Acompanhamos Lily Chen, uma estudante de Yale sino-americana que aparenta estar desligada das suas raízes. Ei-la, para contrariar isso, prestes a passar um Verão em Taipé, e o romance começa logo no centro da acção, com a protagonista a reparar na quantidade de estudantes sino-americanos no aeroporto de Logan. Chegada a Taiwan, o objectivo é fazer um programa intensivo de imersão na língua chinesa, língua que soube e esqueceu.

A ideia é a recuperação das raízes, ali assumidas como parte da identidade. Mas, assim que o programa começa, impõe-se a realidade, e a idealização cai ao charco: as aulas de chinês são exigentes e cansativas, o calor da cidade sufoca, o espaço confinado onde vive é claustrofóbico, e a convivência com a colega de quarto está longe de ser pacífica. No meio disto, e agora distante da família, perde o avô, juntando-se o luto à lonjura, e abrindo-se, na narrativa, espaço para o passado dos pais, que por sua vez levam ao texto longas passagens sobre a história geopolítica da região. Com isso, a autora parte do quadro menor para o maior, da personagem para o país e para o contexto social.

Enquanto delineia isto, Kuang vai explorando uma sensação que perpassa o romance inteiro: esteja nos Estados Unidos ou na China, há uma sensação de desfasamento colada a Chen, que parece viver sempre no lugar do outro, sempre numa condição estrangeira. Ora, focando-se na atmosfera quotidiana de Taipé (os cheiros, o calor denso, a paisagem urbana), o livro traz tédio ao leitor, em parte porque é no tédio que se toca: enquanto procura ligações que não encontra, também Chen se aborrece. É verdade que o tema está na moda: em inúmeros continentes, escritores têm explorado personagens desenraizadas, preocupadas com o que ficou para trás, sedentas de uma pertença qualquer que não encontram. Nisto, são, como Lily Chen, voltadas para si, e o exercício da narrativa, por muito que procure o entorno, só apanha o estado emocional interno de alguém que está em braço-de-ferro consigo mesma. E não é que Kuang não faça um esforço por trazer o resto. Pelo contrário, à medida que a narrativa avança, abrem-se as portas para a história de Taiwan, para a ocupação, para a vida sob a sombra da China continental, para a experiência da diáspora chinesa, e assim se foge ao arco dramático tradicional, já que, à medida que lê, o leitor dá por si imerso num processo, meio perdido, de aprendizagem numa língua num lugar que parece indecifrável.

O vício na pertença e nas raízes – observável em muita da produção coetânea – cria esta espécie de angústia com marca de tempo: querer a gaveta da identidade implica que, em caso de falta da estrutura, haja um desfasamento de expectativas, uma sensação de desligamento, uma incapacidade de reconhecimento integral, súbito, permanente – ou seja, uma incapacidade de familiaridade anterior ao conhecimento, ou ao argumento. A protagonista parece querer que venha à tona uma ligação subterrânea entre quem partilha uma ascendência; no lugar onde mora, a ascendência parece marcar-lhe a diferença, ainda que partilhe agora referências, língua e cultura com os vizinhos. Chegada a Taiwan, percebe aos bocados, e o leitor com ela, que ascendência é só ascendência: a aparência não substitui a experiência e a genealogia não é uma marca de pertença; os códigos culturais não são os mesmos, a vida quotidiana também não; e nem sequer entende quem tem à volta, já que a língua não lhe é compreensível por osmose.

Livro: “História de Taipé” | Autora: R.F. Kuang | Tradução: Alexandra Cardoso | Editora: Desrotina | Páginas: 296

Neste sentido, o livro contrasta com os romances anteriores de Kuang, que habituou o público a narrativas grandiosas ou satíricas, e que adopta aqui um tom mais íntimo e introspectivo e um ritmo mais lento. Em A Guerra das Papoilas, temos um épico sombrio escrito numa prosa com tendência poéticas. Em Babel e Katábasis, estamos em Oxford, no século XIX, e a autora recorre a uma dark academia, dando ao leitor uma prosa que mistura rigor académico, notas de rodapé ficcionais e magia baseada em questões linguísticas: pequenas diferenças de sentido e perda de significado entre traduções de diferentes línguas fazem o truque. Em Yellowface, Kuang faz uma sátira mordaz sobre o mercado editorial. Já neste História de Taipé, a faceta é outra, e o enredo parece apoiar-se em experiências próprias, já que a autora também estudou mandarim em Taipé, tendo perdido o avô na mesma altura, resultando a leitura do romance numa experiência mais emocional, contrastando com personagens anteriores, vínculos para debates grandiosos e estruturados.

Aqui, há o triunfo do quotidiano abraçado ao vazio do luto e à solidão da diáspora, com uma prosa mais contida e um objectivo aparentemente mais curto, mas muito mais domável. Isto, claro, tem o problema do costume: um livro que se foca demasiado no mundo interior de uma personagem corre sempre o perigo de esquecer quem lê, ou de usar o leitor como mero espectador que, ao invés de actualizar a relação dialógica, assiste a um monólogo. Ao passar tanto tempo, e ao passar-se tanta prosa, na cabeça e nas observações de Lily, perde-se o ritmo e perde-se o retrato panorâmico. Em suma, volta e meia, perde-se o interesse.

Se o livro prova a versatilidade de Kuang, também nos mostra que, neste modelo tão na moda na coetaneidade, não há milagres: focar a experiência narrativa numa experiência, seja inventada, baseada na realidade ou decalcada, implica abdicar do potencial que o romance tem para abrir asas a cada página, e para deixar que o leitor assuma um lugar de actualização de um diálogo, sendo activo na sua recepção e não um mero receptáculo. A inquietação da protagonista nem sempre se transforma numa experiência produtiva. Lily pensa e observa, mas dessas reflexões não nasce conhecimento, e a introspecção parece limitar-se a repetir-se. O leitor recebe, assim, o que já sabia, e o romance só de vez em quando consegue abandonar a própria premissa.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.