Tenho medo de tudo e o seu contrário. A coisa é de tal forma que aqui há tempos comecei a fazer uma lista dos meus medos no telemóvel, convencida que um dia a vou usar para alguma coisa. Posso adiantar que está prestes a chegar às três dezenas e conta com itens como sapos (arrepiei-me só de escrever a palavra), andar de barco (e sim, cacilheiro conta) e piso transparente em centros comerciais. Na verdade, tenho medo de piso transparente no geral, mas é nas grandes superfícies que sou mais confrontada com o dito.
Dito isto, adoro filmes de terror. Aprecio sustos na tela, quase na mesma medida em que os odeio no quotidiano. Atirei-me ao género na adolescência e nunca mais o larguei. Lambi as prateleiras do videoclube dedicadas aos jump scares mais do que uma vez, que a oferta não era generosa nem em quantidade, nem em qualidade. Nascida no último ano de 70, consumi todos as dinastias de slashers, dessa década e da próxima, a que consegui deitar a mão. Do Halloween ao Pesadelo em Elm Street (o favorito da menina), passando como é óbvio pelo Sexta-Feira 13, cujo filme inaugural faz agora 46 anos, que calha a ser a minha idade. O que é que isto quer dizer, para além de que estou a ficar jarreta? Nada.
A coletânea Sexta-Feira, 13, precisamente, ganhou agora um novo fascículo de seu nome Crystal Lake. Recém-estreada na HBO Max, a série de 8 episódios propõe-se a contar a história da origem do Jason, um assassino sanguinário, com uma força extraordinária e fetiche por acessórios, que vai variando entre um saco na mona ou uma máscara de hóquei na fronha. Eu sou team saco. Mas acima de tudo, Jason Vorhees é o matador que teima em não morrer por mais que o matem e a série de Brad Caleb Kane (Fringe, Black Sails, It: Welcome to Derry) propõe-se a explicar o porquê. Vamos descobrir se Jason é ruim de nascença ou se lhe veio com a idade — ou, como se diz agora, nature ou nurture. Façam as vossas apostas.
[o trailer de “Crystal Lake”:]
Crystal Lake arranca com uma linda mulher, que havemos de descobrir que é a protagonista, a ver-se ao espelho de uma casa de banho e não é para verificar se o eyeliner está direito. Coberta de sangue dos pés à cabeça, qual Carrie (excelente série na Prime, já agora), apercebe-se que tem um dente cravado nas costas da mão e pergunta ao seu reflexo: “O que é que fizeste?”. Corta para um lettering branco em fundo negro que diz “9 Meses Antes”. Clássico. Começa bem.
No ano da graça da 1970, encontramos Pamela Vorhees (Linda Cardellini, que não me canso de elogiar, mas já lá vamos) na pequena cidade de Crystal Lake, um lugarejo em que toda a gente se conhece e ninguém se coíbe de meter o nariz onde não deveria ser chamado. Pam é mãe de Jason (Callum Vinson), um miúdo com uma condição de saúde muito visível, que deixa a crueldade das crianças que o rodeiam bem à mostra. Escusado será dizer que isso, por si só (e havemos de descobrir que esta é só a pontinha de um icerbergezaço) faz de Pam uma mãe super-hiper-mega protetora, mantendo o filho à distância de um “ai” sussurrado. E é por isso que, embora contrariado, Jason frequenta o campo de verão local, onde Pam trabalha como cozinheira.
Jason sofre de uma aparente hidrocefalia, o que leva putos ranhosos a chamarem-lhe coisas bonitas como cabeça de bola de basquetebol, a um ou outro abuso físico e a uma solidão que só é quebrada por Grace (Gwendolyn Sundstrom) que não só gosta dele, como o defende perante os mini-paspalhos. E numa partida de mau gosto do destino, é graças a este elo de amizade com Grace e à negligência movida a tesaneira juvenil dos monitores Barry e Claudette (Phoenix Parnevik e Danielle Kotch), que Jason se afoga no lago, para desespero absoluto da mãe. Dado novo salto temporal para nove meses depois, percebemos que o corpo nunca apareceu, as autoridades já desistiram de o encontrar, mas a mãe, claro, recusa-se a desistir.
E é neste impasse que Pam recebe em sua casa a visita de dois alegados polícias de New Jersey, que dizem ter encontrado o cadáver do filho. Pam percebe rapidamente que aquilo cheira a esturro e que a intenção dos gabirus não é levá-la ao encontro do corpo do filho, mas que ela lhe vá fazer companhia. O que é que acontece a seguir? Digamos que, dá para perceber a quem é que o filho puxou. A partir daqui, vamos seguir linhas narrativas em paralelo, com direito a flashbacks pontuais e um episódio que o é quase na sua totalidade (o sétimo, que é um primor de realização), unidas por um fator: todas são centradas nesta mãe. A Pamela que não se cansa de procurar o filho, o que a leva a atos irrefletidos, para usar um eufemismo do tamanho de um prédio com elevador. A Pamela que apesar de parecer completamente fora da casinha, faz de tudo para não ser apanhada. E ainda, o desmontar da história de quem é a Pamela do passado, e o que levou dois assassinos a soldo a baterem-lhe à porta, assim que a cara dela apareceu na capa de um jornal, pela morte do Jason.
A comunidade compadece-se com a dor de Pam, o que não evita que ela seja alvo de comentários que demonstram a empatia de uma saca de brita. Crystal Lake é um lugarejo estereotipado, onde há fricção entre o jovem e o velho, o conservador e o progressista, o que vem de fora e o nativo. Isso está logo muito presente para começar na dupla de polícias: Levon Brooks (William Catlett) é o xerife lá do sítio, trocou a cidade pelo campo (havemos de saber se por vontade própria ou não) e ainda por cima calha a ser de uma minoria muito minoria, numa cidade que para ser mais branca, só se os cobrissem de cal. Dorf (Cameron Scoggins) é o adjunto, burro que nem uma porta à primeira vista, que passa o tempo a contabilizar há quanto tempo “não dá uma” e o mal que isso lhe faz. Ainda assim, vai-se transformando numa das minhas personagens favoritas. Vive com o pai, um velho amargo que vai alternando entre um bafo no cigarro e a garrafa de oxigénio e que acha o filho um banana, mais que não seja pela cor do seu superior. Um doce.
Dorf passa a vida a rastejar aos pés de Rita (Joy Suprano) que está decidida a embarcar no advento do amor livre. Ou então, chegou simplesmente aquela idade que se está um pouco a borrifar para o que os outros dizem, mas ainda assim tem padrões. Lee, o xerife, tem um crush claro por Pamela, o que lhe vai turvar a vista a tempos, e é irmão de Brianna (Devin Kessler), uma jornalista enterrada numa redação em que só lhe entregam histórias que não interessam nem ao menino Jesus, porque além de mulher é negra, o que parecendo que não, não facilita.
A acrescentar a este painel temos o maluquinho da aldeia, um veterano de duas guerras, carregado de stress pós-traumático até às orelha, que funciona como o profeta da desgraça e um bode expiatório perfeito. Como pano de fundo, temos um bando de pacóvios, uns mais mal intencionados do que outros, mas todos com uma espingarda nas costas e adeptos da justiça popular alimentada a Budweiser. Já no campo de verão, é o clássico: vão caindo que nem tordos por ordem de imbecilidade e por quão sexualmente ativos são.
Mas falemos do que realmente interessa aos fãs de slasher, que é como quem diz cabidela audiovisual. Temos tsunami de sangue? Machados na testa, decapitações, desmembramentos, mortes que desafiam a anatomia como a conhecemos e afins? Temos, pois. Daquelas que dão cagaço e ao mesmo tempo são divertidos? Bastante e ainda fica melhor em 4K e sem grão. O primeiro banho de sangue/ocultação de cadáver é especialmente inspirado. Não quero dar spoiler, mas vou só dizer que inclui um saco de plástico reutilizado, um rolo de tape e frascos de mel. Embora o rácio de mortes seja claramente inferior aos filmes, quando se dá, dá-se com força. E são mortes com propósito, o que nestas películas da altura era de somenos importância.
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Além disso, uma trama com a complexidade que este argumento tem, precisa de ser suportado por atores que façam mais que correr na floresta e berrar como se não houvesse amanhã e o elenco é todo ele competente. Mas a Linda Cardellini que dá vida à mãe, senhoras e senhores, é um portento. Ela dá-nos pena, medo, graça, raiva, nervos, tudo. Até um pouco de ponta. Sem over acting, mas com o exagero que se pede ao género. Já quando escrevi sobre DTF St Louis (para mim, uma das séries do ano) disse o quão underrated acho que ela é, e Crystal Lake só sublinha isso, com sangue e vísceras.
É nítido que o criador e os realizadores, Logan George, Celine Held, Michael Lennox e Quyen Tran, gostam muito da saga e do género. É uma homenagem que respeita, mas acrescenta, e acho que isso é o melhor que se pode dizer de um remake, ou de uma prequela ou coisa que o valha. Fui rever o filme de 1980, porque sou esse tipo de obcecada. Só vi o primeiro, porque lamentavelmente tenho mais que fazer. Mas este amor pelo original ainda fica mais marcado. A rua do diner igualzinha, a utilização daquele efeito sonoro clássico que assinala que o assassino está perto e parece alguém a fazer exercícios respiratórios de parto, o genérico com a mesma fonte, a mesma estrutura, o mesmo freeze no berro. Há uma cena que é adaptada a novos personagens e é reproduzida quase frame a frame. Um encanto, não fosse acabar com dois adolescentes retalhados. Mas como eram meio crápulas, não dá assim tanta pena. Está aqui uma boa parte do encanto do slasher, apesar de ficar com um gosto a ferro na boca. E eu tenho medo de facas, imaginem se não tivesse.