A certa altura de Valor Sentimental, do norueguês Joachim Trier, autor da chamada Trilogia de Oslo (Reprise, Oslo, 31 de Agosto e A Pior Pessoa do Mundo), há um plano em que o realizador sobrepõe os rostos de duas das personagens principais, Gustav Borg (Stellan Skarsgard), cineasta célebre mas pai ausente e deficiente com as emoções, e Nora (Renate Reinsve), atriz em crise de confiança e filha muito ressentida daquele (chama-lhe “um homem difícil”), que remete para um plano semelhante de Persona, de Ingmar Bergman. A sombra do autor de O Sétimo Selo continua a pairar pesadamente sobre o cinema nórdico, e qualquer que seja o lado de Valor Sentimental para que olhemos, encontramos nele raízes, temas, referências e sinais bergmanianos.
[Veja o “trailer” de “Valor Sentimental”:]
Gustav é um realizador consagrado que abandonou a família e foi para a Suécia após se divorciar da mulher, Sissel, deixando-a com as duas filhas pequenas. Nora, que seguiu a carreira da representação, e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleas), que se casou, tem um filho pequeno e é historiadora, e chegou a entrar num filme do pai antes dele sair de casa, uma moradia centenária que sempre pertenceu à família. Gustav regressa após a morte de Sissel, aparecendo na receção após o funeral, e quer reconciliar-se com as filhas, em especial Nora, já que Agnes sempre foi mais condescendente para com ele. E está mais disponível para o acolher bem — e até mesmo lhe perdoar — do que a irmã.
[Veja uma entrevista com Joachim Trier e o argumentista Eskil Vogt:]
Gustav escreveu um filme (provavelmente será o seu último) autobiográfico, e pretende rodá-lo todo na casa da família, cheia de memórias, objectos e fantasmas pessoais, nomeadamente o suicídio da sua mãe, Karin, que fez parte da resistência durante a ocupação alemã na II Guerra Mundial e foi presa e torturada. Suicídio esse que o afetou profundamente e que nunca mais esqueceu. Oferece o papel principal da fita a Nora, como gesto de reconciliação, dizendo que o escreveu para ela, mas a filha recusa. Magoado, o pai entrega-o então a Rachel Kemp (Elle Fanning), uma vedeta de Hollywood. Que acaba por não se sentir muito confortável com a personagem, ao perceber as enormes e delicadas implicações familiares do filme.
[Veja uma entrevista com Stellan Skarsgard:]
Do tópico da família desagregada às relações difíceis ou frustradas entre pais e filhos (filhas, neste caso) com segredos e traumas à mistura (Joachim Trier já o havia abordado noutro filme seu, Ensurdecedor, de 2015) ao lastro da tradição clássica do cinema e do teatro nórdico e russo, entre Ibsen e Tchekhov , bem como o jogo de relações, afinidades e inadequações entre a vida, o palco e o cinema, praticamente tudo em Valor Sentimental parece derivar de Bergman ou remeter para ele. Só que em tom menor, sem nunca atingir as alturas de gravidade, elaboração e consistência dramática, narrativa, emocional e psicológica deste.
[Veja uma entrevista com Renate Reinsve:]
Valor Sentimental vem ajoujado de prémios (Cannes, Globos de Ouro, Cinema Europeu) e está nomeado para nove Óscares. Tem boas ideias (a melhor é a casa dos Borg, vista como uma personagem muda mas viva, que preserva as recordações, tensões, tragédias, inseguranças e afetos da família, e corporiza o desejo de estabilidade, conforto e reconciliação dos seus membros); foge ao martelar melodramático e privilegia a sugestão e o não-dito; e apresenta um polimento cinematográfico imaculado e interpretações irrepreensíveis, sobretudo de Renate Reinsve (“descoberta” em A Pior Pessoa do Mundo) na insegura Nora, e, surpreendentemente, de Elle Fanning, na “intrusa” Rachel (sobre Stellan Skarsgard nem sequer precisamos de sublinhar o óbvio da sua calma excelência).
[Veja uma sequência do filme:]
Mas neste filme inegavelmente adulto e esmerado, elegante e sensível, e a respirar talento artístico e profissionalismo técnico por todos os poros, tudo é menos profundo, intenso e inédito do que parece. E Joachim Trier, que também escreveu o argumento com o seu habitual parceiro, Eskil Vogt, não consegue evitar nem ser demonstrativo, para melhor levar as águas dramáticas da história ao seu moinho (e a um final “arrumadinho”, talvez de mais), nem uma sensação de pretensiosismo e calculismo, para puxar à relevância cultural. Valor Sentimental é inferior ao filme anterior de Trier, A Pior Pessoa do Mundo, muito mais original, imprevisível e emocionalmente sincero do que este, e ameaça ser um dos títulos mais sobrevalorizados da temporada.