Estavam sentados num banco, sossegados, aparentemente tranquilos até que o mais velho puxou o ar todo como se não houvesse amanhã e soltou um longo suspiro como se dali viesse uma forma de acalmar. José, o avô, está perto dos 70. Rodrigo, o mais novo, não tem mais que dez. E ainda apareceu depois o pai, que não tinha o nome nas costas como o progenitor, rondaria a casa dos 40. É difícil encontrar coisas específicas que possam unir os três. A paixão pelo Sporting é óbvia pelas camisolas que vestem mas em tudo o resto são de gerações diferentes, têm vidas diferentes, caminha(ra)m por vivências diferentes. Este sábado, num ponto que parecia um pormenor mas que era tudo menos isso, poderiam ver algo que nunca nenhum vira antes: a consagração da equipa verde e branca como bicampeã nacional, algo que não acontecia desde 1954.
José ainda não tinha nascido naquela altura mas, havendo essa linhagem familiar do clube, ouvia relatos que hoje mais pareciam o sonho. Afinal, falamos do primeiro clube a ter uma verdadeira hegemonia no futebol nacional, a primeira equipa a ganhar uma alcunha que fazia tremer os adversários apesar do som melódico de ter pela frente os Cinco Violinos, o primeiro emblema a ganhar o cognome de Crónico porque, num plano prático, era o crónica vencedor de tudo onde entrasse. O Sporting nunca mais voltou a ganhar a partir daí? Ganhou. Mas ganhou de forma esporádica, quase como espasmos que só aparecem de quando em vez entre uma era que tinha o Benfica no topo e o advento do FC Porto com Pinto da Costa. A forma diferente com que se vivem os sucessos em todas as modalidades já não era o amortecedor suficiente para o resto.
O ????Sporting conquista a 21.ª ????????Liga Portuguesa.
É o primeiro bicampeonato dos leões em 71 anos. pic.twitter.com/XCbtye0dVa
— Playmaker (@playmaker_PT) May 17, 2025
Pelo meio, passou de tudo. Em muitos pontos, olhar para a história do Sporting é ver o mais parecido que há com a cultura de més que un club do Barcelona no sentido de valorizar qualquer competição desportiva como se fosse a mais importante mas é também tropeçar em inúmeras histórias que foram marcando aquilo que é a génese e o ADN do clube. Das invasões de campo na década de 70 à mancha da invasão à Academia em 2018, das tragédias com mortes de adeptos que nunca deviam ter acontecido com a queda do varandim ou o very light no Jamor nos anos 90, uma era em que era quase preciso tirar um curso para perceber a linguagem que parecia interessar mais entre passivos, VMOC, reestruturações e afins. Entre todo esse percurso, e sem que isso tivesse interferência no número de sócios, adeptos e simpatizantes, banalizou-se a ideia de não ganhar o principal título, entre um jejum de 18 anos até 2000 e outro maior de 19 anos até 2021.
O ????Sporting conquista 3 campeonatos em 5 anos.
É o melhor registo dos ????leões desde a década – entre 1946/47 e 1953/54, onde conquistou 7 campeonatos em 8 possíveis. pic.twitter.com/BhSfxP3odR
— Playmaker (@playmaker_PT) May 17, 2025
Numa daquelas histórias que não fazem manchetes, não são capas mas ficam nos bastidores, esse foi um dos pontos que mais confusão fazia a Ruben Amorim quando chegou a Alvalade e no primeiro ano no comando da equipa com uma pandemia pelo meio. Mesmo sendo adepto de um clube rival, algo que sempre assumiu sem problema, não compreendia como é que um clube com tanta história, com tanto potencial e com tanta massa adepta depois de tudo o que viveu poderia não estar sempre a lutar pelo primeiro lugar. Partilhou a ideia com Frederico Varandas, partilhou a ideia com Hugo Viana, partilhou a ideia com os jogadores. Foi deixando uma semente de competitividade há muito arredada. Mudou por completo o paradigma.
Números do ????Sporting campeão nacional:
????33 jogadores utilizados
????Francisco Trincão (+ utilizado: 2953 minutos)
????Viktor Gyökeres (+ golos: 39????)
????Quenda e Trincão (jogaram todas as jornadas)
????Francisco Trincão (+ assistências: 14????) pic.twitter.com/Dzge0jHk66— Playmaker (@playmaker_PT) May 17, 2025
O ????Sporting termina a ????????Liga Betclic 2024/25 como:
????mais pontos (82)
????mais vitórias (25, =SLB)
????menos derrotas (2)
????melhor ataque (88)
????melhor defesa (27) pic.twitter.com/pWgQTo6AVu— Playmaker (@playmaker_PT) May 17, 2025
Agora, mesmo com o técnico em Manchester a preparar a final da Liga Europa pelo United depois de mais uma derrota com o Chelsea, poderia ver a consagração máxima desse trabalho com a conquista do terceiro título em cinco anos – e do tal bicampeonato que lançou há mais de um ano, na festa no Marquês que serviu para espantar fantasmas de uma saída no verão. Quando saiu, a experiência com João Pereira não podia ter corrido pior (perdeu oito pontos em 12 possíveis) e Rui Borges já entrou com um ponto de atraso em relação ao Benfica, voltando para a liderança no dérbi da estreia. A partir daí, chegou a ter seis pontos de avanço mais por demérito do Benfica do que por se aproximar daquele TGV que era a equipa de Amorim, perdeu a diferença com muito demérito à mistura com três empates seguidos, chegou a estar atrás depois do deslize com o Sp. Braga, aproveitou um empate dos encarnados com o Arouca para voltar para a frente em igualdade, “sobreviveu” ao dérbi da Luz. O Sporting dependeu sempre de si e assim continuava.
????Há 57 anos que um ????Campeão Nacional não tinha três treinadores numa só temporada:
????2024/25 ????????Ruben Amorim, ????????João Pereira e ????????Rui Borges (Sporting)
????1967/68 ????????Fernando Riera, ????????Otto Glória e ????????Fernando Cabrita (Benfica) pic.twitter.com/zGgrhvhjAl— Playmaker (@playmaker_PT) May 17, 2025
Assim continuava, assim continuou. Durante 90 minutos, os leões estiveram sempre na frente da luta pelo título, terminando mesmo com mais dois pontos do que o Benfica depois do empate das águias em Braga. Não foi uma exibição de encher o olho como se pensava, também convém acrescentar que o V, Guimarães não faz um remate com perigo ou desperdiça uma oportunidade, mas serviu para resumir toda uma época: um jogo seguro, com momentos em que a ansiedade tomava conta dos pés e da cabeça, com alturas em que a equipa recuava linhas sabendo que não sofrendo estava sempre mais perto de ganhar, com episódios de inspiração que resolvem jogos. Pedro Gonçalves, que nesta fase é como o Sporting e basta apenas estar mesmo não sendo o que era (e voltará a ser), inaugurou o marcador, o inevitável Gyökeres fechou as contas e a oito minutos do final ouviu-se pela primeira vez o cântico do “Bicampeão”. A festa estava lançada.
⭐️ MVP GOALPOINT | Sporting 2 – 0 Vitória SC
◉ Pedro Gonçalves regressou aos golos e em boa hora, mas também às grandes exibições#SCPVSC #LigaPortugal#RatersGonnaRate pic.twitter.com/bN3v4ZeWSw
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⭐️ OUTROS DESTAQUES | Sporting 2 – 0 Vitória SC
◉ Mais um jogo brutal de Gyökeres, com um golo e futebol que colocou a cabeça em água aos minhotos#SCPVSC #LigaPortugal#RatersGonnaRate pic.twitter.com/8gyt7MmE1J
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Ficha de jogo
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Sporting-V. Guimarães, 2-0
34.ª jornada da Primeira Liga
Estádio José Alvalade, em Lisboa
Árbitro: Fábio Veríssimo (AF Leiria)
Sporting: Rui Silva; Eduardo Quaresma, Diomande (St. Juste, 25′), Gonçalo Inácio; Geny Catamo (Fresneda, 87′), Debast, Morita (Geovany Quenda, 76′), Maxi Araújo; Francisco Trincão (Harder, 87′), Pedro Gonçalves (Matheus Reis, 87′) e Viktor Gyökeres
Suplentes não utilizados: Franco Israel, Francisco Silva; Biel Teixeira e Eduardo Felicíssimo
Treinador: Rui Borges
V. Guimarães: Bruno Varela; Miguel Maga (Bruno Gaspar, 84′), Borevkovic, Villanueva, João Miguel Mendes; Tiago Silva, Beni; Telmo Arcanjo (Marco Cruz, 84′), João Mendes (Vando Félix, 67′), Gustavo Silva (Nuno Santos, 46′) e Nelson Oliveira (Jesús Ramírez, 73′)
Suplentes não utilizados: Charles Silva, Hevertton Santos, Diogo Sousa e Ricardo Ribeiro
Treinador: Luís Freire
Golos: Pedro Gonçalves (55′) e Gyökeres (82′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Borevkovic (8′), Debast (10′), João Mendes (19′), Nelson Oliveira (45+2′), Geny Catamo (57′), Telmo Arcanjo (71′) e Viktor Gyökeres (82′)
O encontro começou com as características esperadas, com um Sporting subido em campo e a tentar chegar rápido à vantagem para serenar ânimos frente a um V. Guimarães que queria sobretudo estancar a previsível cadência ofensiva verde e branca. Não se jogou muito. Borevkovic ficou lesionado num lance que também teve o condão de deixar Gyökeres no chão com queixas, as reposições também não privavam pela velocidade, Debast quis furar o rumo dos acontecimentos com um pontapé de longe que saiu muito por cima, Gonçalo Inácio marcou mas o golo foi anulado: na sequência de um canto batido por Trincão na direita, o desvio do central surgiu depois de uma falta de Debast sobre Bruno Varela na pequena área e só mesmo pelos jogadores se percebeu o porquê de não haver festa porque o barulho ensurdecedor não dava para mais (8′).
[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Sporting-V. Guimarães em vídeo]
⏱️ 15’ | Sporting 0 – 0 Vitória SC
◉ Em Alvalade o Sporting vai dominando, mas só há 2 remates e perigo nem vê-lo#SCPVSC #LigaPortugal pic.twitter.com/0qVXUM9XEb
— GoalPoint (@_Goalpoint) May 17, 2025
Os momentos de paragem continuavam, desta feita depois de um choque a três entre Beni, Nelson Oliveira e Diomande que deixou o médio dos minhotos em mau estado, e os jogadores do Sporting aproveitavam para falar entre eles e ir ao banco perceber o que podiam fazer para sair da teia vitoriana. Sem bola, o Sporting foi sempre mostrando que não queria facilitar mas faltavam 20 metros à equipa para ficar mais perto da baliza de Bruno Varela e chegarem à vantagem que mudaria o cariz da partida. A maior explosão acabou por vir a 350 quilómetros de distância, quando Alvalade festejou a grande penalidade transformada por Zalazar que adiantou o Sp. Braga frente ao Benfica que coincidiu com um canto ganho por Maxi Araújo que reacendeu o vulcão verde e branco, em suspenso com a saída por lesão de Diomande após tentar seguir no jogo (25′).
O resultado do rival era apesar de tudo um conforto dentro de uma exibição que demorava a sair. O meio-campo não carburava, as variações eram lentas, o jogo pelas laterais não fazia diferença (Pedro Gonçalves tenta de tudo mas está a anos luz de chegar a um bom momento…), o encaixe contrário ia tirando Gyökeres de ação mas o maior problema era mesmo a quantidade de passes falhados anormal para o que a equipa costuma produzir. Assim, os dois primeiros remates com perigo dos leões nasceram de recuperações em zona alta, primeiro com Gyökeres a disparar um míssil na área descaído sobre a direita para defesa de Varela (31′) e depois Trincão a tentar a meia distância para as mãos do guarda-redes dos minhotos (34′).
⏱️ 32’ | Sporting 0 – 0 Vitória SC
◉ Só o leão rematou até ao momento (4), mas só um saiu enquadrado#SCPVSC #LigaPortugal pic.twitter.com/BB0n5VIIxZ
— GoalPoint (@_Goalpoint) May 17, 2025
Foi preciso entrar na reta até ao intervalo para se ver mais alguns lances de perigo sem que isso significasse que a qualidade do futebol tinha melhorado muito. O V. Guimarães tentava ter posse mais longas sempre que o Sporting recuava mais as suas linhas mas Rui Silva não passava de um mero espectador, vendo um remate de Nelson Oliveira sair fraco e ao lado naquele que foi o principal esboço dos minhotos do meio-campo para a frente. Em contrapartida, os leões, que faziam passar a ansiedade do campo para as bancadas (e vice-versa), não saíam da espiral de ter mais bola, tentar rodar mas fazer tudo sem velocidade ou de forma precipitada. Os movimentos estavam lá, com Pedro Gonçalves e Trincão a entrarem dentro no espaço entre linhas sem oposição, o resto nem por isso. Maxi Araújo, na sequência de um lance no mínimo caricato, ainda acertou no poste na sequência de um canto (41′) e Gyökeres teve a oportunidade mais flagrante após ser lançado em profundidade por Debast mas Bruno Varela voltou a ganhar o duelo (45+4′) mas o futebol era curto.
⏱️ INTERVALO | Sporting 0 – 0 Vitória SC
◉ Apesar do nulo e da exibição mais anémica, #SCP é virtual campeão ao intervalo
◉ Leão, ainda assim, bem superior e com mais iniciativa#SCPVSC #LigaPortugal pic.twitter.com/V3md1R4xDC— GoalPoint (@_Goalpoint) May 17, 2025
De cima, onde fica a bancada da imprensa, percebia-se tudo o que o Sporting não fazia e tinha de fazer. A parte anímica também teria a sua relevância mas movimentos tão simples como uma combinação entre Maxi Araújo e Pedro Gonçalves para cruzamento que depois foi aliviado, recuperações em zonas altas como a que Gyökeres fez para ganhar um canto que Morita desviou por cima da trave (49′) ou movimentos na diagonal de Trincão a arriscar o remate quando ninguém desmontava (51′) apresentavam diferentes argumentos para os leões procurarem um golo que conseguisse transmitir a tranquilidade que pareceu sempre faltar. Foi isso que aconteceu pouco depois: numa jogada que começou em mais uma arrancada de Eduardo Quaresma a partir de trás, Maxi Araújo assistiu após passe de Debast e Pedro Gonçalves finalizou com classe (55′).
⏱️ 54’ | Sporting 0 – 0 Vitória SC
◉ Em Alvalade vai 10-1 em remates#SCPVSC #LigaPortugal pic.twitter.com/GlcCUSuEk9
— GoalPoint (@_Goalpoint) May 17, 2025
Pote fez aquilo que o Sporting voltou a fazer: às vezes não precisa ser o mesmo, só precisa estar. Quando era preciso, esteve. E foi esse o momento que teve o condão de serenar os ânimos em Alvalade entre muita festa que se começou a fazer, com a formação verde e branca a começar a soltar-se mais nas ações ofensivas com outra dinâmica e a somar oportunidades para fechar o encontro, como aconteceu num remate de pé esquerdo de Geny Catamo que acertou no poste (65′) e uma daquelas bolas que Gyökeres não costuma falhar na área mas que ficou nas mãos de Bruno Varela depois de mais um passe para golo de Pedro Gonçalves (68′). Com o Benfica empatado em Braga graças a Pavlidis e a jogar com um a mais devido à expulsão de João Moutinho, o conjunto leonino continuava a tentar fugir ao ruído fazendo apenas o seu jogo para só depender de si.
????????Pote regressa aos golos 8 meses depois.
Marcou o 6.º da temporada, o último golo tinha sido apontado em Arouca. pic.twitter.com/wNgjXNREJz
— Playmaker (@playmaker_PT) May 17, 2025
⏱️ 71’ | Sporting 1 – 0 Vitória SC
◉ Leão leva 21 acções defensivas no meio-campo contrário, sendo o seu recorde da época 26#SCPVSC #LigaPortugal pic.twitter.com/o9sm27bgRQ
— GoalPoint (@_Goalpoint) May 17, 2025
Essas oportunidades poderiam ter acabado de vez com o jogo mas a vantagem mínima continuava com as características do encontro a mudarem com o passar dos minutos, entre um Sporting que recuava linhas e ia procurando as transições rápidas e um V. Guimarães que assumiu o comando da posse mas nunca chegou sequer com perigo à área de Rui Silva. Gyökeres, naquela postura muito própria de quem começa a ficar cansado de uma incerteza que era artificial, fez o resto: ganhou uma bola na área com classe a Villanueva, rodou também sobre um Bruno Varela que ficou no chão e atirou para o 2-0 que fechava as contas (82′). Foi a primeira vez que se ouviu o cântico “Bicampeão” em Alvalade, com o estádio de pé a começar uma festa que se tornara inevitável. Não foi com a entrada demolidora que se pensava, não foi com a tranquilidade que se antevia mas o título estava mais do que entregue a uma equipa persistente, paciente e (bi)campeã.
????????Viktor Gyökeres marcou o 39.º golo na Liga Betclic 2024/25, o 53.º na temporada.
Marcou o 6.º golo frente ao Vitória SC. pic.twitter.com/DdoMrEW33x
— Playmaker (@playmaker_PT) May 17, 2025
???????? FINAL | Sporting 2 – 0 Vitória SC
◉ O #SPortingCP é bicampeão, ao vencer no fecho da ronda. Parabéns!
◉ 2 golos bastaram, apontados na 2ª parte
◉ Leões dominaram amplamente o jogo
◉ Ratings e Match Report em https://t.co/QZuwKyuNke#SCPVSC #LigaPortugal pic.twitter.com/O2fymkhspT— GoalPoint (@_Goalpoint) May 17, 2025