No cinema, o monstro de Frankenstein tem tido sortes diversas no que respeita a companhia feminina. Em A Noiva de Frankenstein, de James Whale (1935), em que é de novo interpretado por Boris Karloff, a sua noiva (Elsa Lanchester, com um penteado de meter medo) repudia-o e acabam ambos destruídos no castelo do cientista louco que a fabricou, o Dr. Pretorius (Ernest Thesiger). Já no gótico-romântico A Prometida, de Franc Roddam (1985), o monstro, aqui chamado Viktor (Clancy Brown), consegue, no final, conquistar a sua amada, Eva (Jennifer Beals), produto do laboratório do tirânico barão Frankenstein (Sting).

Depois da fita de Roddam, a noiva de Frankenstein tem andado esquecida das telas, até que Maggie Gyllenhaal a “reanimou” em A Noiva!, que também escreveu e é a sua segunda realização após A Filha Perdida (2021), uma adaptação do livro de Elena Ferrante. O filme reinventa a personagem, tal como a criatura, colocando-as na Chicago dos anos 30. Mas não contente em voltar a dar vida à companheira de um dos mais lendários monstros do cinema, Gyllenhaal faz também dela a anti-heroína extremista de um filme que se quer mais “transgressor” e de “mensagem” social – submetida à cartilha progressista pela qual Hollywood lê — do que de ficção científica (FC) e terror na linha tradicional do género.

[Veja o “trailer” de “A Noiva!”:]

Maggie Gyllenhaal até convoca Mary Shelley para a história. E se a autora de Frankenstein visse a forma como é representada, caía-lhe a alma aos pés. Em A Noiva!, a escritora (interpretada por Jessie Buckley, que também faz a personagem principal), tem sotaque cockney e pragueja como um sargento de Cavalaria, e surge no início do filme de entre os mortos para possuir uma mulher, Ida, que frequenta o meio criminoso de Chicago. Esta acaba morta por acidente, após ter incorporado o espírito indisciplinador e desbocado de Mary Shelley, e incomodado um poderoso gangster num clube noturno.

Noutra parte da cidade, o monstro de Frankenstein (Christian Slater) veio da Europa consultar a Dra. Euphronius (Annette Bening), uma cientista envolvida em pesquisas de vanguarda, e pedir-lhe que lhe arranje uma mulher. Porque apesar de ser quem é, também tem carências afetivas e desejos sexuais. Após algumas hesitações, a cientista acaba por aceder aos pedidos de Frank (é assim que a criatura quer ser tratada) e vão ambos desenterrar o cadáver de uma mulher, que por coincidência é o de Ida, fazendo-a voltar à vida no laboratório daquela. Mas como está possuída pela destrambelhada e rebelde Mary Shelley, a Noiva começa logo a fazer disparates, arrastando um fascinado Frank consigo, e acabam ambos perseguidos pela polícia e pelos gangsters através dos EUA.

[Veja uma entrevista com a realizadora e os intérpretes:]

Em A Noiva!, Maggie Gyllenhaal acrescenta, à matriz de FC e de fantástico original, elementos do policial de gangsters, bem como do musical (Frank, em vez de fitas de terror, gosta de musicais, em especial os de Ronnie Reed, um cruzamento de Eddie Cantor e Fred Astaire, interpretado pelo irmão da realizadora, Jake Gyllenhaal, e fantasia com eles). E remata com uma mochila feminista, para atacar a opressão e a violência patriarcal.

Ao contrário do rigoroso e arrumadinho A Filha Perdida, A Noiva! é exageradamente grotesco e irremediavelmente bagunçado. E podia ter-se chamado Bonniestein e Clydenstein, tendo em conta a quantidade de tempo gasto a seguir os feitos criminosos de Ida e Frank, dois manipansos que Maggie Gyllenhaal atira aos trancos e barrancos pelo filme fora, sem ser capaz de lhes conferir vibração trágica, romantismo lúgubre ou sequer dimensão gótica. A Noiva! não tem um mínimo de lógica narrativa nem de coerência interna, ou uma ideia cinematográfica digna desse nome. Gyllenhaal mete o prego visual a fundo e o volume no máximo, e diz aos atores que quanto mais histriónico e estridente, melhor. E Buckley e Slater deixam-se ir no frenético torvelinho de um enredo em que vale tudo.

O filme tem ainda um subenredo envolvendo um casal de detetives da polícia que perseguem Ida e Frank, interpretados por Peter Sarsgaard, o marido de Maggie Gyllenhaal, e Penélope Cruz. E que parecem existir apenas para dar um papel ao primeiro e para existir outra figura feminina numa posição de destaque, e a fazer de contraponto da Noiva, no caso da segunda. Embora a personagem de Penélope Cruz seja um anacronismo metido a martelo, já que haver uma mulher detetive a mandar em dezenas de homens na polícia de Chicago na década de 30 é tão plausível como Al Capone ter sido um dedicado humanitário e filantropo.

Mesmo tendo sido rodado em IMAX, A Noiva! acaba por não fazer jus nem ao cinema de FC e terror clássico de onde emana e cuja matéria e personagens glosa e tenta insubordinar e subverter, e dar uma relevância contemporânea, nem às fitas de gangsters e aos musicais cujas atmosferas e situações convoca. É um filme-Frankenstein, e com as costuras todas à mostra.