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Entrevista a Elson Angelico, de dupla nacionalidade angolana e portuguesa, é membro fundador e parceiro da MEXTO Holding e NOT A MUSEUM. Filantropo que procura promover um programa de arte contemporânea conectando o caráter perturbador e inovador da arte de diferentes países e culturas. 30 de Agosto de 2022, Lisboa TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
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Elson Angélico diz querer mostrar que a arte e a cultura são o caminho para acabar com o racismo e que o continente africano tem muitas palavras a dizer sobre essa matéria

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Elson Angélico diz querer mostrar que a arte e a cultura são o caminho para acabar com o racismo e que o continente africano tem muitas palavras a dizer sobre essa matéria

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Elson Angélico: "Os manuais escolares não fazem menção alguma à arte contemporânea africana"

Criou um novo espaço para a arte e para a cultura em Lisboa, numa aposta num futuro melhor, mais inclusivo. Elson Angélico fala pela primeira vez sobre os seus projetos em solo português.

Resolveu apostar em Lisboa há cinco anos. Sangue português e angolano a viver em Paris desde os dez anos, nunca esqueceu História e origens, às quais uniu os valores da Revolução Francesa: liberdade, fraternidade, igualdade. Empresário no mundo do imobiliário, empreendedor, filantropo, Elson Angélico está de pedra e cal na capital do país para fazer saber que a arte e a cultura são o caminho para acabar com o racismo e que o continente africano tem muitas palavras a dizer sobre essa matéria. Em 2019, fundou Not A Museum, na Rua Castilho, e as portas abertas daquele espaço de intervenção artística já receberam um sem número de autores. Aos 43 anos, faz tudo por gosto, ama, sonha e acredita. História de um homem lúcido a pensar no futuro.

“Quando cheguei a Lisboa senti falta de um espaço de expressão aberto a todos. Um espaço para a diversidade e para a igualdade. Percebi que não existia nada que fosse dedicado a isso a 100%. Não havia um local para a representação da arte contemporânea africana. O que havia era uma noção antiquada da arte africana ancestral, primitiva, a escultura em madeira e pouco mais. Quis ser eu a abrir esse espaço”, conta ao Observador. “Não foi fácil”, avisa. O mundo da arte português viu-o como um outsider e não o deixou entrar logo à primeira. A elite cultural não gostou de ser abalada. Com o tempo, o espaço de união que tinha idealizado tornou-se uma realidade. Not A Museum recebe artistas, galerias, agentes culturais e é agora um marco para todos os afrodescendentes com um fraquinho por arte. “É preciso darmos novas referências à juventude, os manuais escolares não fazem menção alguma à arte contemporânea africana. Os jovens precisam saber que existiu um Picasso, mas que esse Picasso se inspirou na arte africana para pintar, precisam saber que as pirâmides egípcias foram construídas por escravos negros e precisam ter referências da realidade artística do continente hoje.”

Not A Museum, no entanto, não é só um espaço dedicado à arte africana, é também local de encontro de todas as artes. Ali também convivem artistas europeus, brasileiros e da América Latina. “O medo que tenho é que a ignorância, a falta de educação levem a um extremo entre culturas. Isso é que faz o ódio e o racismo. A pluralidade é o futuro. Não podemos recuar”, continua Elson. A sua estratégia passa também por mobilizar toda a sociedade, a começar pela classe política decisora. Por isso, passou a convidar diplomatas e políticos para aquele espaço e para a sua própria casa, num esforço de junção entre a arte, a cultura e a diplomacia: “É a melhor forma de mudar as mentes”.

Entrevista a Elson Angelico, de dupla nacionalidade angolana e portuguesa, é membro fundador e parceiro da MEXTO Holding e NOT A MUSEUM. Filantropo que procura promover um programa de arte contemporânea conectando o caráter perturbador e inovador da arte de diferentes países e culturas. 30 de Agosto de 2022, Lisboa TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“Os artistas tem que ter uma certa sensibilidade, uma paixão, algo para dizer, uma história para contar”

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Foi mais longe. O último passo, e aquele que mais sucesso lhe trouxe, foi ter-se associado à ARCO – Feira de Arte de Lisboa através da MEXTO, a sua empresa líder de mercado no sector imobiliário, e garantido o intercâmbio entre a Feira e o Not A Museum, ao mesmo tempo que, conseguiu alguns compromissos com a sua causa, convidando o ex-ministro da Cultura francês, Jack Lang, atualmente à frente do Instituto do Mundo Árabe, a vir a Lisboa nessa ocasião e colocando-o ao lado do recém empossado ministro da Cultura português, Pedro Adão e Silva. As relações com a Câmara Municipal de Lisboa de Carlos Moedas também vão de vento em popa. Assim, aproveitando todas as boleias, Elson tem conseguido mais visibilidade para o seu projeto e, simultaneamente, mais destaque para a sua luta, o multiculturalismo.

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Uma relação “profunda” com os artistas

No Not A Museum, que será em breve transferido da Rua Castilho para outro espaço em Lisboa, a arte tem crescido também em forma de Video-art, NFT, performance, música. Ali chegam cada vez mais artistas e curadores de todas as nacionalidades. “Os artistas tem que ter uma certa sensibilidade, uma paixão, algo para dizer, uma história para contar.” No mesmo espaço, várias galerias africanas expuseram as suas propostas antes de perceber que Lisboa tinha potencial para se sediarem por conta própria. “Dou-lhes oportunidade, vendem ali também, mas nunca pedi um cêntimo ou percentagem a nenhum artista ou galeria. Apresento-os a colecionadores… É um trabalho de networking.”

E um trabalho que se vai estender também aos Estados Unidos da América. A plataforma WAAU é o novo veículo que Elson criou para juntar África, Europa e EUA. A ideia é que os artistas dos três continentes passem a ter oportunidade de exporem fora do seu circuito natural. Haverá ligações a nível de várias fundações e museus, institutos culturais, por forma a criar um intercâmbio real entre comunidades culturais diferentes não só a nível das exposições, mas também das residências. Para começar, a plataforma WAAU vai reunir informação sobre todos os artistas afrodescendentes e sobre todos os curadores que trabalham com esses artistas. Será um banco de dados disponível a todas as instituições envolvidas que permitirá dar a conhecer novos artistas aos colecionadores. O budget para esta operação, garante o empresário, não é problema. “Precisamos de ter pessoas como nós, com uma relação profunda com os artistas.”

“Para um país que teve tantas colónias, é incompreensível que tenha tão pouca representatividade africana na televisão, por exemplo, os portugueses afrodescendentes têm que poder identificar-se, terem referências. E a política portuguesa também. Não podemos ir contra a realidade do momento.”

Esta vontade de aprofundar laços acompanhou-o desde sempre. Tinha 20 anos quando organizou a primeira exposição em Paris entre artistas da América Latina e de outros continentes, ligando-os a Portugal através da parceria com uma adega nacional para servir vinhos e produtos tradicionais. “Sinto-me na obrigação de perpetuar laços históricos que assumo sendo de descendência portuguesa e angolana. E sinto-me na obrigação de dar seguimento às posições políticas sempre assumidas pela minha família, sobretudo no que respeita à liberdade.” Nessa posição sempre politizada e na sua visão sociocultural do mundo, não tem ilusões. “Os nossos direitos não são nem estão garantidos. Veja-se o que aconteceu agora nos EUA em relação ao aborto e à sua liberalização. Por favor, não se deixem iludir pelos discursos fascistas e de ódio de alguns partidos que só têm como objetivo aproveitarem-se do contexto atual.”

Acredita profundamente em Portugal, país para o qual tenciona mudar-se no próximo ano. “Portugal foi a primeira potência mundial. Numa amnésia coletiva, os portugueses esquecem-se de onde vêm. É um país incrível, um povo incrível, com produtos de incontestável qualidade. É um grande país com uma forte diplomacia. Lido com muitos ativistas, mas não gosto do discurso de que o racismo vem dos brancos. O racismo existe há séculos, temos que parar de nos vitimizar e avançar”, diz Elson. No entanto, adverte: “Para um país que teve tantas colónias, é incompreensível que tenha tão pouca representatividade africana na televisão, por exemplo, os portugueses afrodescendentes têm que poder identificar-se, terem referências. E a política portuguesa também. Não podemos ir contra a realidade do momento.”

A 31 de agosto, por ocasião do Dia do Afrodescendente, que pela primeira vez se comemorava em Portugal, Elson Angélico juntou-se a um grupo de estudantes universitárias para saber quais eram os seus problemas e como a inclusão acontecia ou não. A resposta deixou-o chocado e a nós também. “As dificuldades são muitas. Começam logo quando temos que fazer trabalhos de grupo, ficamos sempre de fora, ninguém nos quer ao seu lado.” As crianças, diz, passam por crises de identidade muito complicadas. Aos cinco anos, choram porque querem ser brancas. “A tua cor de pele não é um problema.” Embora, a falta de referências onde se agarrarem já é.

Entrevista a Elson Angelico, de dupla nacionalidade angolana e portuguesa, é membro fundador e parceiro da MEXTO Holding e NOT A MUSEUM. Filantropo que procura promover um programa de arte contemporânea conectando o caráter perturbador e inovador da arte de diferentes países e culturas. 30 de Agosto de 2022, Lisboa TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

"A arte, a cultura, a educação, mostram o caminho do respeito do indivíduo por si próprio, pelos outros e pela aceitação da diferença"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“Acredito profundamente que dar acesso à arte e à cultura equivale a fazer uma prevenção contra o racismo, desigualdades, injustiças, violências, conflitos… A arte, a cultura, a educação, mostram o caminho do respeito do indivíduo por si próprio, pelos outros e pela aceitação da diferença, aproximando assim pessoas e culturas. O conhecimento e a educação são as bases e as chaves para ultrapassar as dificuldades da nossa sociedade contemporânea. Acho que este é uns dos caminhos para um evolução social com mais igualdade, e com mais partilha de poder.” Defender as injustiças e as desigualdades faz parte do seu ADN, do Not a Museum e da maioria dos seus projetos.

A arte africana contemporânea, agora

Elson Angélico chegou a Portugal há pouco mais de cinco anos com o intuito de investir no país e de trazer com ele outros investidores internacionais. Fundou a MEXTO Property Investement em 2017 que nos últimos dois anos se tornou um caso sério de qualidade, tendo vencido já prémios na área da reabilitação e melhor projeto de habitação. Os pés na terra, que o caracterizam, com o saber criado a partir do diálogo com as realidades a partir da sua própria experiência em países europeus, asiáticos e africanos, fazem com que conheça bem a verdade e lhe crie alternativas.

“Portugal precisa de criar mais habitação social, sem insistir no exemplo falhado da criação de guetos, para permitir que todos possam ter acesso a uma habitação digna. Também a classe média necessita de um maior acesso à habitação. Nós, os empresários do setor, estamos prontos a ajudar neste sentido, mas não podemos atuar sem o apoio dos governantes. Se pudéssemos ter a oportunidade de comprar terrenos a preços razoáveis que nos permitissem construir mais casas a um preço acessível para todos, poderíamos contribuir para resolver este problema da habitação. Mas ele estende-se também a um problema maior que é a burocracia centenária. O tempo de espera para obtenção de licenças é dramático. Isto é um problema grave e temos muita dificuldade em explicar estes timings a investidores estrangeiros! O enorme tempo de espera para obtenção de licenças significa perda de dinheiro para os investidores e para a economia nacional. No meu caso, batalho muito de modo a trazer investidores para Portugal, no entanto, quando consigo atingir esse objetivo, sinto que são mal recebidos, mal tratados, que a burocracia das instituições e das câmaras atrasa os processos dos projetos e dos investimentos. Julgo que as câmaras devem criar uma espécie de via rápida para os investidores, porque caso contrário eles simplesmente deixam de vir para Portugal, começam a dirigir-se para outros países uma vez que o tempo despendido representa também uma perda de capital. Não é possível existirem projetos bloqueados anos e anos por problemas de ordem burocrática e por falta de organização das instituições.”

“Daqui a dez anos, vai haver crianças a dizer que existe uma arte africana contemporânea, tal como existe hoje a arte contemporânea ocidental”, garante.

A classe política, considera Elson, “tem de saltar o muro da corte que a rodeia e que a priva de se confrontar com a realidade do país”. Tem de estar presente “no dia-a-dia das famílias, das empresas, das instituições” para ganhar conhecimento sobre a realidade que muitas vezes não conhece.

A radiografia feita ao país vai ainda mais longe: “Atualmente, em Portugal, temos falta de 70% de mão de obra na construção. Este e outros fatores fizeram subir o custo da construção por m2 de 900 euros para 3500 euros, excluindo o problema do aumento do preço dos materiais, dos problemas nos transportes marítimos, etc., muito também devido à pandemia causada pelo Covid-19 e à guerra na Ucrânia. Mas ainda falta mão de obra em todos os outros setores importantes na nossa economia como o turismo, restauração, serviços públicos, etc. Quer se queira quer não, Portugal vai necessitar com urgência de cerca de 200 mil imigrantes para resolver esta situação – é uma realidade. Não é só Portugal que está nesta situação, países como a Espanha e França também estão em circunstâncias semelhantes.”

E o caminho, que tem vindo a traçar no mundo cultural e artístico baseado na pluralidade, afigura-se-lhe como a única solução. Elson acredita, pensa e projeta futuros. Haja quem o acompanhe. “Podemos fazer protocolos com países da CPLP e outros países, criando vistos específicos com limitações especiais para o território português. Por exemplo, vistos não abrangentes ao agregado familiar e vistos com datas limitadas para estes trabalhadores. Criar estruturas de recrutamento nos países parceiros, e criar estruturas importantes em Portugal para gestão dos trabalhadores, estruturas de formação, de integração e sobretudo criar espaços específicos de alojamento que dignifiquem os trabalhadores. Tenho a certeza que desta forma será possível melhorar a economia portuguesa. Será também uma grande oportunidade para estes trabalhadores, que ao regressarem aos seus países com uma formação e experiência adicional, aumentarão a possibilidade de terem um futuro melhor. Assim, não só estaríamos a proporcionar melhores condições para esta geração, como também, estaríamos a criar alicerces para as gerações futuras.”

E é com a mesma certeza que olha para a frente do projeto WAAU que quer ser mais do que um embrião. “Daqui a dez anos, vai haver crianças a dizer que existe uma arte africana contemporânea, tal como existe hoje a arte contemporânea ocidental”, garante.

 
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