Entendia-se a ele próprio como um artista e também como um colecionador. Não foi por acaso que associou à sua arte todas as linguagens que conseguiu e foi pintor, escultor, fotógrafo, cineasta, fez desenho e gravura, misturando e juntando técnicas, linguagens, disciplinas e saberes. Julião Sarmento (1948-2021) atingiu o patamar mais alto da arte portuguesa, sendo um dos nomes mais importantes da contemporaneidade e da sua geração. Multiplicou-se também em relacionamentos e cruzou amizades. A Câmara Municipal de Lisboa, através da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural – Lisboa Cultura, EGEAC, celebra agora esse espírito e leva a bom porto um desejo do artista, ao inaugurar a 4 de junho um espaço onde se expõe ao público a coleção de arte que Julião juntou em vida. É na Avenida da Índia, num antigo armazém de alimentos totalmente renovado por João Luís Carrilho da Graça, o arquiteto e amigo que Sarmento escolheu para desenhar o espaço que haveria de albergar o seu acervo.
O projeto começou a tomar forma pouco depois de 2015, quando a coleção de arte de Julião Sarmento foi pela primeira vez exposta e mostrada ao público. A exposição, Afinidades Electivas, esteve patente no então Museu da Eletricidade, hoje MAAT, e na Fundação Carmona e Costa, em Lisboa, e teve curadoria de Delfim Sardo, outro grande amigo de Julião. À época, a diversidade do acervo chamou a atenção do meio artístico e cultural nacional e despertou o interesse da autarquia em poder mostrar futuramente a coleção num espaço criado para o efeito. A ideia foi bem recebida por Julião Sarmento que começou a idealizar um projeto que garantisse essa fruição ao público.
▲ Para já, no entanto, as portas do Pavilhão Julião Sarmento abrem-se com duas grandes propostas temáticas a aglutinar peças e artistas: Arte e Vida e Espaço e Arquitetura
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
Foi ele quem escolheu o arquiteto e até o espaço, então apelidado de Pavilhão Azul. Julião Sarmento foi ainda mais longe, ao escolher também o diretor artístico do museu que guardaria a sua coleção. Optou pelo curador Sérgio Mah, atual diretor-adjunto do MAAT, que acabou por abandonar o projeto quase sete anos depois de ter sido convidado para assumir a direção pelo próprio Julião Sarmento, num momento em que o desfecho do mesmo deixou de ter data marcada. Burocracia, obras prolongadas no tempo, pandemia e atrasos vários foram adiando a abertura do espaço, que chegou a ter inauguração marcada para novembro de 2024, mas que só agora abre as portas definitivamente.
Um último concurso, realizado o ano passado, ditou que o agora renomeado Pavilhão Julião Sarmento fosse dirigido por uma mulher. Isabel Carlos, curadora com percurso longo — foi diretora artística da Bienal de Sydney, na Austrália, diretora do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, tendo ainda passado pelo conselho de administração da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, por exemplo — foi a escolhida por um júri composto por Delfim Sardo, curador, ex-administrador do CCB e ainda membro da Associação Coleção Julião Sarmento, por Sara Antónia Matos, diretora das Galerias Municipais e do Atelier-Museu Júlio Pomar, e por Pedro Moreira, presidente da EGEAC.
É ela, Isabel Carlos, quem recebe o Observador durante a montagem da exposição Take 1, a mostra inaugural do espaço, com seleção de peças e apresentação suas. “Este espaço vai ter obras de arte por todo o lado, para o definir é preciso pensar que está entre o museu e a casa. Se aqui ao lado o CCB é uma fortaleza, nós somos um pavilhão, somos mais casa e menos castelo”, diz-nos à entrada do Pavilhão Julião Sarmento.
Um espaço expositivo de cerca de 500 m2, numa área total de 1100 m2, com direito a reservas na cave, um lounge e uma copa no mezanino, onde os visitantes podem beber café e água aromatizada, descansando nos bancos tripeça e nas mesas corridas desenhadas por Gonçalo Prudêncio, escritórios e sala de reuniões no Piso 2, e três galerias, a maior no Piso 0, a mais pequena e mais alternativa em termos programáticos no Piso -1, espécie de black box de risco, ideal para cinema, vídeo e performance, e uma outra galeria com 150 m2 no Piso 2. “Este vai ser um museu que nunca fecha. E mesmo nos momentos em que estaremos a montar novas exposições, a montagem pode ser seguida pelos visitantes a partir do piso intermédio”, conta Isabel Carlos, que promete “ativar” a coleção de 1500 peças de Julião Sarmento.
“Num primeiro momento”, confessa a diretora, “vai ser preciso levar muito a sério a comunicação para que o público perceba que o que vai ver aqui não são obras de arte de Julião Sarmento, mas sim as peças que ele colecionou e que juntou à sua volta.” A tónica dominante do discurso estará na “confluência de linguagens e na sua diversidade”, nem mais nem menos do que o espelho da coleção e das opções artísticas do próprio artista, que começou a fazer-se rodear das peças que aqui estão expostas nos finais dos anos 70 do século XX.
▲ O Pavilhão Julião Sarmento tem um espaço expositivo de cerca de 500 m2, numa área total de 1100 m2
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
“Este primeiro ano de programação estará assente na necessidade de ativar a coleção e dar a conhecer os artistas da coleção mesmo que para além dela. E, nesse sentido, vamos destacar iniciativas pontuais com vários artistas a começar pelo João Onofre, por exemplo, ou pela Filipa César. Depois, a partir do segundo e terceiro anos, vamos abrir para o mundo. A ideia é, dentro da natureza das Galerias Municipais, reforçar a componente internacional deste espaço e do seu acervo, que é muito importante. Isso será feito atendendo à geografia muito particular do Julião Sarmento e que passa nomeadamente pelos EUA — ele dizia mesmo, ‘noutra encarnação devo ter sido americano’ — e por África, a sua primeira mulher era sul-africana, mas também pela Europa, de onde não podemos sair.”
No primeiro ano do novo museu da EGEAC, “pelo menos uma vez por mês, algo tem que acontecer aqui para trazer cá gente. É a maneira de colocar no mapa da cidade esta nova morada da arte contemporânea. E, além disso, é uma forma de dizer que precisamos de estar uns com os outros. Sou uma defensora do encontro físico. Depois do que vivemos com a pandemia, com a progressiva digitalização das relações entre as pessoas, que não cria uma sociabilidade condutora dos melhores valores humanos, é bom que haja espaços públicos que se constituam como lugares de encontro.”
Já em julho, os artistas da coleção começarão também a ser chamados à galeria para dar início às Conversas na Galeria, um simples encontro com a peça que criaram e que será extensivo ao público que quiser aparecer. “Este será um sítio onde não só se vê obras de arte, mas também um sítio onde as pessoas encontram os artistas e têm possibilidade de os ouvir, de estar com eles. É preciso criar proximidade”, diz Isabel Carlos.
Para já, no entanto, as portas do Pavilhão Julião Sarmento abrem-se com duas grandes propostas temáticas a aglutinar peças e artistas: Arte e Vida e Espaço e Arquitetura. De um lado amizade, amor, partilha e celebração entre artistas; do outro o fascínio de Sarmento pelo habitar, pela construção do desenho arquitetónico e pela materialidade. Num momento, as trocas afetivas de obras de arte entre amigos e galeristas, num outro tempo, o diálogo estrutural e estruturante entre formas e conceitos. Em ambos os casos, o apelo aos afetos artísticos feito através das relações que Julião Sarmento foi mantendo e fazendo surgir nomes como Fernando Calhau, Eduardo Batarda, Albano da Silva Pereira, Ana Popesco, Robert Frank, Joseph Beuys, Rosângela Rennó, Didier Fiúza Faustino, Félix Gonzalez Torres, John Baldessari, Allan McCollum, Glen Rubsamen, Jenny Holzer, Juan Muñoz, Cristina Iglesias, Rui Sanches, Rita McBride, Richard Long, Michael Biberstein, Catherine Opie, Robert Morris, Lawrence Weiner, José Manuel Costa Alves, Douglas Gordon.
▲ Um último concurso, realizado o ano passado, ditou que o agora renomeado Pavilhão Julião Sarmento fosse dirigido por uma mulher. Isabel Carlos foi a escolhida
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
Paralelamente, a programação vai estender-se a outro tipo de atividades. Isabel Carlos apresenta o Ciclo Próximo, uma série de encontros e conversas que vão contar com a presença de pessoas que conviveram de perto com o artista Julião Sarmento. “Vamos começar com o arquiteto João Luís Carrilho da Graça e com Pedro Falcão, o designer gráfico responsável pela identidade gráfica do espaço. Seguir-se-á uma outra conversa entre o crítico de arte e curador Alexandre Melo, que contará como era o Julião espectador, como é que ele via a arte, e a jornalista Clara Ferreira Alves, que falará da relação do Julião com a literatura.”
“É uma coleção de um artista feita com outros artistas, um museu de pequena escala, mas diferenciador e que quer criar comunidade. Esta coleção decorre muito da relação do artista com outros artistas, mas que agora quer abrir-se à comunidade”, frisa a diretora deste novo espaço municipal.
Isabel Carlos conta com uma equipa de mais quatro colaboradores, uma assistente de direção, uma assistente de comunicação, uma produtora e um técnico de restauro, conservação e montagem. A caminho estará um investigador. Com orçamento anual de funcionamento a cargo da EGEAC, o novo espaço tem assegurados 250 mil euros para programação. Um protocolo de cedência das obras por cinco anos renováveis, assinado entre a Associação Coleção Julião Sarmento e a Câmara Municipal de Lisboa, sustenta o Pavilhão.
A autarquia lisboeta revela agora que a reabilitação do Pavilhão equivale a um investimento de seis milhões de euros. A visita ao Pavilhão Julião Sarmento vai custar quatro euros. Uma verba acessível para levar à casa o maior número de visitantes possível para um primeiro contacto com a arte ou um contacto assíduo com as várias disciplinas artísticas que Julião colecionou.
Esta é uma história que terá começado cedo na vida do artista que morreu em 2021. “Foi muito cedo que Julião começou a colecionar. Ele foi fazendo a coleção ao ritmo da vida. De resto, o Julião Sarmento sempre se entendeu como um recoletor, era um colecionador de tudo, de referências, de livros, de amigos, de obras de arte”, conta ao Observador Delfim Sardo. O acervo que agora se torna público é constituído por uma parte significativa de trocas de peças de arte com outros artistas, uma prática relativamente comum entre artistas, mas “nada comum a esta escala”, diz o curador e amigo, referindo-se à dimensão da coleção. “Ele era muito ligado aos artistas com quem se cruzava e tinha interesses pessoais muito diversificados, tantas vezes não esteticamente próximos dele”, continua Delfim Sardo. “Era aquilo a que chamo, e chamei quando organizei a primeira exposição do seu acervo, afinidades eletivas. O Julião era amigo de alguns dos mais importantes artistas internacionais do seu tempo e muitas das peças que com eles trocou foram escolhidas com critério ou obedeceram a um gesto documental, ou foram ainda adquiridas em circunstâncias variadas.”
▲ O projeto começou a tomar forma pouco depois de 2015, quando a coleção de arte de Julião Sarmento foi pela primeira vez exposta e mostrada ao público
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
E se, de início, Julião Sarmento podia não ter tido a noção exata da coleção que estava a criar, logo a partir dos anos 70, “já sabia qual era o fim da reunião destas peças”. “De resto, esse reconhecimento era consubstanciado através de um carimbo que ele usava com o seu nome, Julião Sarmento Colecionador, e com o qual carimbava cada peça”, explica Delfim Sardo. “À medida que o tempo foi passando, o acervo foi ganhando volume, tomando de assalto a casa onde vivia no Estoril, e passou a ter que armazenar peças, ocupar o ateliê que tinha em Sintra. Há peças de dimensão museológica que não cabem em qualquer lado. Mas foi, de facto, ao ver a coleção exposta na Central Tejo, da Fundação EDP, em 2015, que o Julião percebeu que o acervo teria que se tornar público. E foi na mesma altura que a Câmara Municipal de Lisboa manifestou o seu interesse. Foi um processo longo que agora chega a bom porto”, recorda este cossignatário da Associação Coleção Julião Sarmento.
Delfim Sardo destaca o lado afetivo, mais uma vez, que sobressai e perpassa o acervo. “Quando as peças são colocadas lado a lado, quando as juntamos, percebe-se que assentam em relações de proximidade. Ele sabia o que estava a fazer.” O curador recorda o nome da coleção: SILD (Sarmento, Isabel, Laura e Duarte, os nomes dele, da mulher e dos filhos). “De resto, a família guarda o desígnio claro de tornar pública a coleção”, esclarece Delfim Sardo. “Este acervo é, de algum modo, uma extensão do trabalho dele. É uma grande peça do Julião Sarmento. De realçar que o Julião foi acompanhando gerações de artistas como ninguém. E foi um ‘game changer’, era capaz de mudar as regras do jogo. Tinha um conhecimento muito grande e uma enorme capacidade de apostar no que não estava solidificado ainda.” Tudo isto se respira neste novo espaço capaz de emprestar a Lisboa muito mais contemporaneidade, mais cosmopolitismo, mais luz.