no Rossio, que, como disse, marcou o teatro português, esteve durante meses sempre esgotado…
Meses não, anos!
A impressão que fica é que estava no topo do mundo e podia fazer o que quisesse.
Sim, fui convidado para ir para o Teatro Nacional… Mas os teatros do Estado estão sempre sujeitos ao gosto da época, ao gosto da política da época. Estão sujeitos a uma efemeridade muito grande, é tudo muito efémero.
Não poderia ser livre?
Não e estaria lá por pouco tempo, porque mudava o regime mudava a direção. Há sempre este jogo político quando se está muito preso ao Estado. E eu sempre rejeitei isso, sempre me afastei disso. Como sabe vivo sem subsídios, vivo do público.
Di-lo com frequência, até com relativa vaidade.
Com vaidade, mas angustiado. Acho injusto não ser apoiado depois de tantos e tantos anos de trabalho. É um facto que nós estamos aqui meses com as peças. Esta última, A Bela e o Monstro, teve 300 representações durante dez meses.
▲ Still do filme "Filipe La Féria - O Teatro como um Ato de Fé", de Miguel C. Saraiva e Lígia Gonçalves. O documentário estreia-se este sábado, 4 de outubro, na RTP 2
Quando é que a sua relação com os subsídios escalda? Porque chegou a ser subsidiado na Casa da Comédia.
Sim, mas mesmo quando na estava Casa da Comédia fui um bocado um enfant terrible, não fazia o que era convencional fazer-se. Sempre gostei de arriscar. Fui bem sucedido, é muito espetáculo… Tenho que agradecer ao público, esse público que vem da província. Não faço espetáculos só para o público centrado em Lisboa. Aliás, é já histórico os Restauradores cheios de camionetas e camionetas que vêm de todas as zonas do país. Mas isso é fruto de muito, muito trabalho. Não só um trabalho de produção, mas dos espetáculos serem bons. Tenho sempre uma espada sobre a minha cabeça. Dou tudo, dou o melhor que posso em cada espetáculo.
Há dois anos, quando venceu um Globo de Ouro, agradeceu precisamente ao público que vinha de camionetas.
Exatamente. Porque eu e os meus trabalhadores fomos sempre sustentados pelo público. Se isto continua é porque o público vem, porque tem possibilidades de continuar e de pagar. E os espetáculos são bastante caros. Apresento sempre o melhor, dou o melhor que posso. E isso custa bastante dinheiro. Há sempre um preconceito porque é comercial… Mas, como digo no filme, o teatro é sempre comercial.
É um rótulo que o chateia?
Não, nada. Veja que, no teatro, os atores que recordamos são os atores mais populares. Sabe que é o Vasco de Santana, o António Silva, a Eunice, a Laura, e tantos outros atores. O teatro tem sempre que atingir o coração do público, do grande público. Não acredito em vários públicos ou nesta coisa que se ouve muito que é o público da elite. Nunca fiz teatro para uma elite. Até na Casa da Comédia sempre abri os braços para o público.
O Passa Por Mim no Rossio é por muitos visto como seminal na democratização do teatro. Para muitos foi a pela primeira vez que entraram no Teatro Nacional.
Sim, sim, muitos nunca cá tinham entrado.
Vê como sua missão a democratização do teatro?
Não, não. A minha missão é fazer o que gosto. E o que gosto é de vir para aqui de manhã e trabalhar, trabalhar, ensaiar, ensaiar. Como o dia de hoje, em que estou a ensaiar uma peça para toda a família, que é o Hércules. Aventurei-me a fazer uma musical sobre o Hércules, mas totalmente original, nada a ter a ver com a Disney.
Insisto: podia ter ido para outro teatro maior, não tinha de recuperar um teatro que era lama e ratos, como já o ouvi dizer.
Era, era. Sempre pensei em poder erguer um teatro, ter um palco onde pudesse fazer os meus sonhos. Na Casa de Comédia faziamos obras para cada espetáculo. Tornou-se muito pequeno até para o público que tinha. [A peça do] Pasolini esteve oito meses em cena. Eram sempre peças que ficavam muito, muito tempo. Acabávamos a não poder dar mais, fartos de fazer o mesmo espetáculo. Tinha que ter um teatro de 700 lugares, como é este, que abrangesse o público mais vasto.
A ideia de deixar de ser apenas artista e passar a ser também empresário nunca o afligiu?
Sim, não é uma coisa de que goste. Mas é o preço. É o preço de ser artista, é o meu preço de ser artista. Passei a ter uma grande responsabilidade perante mais de 120 e tal trabalhadores, fora os fornecedores que esta companhia tem.
Foi o preço da liberdade total?
Sim. Não tenho amarras nem censuras de espécie nenhuma.
▲ “O Teatro Politeama e o Filipe Lá Féria quase que se confundem”, diz o encenador Ricardo Neves-Neves, no filme "Filipe La Féria - O Teatro como um Ato de Fé"
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Falou da Casa da Comédia. Algo que este documentário revela é a pluralidade de linguagens dos espetáculos que fez ao longo de décadas. É indiscutível falar de uma viragem de um certo tipo de teatro mais, intelectual, à força de melhor expressão…
(risos)
Para o que teatro que faz hoje, mais comercial…
Não é comercial, é um teatro para todos. É como estar a fazer um espetáculo como estou agora, que dizem ser infantil. Não, é um teatro para toda a família, para toda a gente.
Consegue localizar esse momento de viragem, para si?
Foi antes do Passa Por Mim no Rossio. Fiz um espetáculo na Casa da Comédia que foi o What Happened to Madalena Iglésias? [1989], que começou num pequeno teatro de 80 lugares e acabou no Coliseu. Aí tive a certeza que podia fazer teatro, que podia voar mais alto, fazer um teatro para todo o público, para essa abundância. Mas, essa coisa do teatro intelectual, o teatro para as elites… Fiz sempre o teatro que posso naquele momento e que quero transmitir aos outros. Nunca pensei fazer um teatro de comédias baixas ou de espetáculos menos dignos, em todos os espetáculos faço o melhor. O meu lema na vida é ser o máximo de mim mesmo.
Começou por ser ator, ajudou Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo a erguer o Teatro da Cornucópia…
Sim, fui ator desses grandes amigos. Quando era ator gostava sobretudo de teatro clássico. E a proposta da Cornucópia era fazer com outra linguagem, uma linguagem mais aproximada à nossa época, o teatro clássico. Isso era o que me fascinava como ator.
Mas acabou por perceber que encenar era a sua grande paixão.
Sim, vou para a Casa da Comédia e dedico-me totalmente, não só à encenação, mas a fazer tudo. Sou um faz-tudo, como aqueles palhaços que havia no circo que faziam tudo.
Falámos há pouco sobre a liberdade que conquistou, mas fez ainda muito teatro durante a ditadura.
Muito, muito.
O que significou para si o 25 de Abril?
Se não fosse o 25 de Abril não estávamos cá. Viver antes do 25 de Abril era completamente claustrofóbico. Por isso é que fui para fora. Vivi muito tempo em Londres, foi muito importante para a minha vida. Nessa época Portugal era um país um pouco retrógado, ainda é, mas antes era insuportável. Escapei-me ao que era viver no obscurantismo e na pressão do que era antes do 25 de Abril. Se não houvesse o 25 de Abril, Portugal não existia.
Mas a censura não acabou logo, ainda teve uma peça censurada após o 25 de Abril.
Sim, a Eva Péron [1975].
Durante o Governo de Vasco Gonçalves.
Sim. Porque era uma peça sobre o peronismo, em pleno peronismo, numa altura em que nós dependíamos do milho e dos bifes, da carne de vaca. Houve esse episódio um pouco anedótico de o embaixador [da Argentina] fazer uma pressão para a peça não estrear. Mas lembro-me como era antes do 25 de Abril a censura. Era uma coisa terrível. Hoje há outra género de censura, uma censura económica, mas nada tem a ver com a sombra do que era o antigo regime.
Esse ambiente castrador terá provocado logo a seguir a explosão dos anos 80, em que faz A Paixão segundo Pier Paolo Pasolini, todas essas obras cheias de assombro.
Sim, sim. Era também a minha forma de… Não gosto muito daquele teatro das mensagens. O teatro interroga. Uma amiga minha dizia-me: ai, agora fazes teatro sobre temas religiosos. Não, o que faço e o que fiz, por exemplo, em Fátima, foi deixar uma interrogação em cada espectador. É isso que, para mim, me fascina no teatro, seja o ligeiro, seja o mais elitista, seja o de vanguarda, seja o mais clássico. Que o espectador saia diferente depois de ver o espetáculo. Pelo menos com uma pequena mancha, uma pequena interrogação.
▲ A ópera-rock "Fátima", atualmente em cena no Teatro Politeama, em Lisboa. O espetáculo recria o fenómeno de Fátima e evoca acontecimentos de 1917 na Cova da Iria
Disse em tempos que o seu melhor espetáculo tinha sido a Marquesa de Sade, em 1983, na Casa da Comédia.
Mas depois já fiz tanto…
Precisamemte. Por isso lhe pergunto agora: qual foi o melhor espetáculo que fez?
O próximo (risos). Não, mas há um espetáculo que me orgulha muito, o My Fair Lady [2002]. É considerada, até internacionalmente, como uma das melhores encenações, é dada nas escolas da América, nas escolas de teatro, nas escolas de teatro como uma maneira de fazer um musical, sem ser aquele modelo tipo made in Broadway.
Não foi nas audições para esse espetáculo que rejeitou o candidato Pedro Passos Coelho?
Exatamente! Mas ele era um bom cantor! Eu é que estava à procura de um tenor e ele era barítono. Nós consideramos muito pouco, mas ser ator de musical é muito, muito difícil.
É a arte total?
Sim, tem que ser quase uma atleta, tem que ter uma belíssima voz, tem que saber representar, tem que saber cantar. É o grau sublime do ator.
É-lhe reconhecido o mérito de ter trazido para Portugal grandes musicais.
Sim, e de ter feito uma escola de atores.
Estranha que isso não tenha criado concorrência?
Sim, mas há jovens muito bons, esta nova geração está muito bem preparada. Dia 8 já tenho outra audição. Faço sempre audições. Estou sempre à procura. Aliás, muitos dos atores que agora estão no Politeama vieram da escola de verão. São três a quatro meses de aulas diárias, e daí tiro muitos atores que agora até são protagonistas deste espetáculo.
No documentário diz ser um “sobrevivente”. Todas as histórias de sobrevivência têm um lado sombra.
O lado sombra é a falta de dinheiro. É ter de pagar todos os meses a uma companhia muito grande e enchermos a casa. É difícil no país onde a cultura não é uma primeira necessidade encher todos os dias, durante meses, 700 lugares. Nós temos essa condenação: se não enchemos não temos dinheiro para a próxima peça.
Acredita que o teatro devia ser ou não apoiado pelo Estado?
Devia ser muito mais apoiado pelo Estado. Mas isso quase não existe. Há companhias apoiadas pelo Estado e depois as outras são olhadas como se não existissem. O teatro, essas coisas, estão demasiadamente politizadas. Não se olha à qualidade artística, mas se é de esquerda ou de direita. Eu nunca pertenci a nenhum [lado] e não vou até ao fim pertencer.
Mas com certeza terá um posicionamento, só não o partilha…
Acho que foi o Victor Hugo que disse que qualquer artista se interessa pelos valores fundamentais do homem, pela igualdade e pela fraternidade. Não acredito em artistas que não estejam ligados ao país onde vivem, à sociedade em que vivem. Nos espetáculos sou muito claro nas minhas posições.
Nas revistas que faz há muita crítica social e política.
É o que me apaixona nesse espetáculo, que também é um espetáculo mal visto e é um dos espetáculos mais genuinamente portugueses, onde passaram os melhores autores, os melhores atores, os melhores cenógrafos, os melhores bailarinos…
Ainda há preconceito com a revista?
Ui, muito preconceito. Sobretudo na classe, digamos, jornalística e na classe mais elitista. Há muito, muito preconceito. Portugal ainda é um país muito preconceituoso. Gostamos de pôr tudo em gavetas. Eu nunca gostei de estar encerrado em gavetas.
Os atores com quem trabalha definem-no sempre como exigente.
A qualidade é exigência. Você tem de exigir a si próprio e exigir aos outros. Como jornalista também vai exigir de si o melhor.
A única vez que escreveu sobre si, para uma personagem, chamou-lhe La Fúria.
(risos) Pois foi.
É justo dizer que tem mau feitio?
Eu acho que é. Não acha? (dirige-se ao assistente). Tenho, tenho mau feitio. Aliás, não tenho mau feitio, tenho uma enorme exigência. Uma pessoa que dê muito quando vê os outros que não dão nada fica furioso. É isso que me faz ser exigente quando vejo um bom ator. Aliás, dei-me sempre bem com os bons atores, com os bons técnicos e os bons produtores. Porque eles também me apresentam uma enorme qualidade. Têm a mesma insatisfação que eu tenho. Ao fim ao cabo sou um insatisfeito, quero sempre mais.
▲ Filipe La Féria na mesa onde passa grande parte do tempo, no centro da plateia do Politeama. Ali assiste a ensaios e audições para todos os espetáculos que apresenta
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
No discurso depois da apresentação do filme disse: “Devia viver 250 anos. Acho uma injustiça vivermos tão pouco. Tenho muitos sonhos. E tantas peças para fazer”. O que é que ainda quer fazer?
Quero fazer tanto. Mas, pela minha idade, pela ordem natural das vidas, nunca atingirei. Mas isso é o desafio da vida: querermos atingir os céus.
Quando se tem tantos sonhos como é que se lida com a ideia de finitude?
Temos de lidar. É triste, mas temos de fazer o luto. É como uma peça de teatro, há o primeiro e o segundo ato, antes até havia o terceiro. Uns têm a felicidade de ir ao terceiro ato, mas sabemos que há um dia em que o pano fecha. Mas isso até é belo, eu acho.
Parece que nada o amedronta.
Não podemos ter medo de nada. Se não fosse assim não era o La Fúria (risos). Sempre fui um guerreiro. Já tive muitos falhanços, na vida, pessoais, artísticos. Mas temos de renascer sempre das nossas próprias cinzas, das nossas lágrimas. Ontem dizia aos alunos: nunca atraiçoem os vossos sonhos. O mais belo da vida é sonhar.
Há uns anos, em entrevista ao jornal Público, falou num convite para uma ópera sobre Salazar.
Vemos os espanhóis e como eles trataram o Franco. Aqui temos medo ou vamos para a figura grosseira. É uma figura teatralíssima, quase shakespeariana, o homem que está morto. É um grande atrevimento, mas um grande fascínio. É como falar sobre Fátima, há muito preconceito. Há pessoas que me dizem: não vou ver, gosto muito dos seus espetáculos, mas não sou religioso. Não tem nada a ver uma coisa com a outra.
Não vendeu bem?
Pensava que ia vender mais. O povo português é profundamente religioso, mas a sociedade mudou muito. A Igreja não conseguiu captar aquilo que antes era a sua base de apoio. A sociedade mudou muito. Esta coisa da peste, como na Fátima, muda-nos totalmente. Hoje, por exemplo, há um teatro antes do Covid e um teatro depois do Covid.
O que mudou?
Tudo. O medo. Estamos numa sociedade do medo. É tudo feito à base do medo. Abre uma televisão e há um medo da tempestade, de tudo. O medo tornou-se novamente… Havia a sociedade do medo. Quem tem medo compra um cão! Não se pode ter medo deste milagre extraordinário que é estar vivo.
No filme diz a dada altura: “só quis ser um homem do teatro”.
É verdade. Tive de dar aulas em momentos de maior miserabilismo, mas não gostava. Gosto de dar aulas de teatro, mas o que eu gosto mesmo é de construir peças, de materializar os sonhos, as palavras que escrevo e de, com uma equipa, construirmos esse mundo que é cada peça.
Está aqui desde as nove da manhã, disse-me há pouco, e são agora nove da noite.
Sim.
Nunca se arrependeu de fazer do teatro a sua vida?
A vida é para além do teatro, claro que sim. É maravilhoso ter uma família, sou muito alentejano (risos).
Para muitos Politeama é igual a La Féria. Aos 80 anos, pensa no que será um dia o Politeama sem o Filipe La Féria?
Gostava que continuasse a ser um teatro para o grande público, com as portas abertas. Haverá não outros La Férias, mas outros! Há encenadores muito bons em Portugal, o Ricardo [Neves-Neves], o [Pedro] Penim. Há tanta gente com talento, nova, jovem, com tanta coisa para dar.