O espetáculo “Em silêncio”, a estrear-se no sábado, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, transporta o público para os 48 anos de história da ditadura do Estado Novo em Portugal, baseado em documentos históricos e testemunhos de presos políticos.

Com texto e encenação de Teresa Sobral, o espetáculo, que ficará em cena na Sala Mário Viegas, teve na origem a preocupação da artista de, “enquanto mãe”, se ter apercebido há muito de “que nas escolas não se ensina quase nada sobre a ditadura em Portugal”, como disse à agência Lusa no final de um ensaio de imprensa.

“Passar pelos manuais escolares e uma história nossa tão recente, de tantos anos estar sempre resumido a duas páginas, duas páginas e meia” era algo que preocupava a criadora sempre que tinha de ajudar os filhos nos estudos.

Por isso, um dia pensou: “Esta história está mal contada ou não está contada. Falta-lhe aqui muita coisa: porque é que isto aconteceu, como é que aconteceu, as consequências que teve de facto — sociais, económicas, políticas, etc. etc.”. Então começou a pensar em investigar, e “talvez fazer um espetáculo para levar às escolas”.

Se bem o pensou, mais depressa o fez. Primeiro, conversou com uma mulher que tinha estado em prisão política muitos anos. Nessa entrevista foram-lhe facultados “mais quatro ou cinco nomes”. Depois, surgiram “mais quatro ou cinco, depois mais dez, depois talvez uns vinte”. Resultado: durante sete a oito anos, Teresa Sobral falou com presos políticos da ditadura, antes do 25 de Abril de 1974.

A partir daí foi para os arquivos, para a Torre do Tombo, para a Fundação Mário Soares, consultou os arquivos Ephemera, projeto do historiador José Pacheco Pereira, recorreu ainda à historiadora Irene Flunser Pimentel. O seu objetivo era que os acontecimentos narrados no espetáculo tivessem “rigor histórico nas datas e no que acontecera”.

“Em silêncio” resulta assim de um trabalho elaborado ao longo de quase treze anos, “numa recolha alucinante de informação pessoal e histórica, que deu, de facto, para perceber que a História [da Ditadura do Estado Novo] não está contada”.

E para que “a memória não se apague”, Teresa Sobral faz questão de depositar na Torre do Tombo o texto do espetáculo, assim como as entrevistas que fez aos presos políticos.

O golpe de Estado de 28 de maio de 1926, a revolta de fevereiro de 1927, iniciada no Porto e que rapidamente se alastrou a Lisboa, encabeçada pelos marinheiros de Alcântara e pelo Arsenal da Marinha, a primeira emissão experimental da RTP, em setembro de 1956, a campanha da candidatura de Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958 e a deturpação dos seus resultados são alguns dos factos abordados, quer em falas da peça, quer em transmissões em vídeo de imagens da época.

A chegada de Salazar ao poder como ministro das Finanças, em 1928, a sua ascensão a presidente do Conselho (Governo), em 1932, a promulgação da Constituição de 1933, que institui o Estado Novo, e a criação da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado — a polícia política da ditadura (futura PIDE), no mesmo ano, a partir da Polícia Internacional e da Polícia de Defesa Política e Social — estão também na narrativa da peça.

O “apertar da ditadura” com o consequente aumento de presos políticos nas cadeias do Aljube e do Forte de Peniche, com testemunhos das várias torturas, do sono ao pingo e aos brutais espancamentos, são outros factos retratados, por atores vestidos à época, que vão passando por entre o público mostrando documentos do regime e contra o regime, assim como jornais da época.

A pobreza, muitas vezes ao nível da miséria, e o analfabetismo, a emigração, a ausência de direitos das mulheres, os abusos da ditadura nas antigas colónias, o surgimento dos movimentos independentistas em África e a mobilização de soldados para a guerra, onde morriam ou de onde regressavam estropiados, a deserção e o exílio estão igualmente na peça, assim como a queda de Salazar da cadeira, no Forte de Santo António do Estoril, em agosto de 1968, e os anos de desagregação da ditadura, que se mantinha assente na repressão e na limitação de direitos básicos dos cidadãos.

Para a construção deste espetáculo, agora recriado depois de posto em cena durante as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, Teresa Sobral começou a trabalhar com os atores durante dois meses, com quem foi construindo as cenas.

Às vezes “reescrevia-as”, noutras, mudava-lhes a ordem, tudo para elaborar uma peça demasiado longa, que percorre 48 anos da história de Portugal, terminando no 25 de Abril de 1974. “Daí já não avançamos; isso daria outra investigação e outro espetáculo”, frisou Teresa Sobral.

Sobre o título da peça, “Em Silêncio”, Teresa Sobral disse tê-lo escolhido “por muitas razões”: “Primeiro, porque se vivia em silêncio, porque as pessoas não davam as suas opiniões, nem as pessoas do regime, nem as pessoas contra o regime”.

“Não se falava por variadíssimas razões: umas [pessoas] porque tinham medo, outras porque eram desconfiadas, outras porque eram contra o sistema, outras porque eram a favor. Vivia-se em silêncio”, observou.

E o silêncio, “uma das características da ditadura, que é o pior sistema para se viver, continua hoje”, enfatizou, referindo-se ao facto de pouco se falar desse período.

Estranho, prossegue a encenadora, é atualmente haver quem defenda “um caminho que nos poderá levar rapidamente a uma ditadura”. E atribui essa possibilidade ao facto de aquele período e das suas consequências reais serem ainda “desconhecidos para muita gente”.

Com música ao vivo e projeções de grande dimensão, o espetáculo detém uma qualidade imersiva que permite ao público “viver” os factos históricos relatados.

“Em silêncio” vai estar em cena na sala Mário Viegas, até 1 de novembro, com récitas à sexta-feira e ao sábado, às 19h30, e, ao domingo, às 16h00, para o público em geral. Para escolas do ensino secundário terá sessões nos dias 28 e 29, às 14h30.

Com texto, encenação, composição vocal e espaço cénico de Teresa Sobral, “Em silêncio” é interpretado por Beatriz Maia, Danilo da Matta, Mário Coelho, Miguel Nunes, Patrícia Fonseca, Rita Gonçalves e Tomás Barroso.

Como músicos estão Hernâni Faustino (contrabaixo), Miguel Sobral Curado (guitarra elétrica) e a cantora Leonor Cabrita.

O desenho de som e música original é de Miguel Sobral Curado, os figurinos são de José António Tenente e o desenho de luz de Vasco Letria.

O vídeo é de João Pinto, Daniel Rondulha e Teresa Sobral e a consultoria histórica de Irene Flunser Pimentel.

Na voz do Bidonville está Valdemar Francisco, na do Colonialismo/25 Abril, Ernesto Dabo.

Álvaro Pato, Luísa Tito Morais, Pedro Santarém, Fernanda Neves, Maria Machado, Raimundo Narciso, Helena Pato, Ernesto Dabo, Fernando Cardeira, Rui Pato e Silvestre Lacerda contam-se entre os presos políticos com testemunhos na peça.