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Começa depois das 10h da manhã na Rádio Observador e pode participar comentando na transmissão vídeo nas redes sociais do Observador ou enviando uma mensagem de áudio para o 910 024 1185. Carla Jorge de Carvalho, de que vamos falar mais logo no Contracorrente?

Paulo Portas tomou ontem posse como comissário para as comemorações dos 900 anos de Portugal, comemorações que terão um primeiro ponto alto já daqui a dois anos, em 2028, quando se celebrarem os 900 anos da Batalha de São Mamede, a batalha em que Dom Afonso Henriques e os nobres do Minho derrotaram a mãe do nosso primeiro rei e os nobres da Galiza que a apoiavam. Mas será mesmo esta batalha o marco central da formação de Portugal ou será antes o Tratado de Zamora de 1143, o tratado de que ninguém conhece o texto? E que sentido faz, no século XXI, comemorar batalhas e tratados do século XII? É sobre isto que vamos falar no Contracorrente de hoje, com a ajuda de quem muito se tem dedicado a este período e a esta celebração. José Manuel, bom dia. Justifica-se mesmo esta celebração?

Eu acho que sim. Aliás, acho mesmo que sim. Agora, temos até para perceber uma coisa que porventura não tem havido interesse pela história, designadamente no ensino básico, mais importante, e este período é um período da fundação de Portugal que, bem tratado, pode ajudar-nos a perceber melhor, inclusivamente, o que é que somos hoje. E eu digo isto porque uma parte da nossa identidade tem muito a ver com o que se passou neste período e com aquilo que, aqui há umas décadas atrás, um dos grandes historiadores portugueses do século XX, José Mattoso, escrevia em "A Identificação de um País". Portanto, que é o seu grande ensaio sobre as primeiras décadas de Portugal. O que se passou aí, sobre a relação, inclusivamente, do território e das gentes com aquilo que veio a ser o país. O ponto de levantar, de saber exatamente quando é que Portugal começou, é um tema que tem apaixonado os historiadores. Por exemplo, essa data, 1143, Tratado de Zamora. Fala-se do Tratado de Zamora, na verdade, não se conhece o seu texto, o seu significado exato, e há interpretações diferentes. Ele tem muita projeção por causa do-- Hoje é quinta-feira, desculpa lá.

Pois, hoje é o dia da agitação. É o dia em que eles ficam mais animados. Estavas a dizer?

Estava a dizer que o Tratado de Zamora ganha grande projeção por causa das obras de Alexandre Herculano, portanto, no século XIX, mas, por exemplo, na biografia de Dom Afonso Henriques, do José Mattoso, ele nem lhe dedica um parágrafo inteiro e é uma coisa que passa por ali como se não fosse nada de particularmente relevante. É um encontro entre o rei de Portugal, quer dizer, aquele que queria ser o rei de Portugal, e o rei de Espanha, ou o rei de Castela, o imperador desta região, e não sai muito daí. E de facto, isto é um processo. É um processo que começa antes das datas mais conhecidas em Portugal, porque começa com a construção do Condado Portucalense, que é anterior e ainda vem do século X. É um processo onde tem muita influência a Casa de Borgonha, porque são Raimundo e Henrique que vêm para Portugal. Raimundo fica com a Galiza, Henrique fica com o Condado Portucalense e daí nasce um bocadinho esta dinâmica. E as datas que nós referimos habitualmente, repara, por exemplo, há muitos anos, quer dizer, quase 100 anos, há quase 90 anos, houve em Portugal também umas grandes comemorações, foram as chamadas comemorações dos centenários. Eram comemorações para celebrar a fundação, que foi situada em 1140, apesar de não haver em 1140 um evento muito forte, e a restauração, que essa sim, foi em 1240, portanto, eram 800 e 500 anos. E agora nós temos os 900 anos que apontam para várias datas. E aqui também há um aspecto curioso, porque a primeira vez que apareceu esta ideia no governo, a data apontada era os 900 anos da Batalha de São Mamede. A Batalha de São Mamede é a batalha em que Dom Afonso Henriques derrota a mãe e é uma batalha onde a sua aliança com os nobres minhotos, os nobres da zona entre Douro e Minho, portanto, fica consolidada. Aliás, dos relatos da batalha, há o relato mais apologético do futuro rei e há os relatos de outras crônicas que dizem que no primeiro embate, Dom Afonso Henriques até foi derrotado e foi quando já estava a sair do campo de batalha que encontra um nobre, que enfim, não se sabe qual deles é que era, se era Egas Moniz, se era Simão Tavares, e regressa ao campo de batalha e vence a batalha. Pronto, mas isso é muito relevante até para a importância que os nobres têm na fase inicial da monarquia portuguesa. Portanto, nós temos esse momento importante, que é um momento de rutura com a mãe. E depois temos outro momento que simbolicamente também tem muita relevância, que é a Batalha de Ourique, em que são derrotados os reis mouros e há aquela lenda de Cristo ter aparecido a Dom Afonso Henriques antes da batalha. É a partir desse momento que se começa a falar de Rex, portanto, terá sido assim tratado pelos seus cavaleiros antes da batalha. Depois há, de facto, o momento de Zamora Aliás, antes disso ainda há outro momento também significativo, que falamos dele aqui há uns tempos no programa, que é quando, também em Zamora, um na altura muito jovem, com 14 anos, D. Afonso Henriques é armado cavaleiro, que é em 1125. E depois temos aquilo que no fundo é a consagração da independência, o reconhecimento da independência, que já é bastante depois, que é em 1179. Curiosamente, não estão aqui pelo meio dois eventos que são fundamentais também, e vamos ver até que ponto é que podem ou não vir a ser comemorados, que é a tomada de Lisboa. A tomada de Lisboa ocorre no quadro da Segunda Cruzada e alguns historiadores, nomeadamente historiadores britânicos, recordam que essa Segunda Cruzada tinha, entre outros objetivos, a conquista de Damasco, que é um fracasso, mas deixou como lastro, como marca, a conquista de Lisboa, e essa foi irreversível, ao contrário das conquistas na Terra Santa. E falta também um outro momento, que é o momento que, por exemplo, o José Mattos considera essencial para aquilo que viria a ser a possibilidade de existência de Portugal, porque não estava de forma nenhuma determinado que ia existir Portugal, que é a mudança do rei para Coimbra, porque D. Afonso Henriques estava inicialmente em Guimarães e ao mudar-se para Coimbra, para a zona de fronteira, as suas alianças com outro tipo de cavaleiros, que são os cavaleiros vilões, depois os reis sobre Santarém e a seguir sobre Lisboa, são determinantes para este voltar para o sul, para esta expansão para sul, que depois vão marcar aquilo que viria a ser Portugal. Eu acho que isto é muito interessante discutir tudo, porque nós às vezes temos a ideia que nós nascemos de um dia para o outro por uma espécie de estalar dos dedos do nosso primeiro rei. E foi um processo de uma forma mais complexo, que implica alianças com a nobreza, que implica também algo que tem importância, quer em Coimbra, quer depois em Alcobaça, que é a implantação dos monges de Cluny, portanto, Santa Cruz e Mosteiro de Alcobaça. Tudo isso é muito relevante. Vamos falar um pouco disso tudo. Hoje publicamos precisamente um texto que está publicado no Observador, um texto naquela série sobre os 900 anos que estamos a fazer em colaboração, ou melhor, está a fazer, sobretudo a Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

Estava à procura também do nome certo.

Encalhar no nome. E sobre os 900 anos, que fala precisamente deste momento da afirmação política, como é que isto é politicamente no princípio, porque é sobretudo de política que se trata quando há separação entre casas reais ou linhagens que depois vão dar casas reais, que é o que vai acontecer. E também o significado da tomada de Porto de Portas e daquilo que é um programa governamental que começou por ser menos ambicioso, sobretudo a Batalha de São Mamede, e que agora se alarga um pouco à ideia dos 900 anos, que vai pelo menos até Zamora, e veremos que Zamora é 43, portanto, é daqui por 17 anos, mas na ambição da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, vai até 79, que é a bula papal que consagra a independência de Portugal, reconhece o estatuto real da casa de D. Afonso Henriques.

Portanto, vamos viajar no tempo, mas vai ser importante até para perceber o século XXI. Até já, José Manuel.

Até já.