A prosa ziguezagueia entre vários momentos, não seguindo uma linha cronológica. Em vez disto, criando pontos que levam a outros pontos, compõe-se num todo orgânico, e este permite-nos seguir a vida de Viridiana, mãe de Margarida, Valquíria e Tito, agora viúva. A viuvez e o momento presente não impedem a narrativa de saltitar para trás, e de repente o presente é outro, com Afonso vivo, e ei-lo a negligenciar as filhas e a focar-se apenas em Tito:
Afonso foi um pai para Margarida e Valquíria, e outro bem diferente para Tito; com as meninas, mal seus olhos pousavam nelas, levantavam voo na minha direção, ele tinha gastura de perder tempo e muita pressa de devolvê-las; já com Tito… com Tito… o coração de Viridiana descompassa, precisa parar e respirar com calma, não tem onde se segurar ali, solta no meio do quarto, teme a queda, fica quieta, quieta, a memória tentando sair da boca do estômago, ainda é difícil lembrar que Afonso não perdia as oportunidades de criar o filho: lutar, jogar bola, mostrar o muque, dar ordens, repetir frases feitas sobre as meninas, constranger o choro, exibir a coragem, não ter medo de inseto nem de escuro e não levar desaforo para casa, habilidade que cansou de demonstrar (…)” (p. 30)
Isto será de particular relevo na narrativa, já que a mãe pensará na forma como Tito foi moldado, e quererá moldá-lo de outra. Na adolescência, já sem o pai, “tornou-se obcecada em fazer o filho ser um homem de bem, quis passá-lo a limpo, a tal ponto que não olhei ara ele… ele… ele e seus olhos confusos, seus recursos minguados, seus aprendizados tortos, sua desorientação, ele e não outro, e não um barro, uma argila, uma massinha de farinha de trigo, apenas ele e eu não o vi, não ouvi, não conheci, apenas decidi que ele seria bom – um filho bom é também uma vaidade (…) (p. 31)
A relação com Tito é, afinal, o que acabará por moldar o romance, possibilitando-o, já que o verdadeiro conflito – o que impulsiona a acção – se dá no momento em que a mãe se vê a obrigada – ou se obriga a si mesmo – a denunciar o filho à polícia. A ruptura familiar abre-se ali, e que dizer do laço inquebrável entre mãe e filho? Vários elementos se precipitam em catadupa: no caso do rapaz, a violência – e o seu exercício – eram comportamentos aprendidos no seio da própria casa, que a mãe não conseguiu controlar ou limar. Normalizada dentro da família, ao concretizar-se, ou seja, ao reproduzir-se socialmente, não parece um desvio, antes uma reposição do bem. Assim, o ataque que Tito levou a cabo, e que era um ataque homofóbico – isto em Belo Horizonte, nos anos 1980 –, é aqui mais do que ódio individual, mostrando-se no romance como comportamento aprendido, que, por sua vez, se transforma em sentimento aprendido, tudo isto moldado por uma ideia de aceitação e de valorização da masculinidade violenta, essa que constrange o choro, exibe a coragem e por aí fora.
Título: “Quando” | Autora: Carla Madeira | Editora: Particular | Páginas: 266
Como é a mãe quem denuncia o filho, o romance passa a incidir sobre a ambiguidade moral do amor materno. Não é que o amor por Tito não exista; a questão é que entra em conflito com a responsabilidade pelos seus actos, e por isso também entra em conflito com a ideia de protecção incondicional, ou desta como sinónimo de amor. Não é que a narrativa resolva o conflito – pelo contrário, vai sempre tecendo mais fios, sempre abrindo mais portas, movimento para o qual contribuem as decisões formal de Madeira. O romance tem uma estrutura sem linearidade e, em concomitância, polifónica. Por vezes, a pontuação reflecte os estados emocionais das personagens, criando lentidão ou pressa por parte de quem lê, ao mesmo tempo que cria, aqui e ali, a sensação de espera, o que faz com que a forma se funda com o enredo.
A denúncia, vinda da mãe, funciona como admissão de um fracasso: o rapaz, que agrediu, não foi protegido de se tornar em alguém incapaz de agredir; pelo contrário, foi incentivado pelo pai, agora morto, e este deixou-o semi-órfão já transformado em algo além de barro. Ainda assim, a mãe não olha para o próprio filho com essa ideia de vitimismo em que culpado é vítima, não assumindo que os actos são legitimados ou justificados pelo ambiente que os proporcionou. Acaba por haver, ao longo do romance e dos estados de alma de Viridiana, uma certa tensão entre determinismo social e responsabilidade individual. O que passa de Afonso para Tito – a repressão do choro, a exibição da coragem, o culto dos bíceps – molda um protótipo de homem, um ideal de masculinidade, e sobrevive no rapaz após a morte do pai, que reproduz o que aprendeu não como quem transgride mas como quem repõe uma ordem natural.
Nisto, a autora vai delineando bem o peso do que se diz numa família, e sobretudo na autoridade de cada voz – o pai ensina porque é pai, o filho aprende porque é filho, e a dada altura no romance até se assume isto, com uma personagem a dizer que não entendia frases como “Ele é seu pai” ou “Ele é meu marido” como justificação – ou, como se diz, como “senha que dava direito a meu pai de pisar no meu pé de propósito ou me obrigar a rir das piadas estúpidas dele” (p. 151), “senha para o vale-tudo” (p. 151). Entre descrições e momentos de discurso directo, pega-se no assunto de sempre, o assunto de tanta literatura – a família como material mais fértil para se pensar a vida.
A prosa avança com velocidade, e esse é um dos grandes méritos do livro. O leitor encontra-se, por isso, sempre no epicentro de qualquer coisa a acontecer, seja acção, pensamento ou emoção. Carla Madeira, não deixando de fazer da prosa um caudal, escreve sem texto inócuo e consegue deixar o leitor a ziguezaguear enquanto lê.
A autora escreve segundo a antiga ortografia.