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Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de Conversas no Tee, um podcast em parceria com a Federação Portuguesa de Golfe e com o apoio da DS Automóbil, a acompanhar esta viagem pelo universo do golfe, onde cada detalhe conta. Durante muito tempo, o golfe foi associado a um universo maioritariamente masculino, mas a realidade está a mudar rapidamente. Há cada vez mais mulheres a competirem e a afirmarem a sua voz na modalidade. Eu sou a Maria João Simões e nos próximos minutos vamos falar sobre isto mesmo: a presença e o crescimento das mulheres no golfe. E para isso, tenho comigo a Sofia Jardim, relações públicas e uma apaixonada pela modalidade, e a professora de golfe Susana Ribeiro. Bem-vindas às duas. Muito obrigada por terem aceitado o nosso convite. Obrigada nós. Sofia, começo por ti. Como é que o golfe entrou na tua vida? O que é que sentiste nas primeiras vezes em que pisaste um campo? Sentiste um meio predominantemente masculino, como eu referi há pouco, ou percebeste logo que era um espaço em forte expansão para as mulheres?

Olha, aquilo começou um bocadinho por uma necessidade, porque foi no Covid. E então no Covid, em que estávamos a passar todos por uns tempos um bocadinho conturbados, ninguém sabia bem o que era, estava tudo um bocado enervado, e eu sempre fui muito desportista. Não é que seja assim grandes desportos, não faço competição em lado nenhum, mas sempre gostei muito de fazer exercício e já me estava a ficar um bocadinho incomodada de estar sempre em casa, fazia ginástica em casa, fazia tudo em casa e depois de repente percebi que podia-se jogar golfe. Às tantas abriu ali os jogos no Jamor, ao pé de casa e que dava para ir jogar. Então comecei assim.

Funcionou como escape.

Um escape. E eu comecei a jogar, pensei: "Ok, deixa ver que desporto é que eu vou fazer ao ar livre". Não gosto de correr, não gosto, portanto às tantas eliminei tudo e pensei assim: "Então vamos experimentar o golfe".

E gostaste logo ou foi assustador a primeira tacada?

Gostei logo. Quer dizer, não é propriamente uma coisa fácil, não é? Mas pensei assim: "Estamos aqui ao ar livre", fui com amigas e era um momento, pelo menos durante uma hora, em que eu estava ali a ter aulas. Depois também tive um professor muito bom, que não sei se sabes quem é, é o Afonso Girão.

Sim.

E o Afonso era o Afonsinho, coitadinho do Afonsinho, que teve que aturar de repente três mulheres que entraram para ali adentro sem sabermos jogar.

Mas depois uma puxa pela outra também, não é?

Uma puxava pela outra e era muito bom. E então foi numa altura um bocadinho de necessidade, e aquilo foi tornando-se um bichinho aqui dentro de mim e então levámos aquilo um bocadinho mais a sério e passámos a ter umas aulas frequentes durante a semana, das oito às nove, duas vezes por semana, e aquilo já estava num ritmo bastante bom. E eu acho que sim, é um desporto onde ainda há este estigma tradicional, que é um desporto de homens e de pessoas mais velhas. Eu acho que é este o estigma que existe.

Temos tentado desmistificar essa ideia.

Mas que eu acho que cada vez menos é esta a ideia. Por quê? Porque antigamente, se calhar, fazia sentido ser um desporto de homem, porque é um desporto que demora um bocadinho de tempo e os homens eram, por circunstância da vida, as mulheres ficavam em casa a tratar das crianças e da casa e os homens tinham mais tempo livre. A verdade é essa. Hoje em dia já não é assim. E, portanto, eu acho que as próprias mulheres também já perceberam isso. E o golfe é um desporto em que se pode jogar em diferentes fases da vida, seja mais novos, que cada vez há mais jovens a jogar. As minhas filhas por acaso ainda não começaram, mas os filhos das minhas primas já começaram, etc. Até mais velhos, portanto não tem esta coisa já da faixa etária, porque há muitos miúdos a jogarem e é todas as idades. É um desporto que tu podes fazer em todas as idades. Tanto quando és mais velho, que faz bem, porque andas a pé, etc. E tens convívio, que é super importante. O que eu achei no golfe foi exatamente isso, é que nós conseguíamos conjugar o convívio, eu divertia-me durante aquela hora imenso. Mas depois, quando tens de te concentrar, estás ali sozinha, tu, o taco, a luva, a bola e não dá para ver margem de desconcentração. Tens que estar sozinha naqueles minutos, pelo menos. Portanto, tens um misto, tens duas coisas. E por isso vou me calar.

Recomendas. Susana, foste tricampeã nacional, vives o golfe ao mais alto nível, quer a competir, quer agora a ensinar. Como professora, notas que o perfil das alunas mudou? Há um interesse feminino cada vez mais jovem e genuíno pela modalidade?

Sim, eu acho que não é só no setor feminino, também no masculino, cada vez há mais jovens a quererem jogar. Acho que antigamente era um bocadinho aquele desporto da reforma e as pessoas começavam a jogar golfe ou começavam logo muito novas, desde pequeninos e continuavam, ou então era um desporto um bocadinho associado àquela parte da reforma, mesmo para as mulheres.

Que agora podia-se, exatamente.

E agora não. Eu acho que a questão do Covid veio mudar bastante esta perspectiva, porque, como a Sofia dizia, começou a jogar golfe nessa altura. Acho que muitas pessoas nessa altura procuraram o golfe como escape e viam que era um desporto que não exigia um esforço físico intenso, como é a corrida, por exemplo.

Eu não gosto de correr.

Exatamente. Muitas pessoas não gostam de correr e nem têm a aptidão para.

Não tenho nenhuma.

Eu também não. E o golfe acaba por ser um desporto que exige até bastante esforço.

Eu ficava mesmo cansada.

Sim São caminhadas muito longas.

Porque se anda muito entre buracos no campo.

Entre buracos.

E o esforço mesmo de tacada, da concentração e daquilo tudo. Desgasta um bocadinho fisicamente. Eu sentia-me mesmo cansada.

Sim, sem dúvida. Uma volta de 18 buracos são à volta de 10 km num campo normal. Temos campos mais planos, outros a subir, a descer.

Na verdade, é um desporto muito completo, fundamental ainda.

Sim, o golfe é muito mental e a pessoa tem que ser muito resiliente e traz também uma grande aprendizagem até pra vida. No fundo, podemos relacionar muita coisa no golfe com aquilo que fazemos na nossa vida.

Não desistir à primeira frustração.

Exatamente.

Aquela primeira tacada que não corre bem.

É super porque um dia estás a jogar muito bem e no dia a seguir estás a jogar supermal e és a mesma, tens o mesmo taco, tens a mesma luva, tens os mesmos sapatos.

Às vezes no próprio dia.

Às vezes no próprio dia.

Começamos uma volta a jogar muito bem e depois acabamos muito mal ou o contrário, também acontece. É sempre melhor quando é o contrário, porque estamos a melhorar.

Mas lembremo-nos disso.

É um desporto muito difícil de começar e eu acho que aí é que é a grande dificuldade.

Mas depois de começar é difícil parar.

Depois de começar, é difícil desistir. Eu digo sempre às pessoas pra darem uma oportunidade de pelo menos tentarem quatro, cinco vezes, não desistirem logo à primeira, até porque podem estar num dia pior. Há pessoas que começam muito bem logo na primeira aula e que acham que aquilo é o máximo, depois chegam à segunda e acham que estão a andar pra trás.

Aconteceu a mim mesma.

É muito cedo pra dizer que uma pessoa está a andar pra trás, é uma segunda aula.

É preciso dar tempo.

É preciso dar tempo, é preciso passar por todas as áreas do jogo, porque nós vamos ser sempre melhores numa área do que noutra.

Eu posso dizer qual é a que eu sou melhor. É jogo curto.

Por exemplo.

Adoro.

É jogo curto.

E normalmente as mulheres têm muito essa questão do jogo. Por exemplo, os homens procuram muito mais a força e bater a bola longe. E as mulheres são muito mais precisas na pancada, não batem a bola tão longe, é verdade, salvo raras exceções, mas têm muito mais precisão e acabam por ganhar um bocadinho por aí. Eu costumo dizer sempre-

Tem o jogo curto.

O jogo curto é fundamental. Eu digo sempre às senhoras: "Devagar se vai ao longe, por isso calma, vamos com calma, não é preciso estarmos a querer chegar a uma distância muito longa, porque depois vem a outra parte do jogo e aí nós podemos vencer e podemos dar a volta".

Sofia Jardim, a vida de relações públicas e o dia a dia social exigem muita energia. O que o golfe te dá em termos de convívio com outras mulheres, equilíbrio de vida e bem-estar que outras modalidades não te dão.

Olha, eu acho que é exatamente por causa disso. A minha vida é muito intensa e cheia de estímulos, sempre a ser muito requisitada pra aqui, pra ali, pra falar com esta pessoa, com aquela, etc. E o que me acontece no golfe é que primeiro não vou sozinha nunca, portanto, tenho sempre as minhas duas amigas que jogam comigo, portanto estamos acompanhadas.

São sempre as mesmas amigas.

São sempre as mesmas, também não tenho assim muitas mais. Agora já estamos a criar aqui um grupo pra ver se o grupo aumenta. Mas o que eu ganho mais com o golfe é exatamente isso, é poder ter ali um momento, uma hora de slowdown. Eu acalmo imenso, porque o golfe, se tu não tiveres concentrada e se tu não tiveres calma e se o teu cérebro não tiver focado naquilo, não acontece. Portanto, eu já percebi que tenho que estar mesmo focada e aquilo é uma forma, como tu estavas a dizer pra vida, que me ensina a estar focada. Portanto, por mais que tenha estímulos, estou com elas, conversamos, rimos durante o caminho até o próximo buraco, mas durante aquela altura em que estamos a jogar, estou completamente focada. E isso acalma-me imenso. E eu acho que é exatamente isso que as pessoas procuram no golfe. Por exemplo, tu vês os pilotos de Fórmula 1 jogam golfe, os jogadores de futebol jogam golfe. Portanto, tudo o que é uma adrenalina muito grande e tudo o que é estímulos muito fortes na vida pessoal, depois jogam golfe na vida profissional.

Sim.

Jogam golfe. Porque aquilo é uma forma de tu treinares o teu cérebro pra estares focada e concentrada com uma data de estímulos exteriores. Portanto, tu ali estás a treinar o cérebro a estar focado, porque se tu não pensares em 30 mil coisas por segundo, a bola não vai sair. E não é como jogar pádel ou como jogar tênis ou como jogar o que quer que seja. Se a pessoa não está concentrada, a bola não sai. Eu às vezes ia assim: "Joãozinho, o que aconteceu? Eu fiz tudo bem". Ele: "Não, Sofia, não estavas focada. Foca-te lá". E eu respirava, focava, minha bola saía.

Você corria melhor, depois.

Vês como é só fazeres isso? Estavas distraída, estavas a falar, estavas a rir e jogaste. Não, não podes. Tens que parar, tens que te focar e pensar exatamente em todos os passos que estás a fazer, senão a bola não vai sair. E a bola não saía.

Sim, é verdade.

Sónia Ribeiro, tu lidas diariamente com quem quer dar as primeiras tacadas. Quais são os principais mitos ou receios que vês nas mulheres quando chegam à primeira aula? É a ideia de que é uma modalidade difícil, a falta de tempo ou o receio de, sei lá, não estarem ao mesmo nível dos homens.

Eu acho que vem um bocadinho de acordo com as expectativas das pessoas. Não tanto de não estarem ao nível dos homens, porque eu acho que isso não é uma preocupação na maioria das mulheres. É mesmo não estarem ao nível das suas próprias expectativas, porque têm uma expectativa muito grande, porque é normal, nós vemos o golfe na televisão e o golfe parece superfácil. É muito fácil e não é. E depois há um bocadinho essa desilusão, eu acho que é um bocadinho isso.

Frustração.

Eu digo sempre na primeira aula-

As pessoas acham que é só pegar num taco.

Sim, as pessoas acham que é fácil levantar a bola.

Que não existe técnica, concentração, tudo aquilo que a Sofia Jardim dizia.

Eu digo sempre: a primeira aula é só pra acertar na bola. E as pessoas riem-se Antes de tentarem.

E depois.

E eu digo: "A sério, é que acertar na bola é bom. Acertamos na bola primeiro, depois o segundo objetivo é só levantar a bola e por hoje já está bom". E as pessoas dizem: "Caramba, mas está a fazer de mim, não sei, uma falta de jeito". Mas não, e depois percebem que é realmente difícil. E quando começam a levantar a bola ouvem aquele barulhinho.

Depois são as pequenas vitórias.

Que é sinal que a bola bateu no sítio certo, no taco.

É o melhor barulho.

É a melhor sensação do mundo.

Está um silêncio enorme, porque o golfe é um desporto com silêncio.

Sim.

As pessoas não falam, tens os passarinhos no jamor, tens os patinhos, não sei o quê. E depois, de repente, há aquela tacada com aquele barulho.

Aquela satisfação, não é? Consegui.

Fui eu que fiz este barulho.

E depois são também esses pequenos desafios que tornam o golfe viciante.

Sim, e eu acho que é isso que no início, quando as pessoas começam a jogar, torna isso viciante. É: "Ok, agora que eu consegui, eu sou capaz de fazer mais". E então andam sempre à procura daquilo. E é muito importante no início, é a questão das amigas.

Eu acho que é superimportante ir acompanhada.

Sim, mais do que ir com o marido ou, no caso das crianças, irem com os pais, é muito mais importante ir com os amigos ou com as amigas.

Mas porquê, Susana?

Eu acho que, por exemplo, quando o marido joga, há sempre aquela coisa de querer se meter.

É, de ensinar.

"Faz assim e faz assado".

"Por que é que fizeste assim? Não é assim, não ponhas a perna assim, não ponhas o pé assim, não ponhas a mão assim".

E assim estão todos por igual. Amigas a conselhar.

Com as amigas está tudo certo e nós rimos com a estupidez da outra, e a outra joga mal e nós rimos, e a outra joga bem e nós festejamos. É isso, é muito mais cúmplice ser com uma amiga do que ser com um par que cá tantas vai começar a ensinar e a pessoa vai-se irritar.

A não ser que comecem os dois do zero.

Pois.

E aí, sim, até pode ser uma motivação um para o outro. "Olha, eu estou a tentar assim, o que é que achas?" Mas quando a outra pessoa já joga e vai, normalmente não corre bem.

Mas isso é em todos os desportos, eu acho. Os meus amigos não podem jogar marido e mulher, que aquilo corre mal.

Sim.

Portanto, eu acho que os desportos é melhor ser com amigos.

Estamos a chegar ao fim do nosso tempo. Se pudessem dar uma tacada de incentivo a qualquer mulher que nos esteja a ouvir e que sempre teve curiosidade em experimentar o golfe, o que é que lhe diriam para ela ir já este fim de semana para o green?

Olha, eu diria: experimentem, porque não tem nada a ver com o que nós achamos. E é muito satisfatório poder passar um dia, umas horas ao ar livre. É divertido, tem concentração, tem tudo. Portanto, é um desporto muito completo, é mais do que um desporto. Por isso eu aconselhava a experimentarem primeiro já, que é para desmistificar a ideia do golfe, que não é para velhos.

Não.

Não é para velhos.

E não desistirem quando não acertam na bola.

E não desistirem, por favor, que é muito giro quando se acerta bem. E depois descubram o que é que são melhores e depois joguem mais assim. Eu jogo mais o jogo curto, eu gosto mais.

Susana Ribeiro.

Sim, é um bocadinho isso. Há sempre uma parte onde vamos ser melhores do que outra. Há a componente do convívio, que é fantástica e não há noutros desportos. É muito difícil. Quando jogamos futebol, quando jogamos ténis, quando jogamos paddle, não estamos ali propriamente a falar e aqui no golfe é muito fácil isso acontecer. E além da parte do convívio, é uma excelente forma de praticar exercício. Para quem não gosta de ginásios e de estar fechada num sítio, o golfe é um desporto espetacular.

E mais uma coisa importante para as mulheres é que o golfe agora está com kits giríssimos.

Sim, os outfits são...

Mais um incentivo.

São muito apelativos os outfits.

Sim, os outfits são um incentivo.

Estão muito melhores, as marcas estão a investir.

Sim, muito mesmo. Sim, é verdade.

Susana Ribeiro, Sofia Jardim, muito obrigada por esta excelente conversa e por mostrarem como o golfe fica ainda mais rico com esta energia feminina. Foi mais um episódio de Conversas no Tee, uma parceria com a Federação Portuguesa de Golfe e o apoio da DS Automóbil, onde a elegância, a precisão e a paixão pelo detalhe nos conduzem a novas conversas. Eu sou a Maria João Simões, regresso na próxima semana com um novo episódio. Até lá, bons swings.