A culpada foi uma gota fria ou DANA (depressão isolada em altitude). Estamos a falar do fenómeno que causou trovoadas muito intensas, granizo, vento e chuva persistente entre a última sexta-feira, dia 2, e esta terça, dia 6. A conclusão é do Instituto do Mar e da Atmosfera (IPMA) que, em relatório, explica e dá a dimensão do episódio em Portugal. O detalhe mais impressionante vai para domingo, dia 4: no Alentejo, formou-se um sistema organizado de tempestades que fez com que chovesse ao longo de uma faixa de pelo menos 100 quilómetros.
A depressão em altitude formou-se na região da Galiza. Depois andou lentamente para sudoeste e ficou praticamente parada a oeste da costa portuguesa a partir de domingo. Devido ao ar quente e à muita humidade, a depressão arrastava uma massa de ar muito instável, com uma enorme quantidade de vapor de água, algum dele absorvido no local onde esteve a tempestade tropical Hanna. Fatores que favorecem a formação de tempestades intensas.
Não se tratou de uma só tempestade. Formaram-se vários fenómenos de convecção intensa — grandes trovoadas — em várias zonas do país ao longo dos cinco dias de instabilidade causada pela gota fria. Todos eles tiveram esse elo em comum: a mesma depressão isolada em altitude.
E além da quantidade de chuva, houve também uma questão de velocidade. De pouca velocidade. A lentidão com que as tempestades se deslocaram fez com que despejassem água repetidamente nas mesmas zonas e criassem fenómenos extremos, mas muito localizados. Tornaram-se trovoadas quase estacionárias: como havia uma fraca circulação atmosférica, tudo andava devagar. Em certas zonas, várias células passaram mais de uma vez, aumentando o risco de cheias repentinas.
Manteigas foi um dos exemplos de maior incidência deste episódio. Logo na primeira noite de impacto, na sexta-feira, dia 2, houve uma persistência de chuva intensa e granizo na região. Os radares do IPMA detetaram nuvens de trovoada com topos acima dos 10 km de altitude. Em Santiago do Cacém, domingo, dia 4, houve uma enorme granizada e uma intensa atividade elétrica, com a queda de raios sucessivos.
Pode ter sido parte do sistema organizado de tempestades que se formou neste dia no Alentejo. A chuva estendeu-se ao longo de uma faixa de pelo menos 100 quilómetros. O IPMA fala de um sistema convectivo de mesoescala. Exatamente o mesmo sistema que causou as inundações da Catalunha, mas sem rotação que o aproximasse, em Espanha, de uma tempestade tropical.
A previsão deste tipo de fenómenos é muito difícil. Os modelos conseguem identificar as regiões sob risco, mas não o local exato, nem a intensidade com que a trovoada vai descarregar. Daí os avisos serem para distritos.
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