O momento foi pensado ao pormenor e aconteceu, como não podia deixar de ser, no Dia Nacional da Água. No passado dia 1 de outubro, todos os caminhos foram dar à Fábrica de Água de Alcântara, para a 10.ª edição do Caminho da Água, uma iniciativa da Águas do Tejo Atlântico, este ano sob o mote “O Futuro da Água não é Óbvio”. Resiliência, infraestruturas, território e transformação digital foram os temas que estiveram em cima da mesa, ou melhor, à tona da água todo o dia e o ponto de partida foi simples e incisivo: a água não mudou, mas sim tudo o que a rodeia. Para o setor conseguir responder aos novos desafios que surgem a cada dia, é preciso transformar e acrescentar ferramentas.

Cláudio de Jesus, Presidente do Conselho de Administração da Águas do Tejo Atlântico, foi o responsável pelas boas-vindas, na sua primeira vez como Presidente. E se até aqui observou o trajeto percorrido como um entusiasta da iniciativa, do caminho retirou ensinamentos que o ajudam a assimilar o tempo presente. Nas suas palavras, o setor da água alargou a sua visão e, hoje, o caminho “não se resolve dentro das nossas infraestruturas”. Desafiar o óbvio é importante, disse, mas falta perceber como se transformam ideias em novas soluções. É preciso “questionar, ouvir quem tem uma perspetiva diferente” e reconhecer que o conhecimento não está concentrado numa só organização.

Com isto em mente, e olhando para o futuro, Cláudio de Jesus garantiu que a empresa não encara o que já fez como um ponto de chegada, mas como um ponto de partida para “fazer mais e melhor”. A circularidade, acrescentou, “não é apenas uma ideia inspiradora, é uma oportunidade concreta de usar melhor os recursos”. E deixou, ainda, um desafio à plateia: que a inovação não fique pela inspiração. “Tragam as vossas perguntas, desafiem o nosso conhecimento”, pediu, relembrando que o caminho da inovação tem uma história reconhecida, mas um futuro que é preciso construir.

Lisboa quer mais Tejo

↓ Mostrar ↑ Esconder

A vereadora da Câmara Municipal de Lisboa, Joana Baptista, subiu a palco para um pequeno contexto da relação da cidade de Lisboa com a água. Mas, antes, sublinhou uma mensagem que pautou todo o evento – é preciso usar melhor, desperdiçar menos e reutilizar mais. Na sua perspetiva, não faz sentido usar água potável para tudo quando se pode dar uma segunda vida à que não é potável. “Queremos mais Tejo na vida das pessoas”, reforçou, afirmando que a relação da cidade com a água passará por aproximá-la quando faz falta, reutilizá-la sempre que possível e geri-la quando chega em excesso. E, aqui, o desafio é fazê-lo de uma forma mais otimizada. Mas esta não é uma vontade que ficará apenas no papel. O Plano Geral de Drenagem de Lisboa, um projeto da Câmara Municipal para proteger a cidade contra cheias e inundações, provocadas por eventos climáticos extremos, é um exemplo disso.

Falhar, recomeçar, falhar melhor

Piers Clark, Fundador do Isle Group, foi o Keynote internacional e a sua intervenção foi direta, concisa e audaz por “meter o dedo na ferida”. Partiu de um paradoxo: nunca houve tanto acesso a água potável e saneamento. Porém, os desafios que o setor enfrenta são os maiores, até então, e nem a inovação tem sido suficiente. Se é verdade que o paradigma precisa de mudar, também é verdade que, para o fazer, temos todos de responder a três perguntas, enquanto indivíduos, equipas e setor.

  • Quando foi a última vez que celebrámos uma falha? Para o orador, inovar é correr riscos e a aprendizagem é maior quando alguma coisa corre mal. Porquê? Porque, a partir daqui se começa a pensar com mais cuidado. Enquanto profissionais, temos o direito de experimentar, de falhar e de aprender com o erro. Porém, Piers Clark afirma que não nos damos permissão para tal. E não se trata de correr riscos desnecessários que coloquem as pessoas em perigo. Trata-se de arriscar, sem ter a certeza de que vai resultar. Porque “se a falha não é opção, então nunca iremos arriscar”;
  • Quando um piloto funcionou, será que o acompanhámos até ao fim? Sem o acompanhamento de uma solução, sem a confirmação de que esta realmente funciona, estamos a desperdiçar o nosso tempo. Para o profissional, a implementação da inovação não pode ser feita a “meio gás”, é preciso conduzi-la do princípio ao fim;
  • Quando foi a última vez que se partilhou conhecimento? Mostrar apenas aquilo que correu bem não ajuda a indústria a melhorar. Face a um problema global, é necessária uma diversidade de pensamento e um olhar para lá da própria organização. Partilhar experiências, falhas e conhecimento é o único caminho para um futuro que se deseja possível.

A par com tudo isto, o orador acrescentou ainda que o futuro precisa de uma geração jovem, que se inspire nos profissionais mais experientes, mas que acrescente a sua própria visão. Quanto às três perguntas, se forem respondidas com honestidade, podem ajudar a que o futuro da água se torne “um bocadinho mais óbvio”, rematou.

Piers Clark, Fundador do Isle Group

A resiliência das infraestruturas e o papel da inovação

A primeira mesa-redonda do dia partiu de duas perguntas. Como são vistos os desafios e as oportunidades dos territórios de média dimensão perante eventos extremos? Será a água o principal desafio estratégico das próximas décadas? Com o contributo de Jorge Vala, Presidente da Câmara Municipal de Porto de Mós; Silvério Regalado, Secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, e Giorgos Sachinis, Diretor de Estratégia e Inovação da EYDAP, estas foram as principais conclusões:

  • Territórios resilientes assentam no investimento municipal;
  • A água é um fator de atratividade, um desafio estratégico e uma plataforma de inovação em governação;
  • A governação é o maior desafio. A água é transversal e nenhuma entidade a “resolve” sozinha. É preciso integrar planos, setores e níveis de decisão;
  • É preciso olhar para a resiliência como um investimento e não como um custo;
  • O ciclo político pesa, sendo necessário levar o futuro da água à discussão política, de uma forma transparente e sem tabus;
  • A inovação deve partir dos problemas e não da tecnologia. Entre os obstáculos apontados estão a regulação, a distância entre a investigação e a pré-comercialização, e a falta de competências para implementar e escalar soluções;
  • O ordenamento do território é mais do que dizer onde se pode construir. Passa por dotar o território das utilities necessárias para responder às alterações climáticas e por trabalhar em conjunto, com mais ação do que teoria;
  • Sem pessoas, nada se sustenta. Atrair jovens para o setor, formar equipas e investir em redundâncias foram prioridades comuns, tal como reduzir perdas e desperdícios.

Cuidar da água é proteger o presente. Garantir a água é conquistar o futuro” – João Manuel Esteves, Secretário de Estado do Ambiente.

Transformação digital nas utilities: da ambição à execução

Depois de uma pausa para almoço, a segunda mesa-redonda do dia focou-se no papel da inteligência artificial no setor. Com o exemplo da EDP como pano de fundo, o painel foi desafiado a discutir o papel desta ferramenta na gestão das utilities e qual deve ser a primeira coisa a ser feita, numa transição digital no setor. Contou com a presença de Luísa Leite Faria, Global Digital Acceleration da EDP; Nadine Zerrini, Inovação da DC Water; Manuel Gonçalves, Serviço de Informações de Segurança; e Rui Braga, CISO da Águas do Norte. Ficou claro que:

  • Existem estratégias, mas nem sempre planeamento;
  • O valor do digital e da inteligência artificial, concluiu-se, só existe quando é medido;
  • A responsabilidade será sempre humana. Mesmo com agentes de inteligência artificial em operação, a decisão e a responsabilidade permanecem nas pessoas;
  • Governação e risco devem estar em equilíbrio. O objetivo não é travar a tecnologia, mas sim capacitar as equipas para lidar com ela;
  • Segurança é parte da resiliência. A água continua física, mas o risco já é digital. Os oradores defenderam a organização da segurança digital como se de uma defesa física se tratasse, com redundâncias, cópias de segurança e partilha nacional de informação sobre riscos;
  • A transformação é um tema de pessoas. A confiança dos trabalhadores ganha-se quando a inteligência artificial os ajuda a ser mais eficientes e seguros;
  • Por onde começar? Manter a água acessível, proteger os dados e formar os profissionais.

Mais sobre a 10.ª edição

↓ Mostrar ↑ Esconder

Simultaneamente ao que acontecia dentro do Auditório 1, a parte da tarde foi marcada por apresentações conduzidas por embaixadores da juventude. Os seus projetos incidiram sobre o uso de água reutilizada na rega agrícola, o efeito das alterações climáticas na saúde das populações e soluções digitais para estações de tratamento de águas residuais.

Passar da inspiração à estratégia

Foi de olhos postos no futuro que o dia chegou ao fim. Rita Lourinho, Coordenadora do departamento de investigação, desenvolvimento e inovação da Águas do Tejo Atlântico, foi a porta-voz da estratégia de inovação da empresa e, ao lado de Marcos Batista, Diretor de Comunicação e Desenvolvimento, resumiram de forma certeira todos os ensinamentos do dia. A Águas do Tejo Atlântico está numa fase de evolução do seu modelo de desafio à inovação, com a consolidação de aprendizagens e a adaptação de elementos, mas o desafio continuará sempre a ser o mesmo: sensibilizar para a importância da inovação. Para o período de 2027/2028, o desejo passa por uma inovação mais integrada, aberta e orientada para os resultados.

“Hoje celebrámos conhecimento, partilha e estratégia de inovação. Queremos construir o futuro. Podemos não saber bem como, mas saímos daqui mais enriquecidos”, sublinharam. O futuro de um recurso como a água depende das escolhas feitas até aqui, mas também da capacidade de se imaginar futuros diferentes. Ficou claro que a água continuará a ligar territórios, comunidades e gerações, mas que, para o fazer, precisará do contributo de todos. Afinal, sem pessoas, cooperação e coragem para arriscar, a inovação não chegará à água que sai, todos os dias, da nossa torneira.