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Kanye West, um punk-rocker versão 2.0

A propósito do novo vídeo do músico americano, para o tema "Famous", David Fonseca escreve sobre "um dos raros artistas que se apresenta sem qualquer filtro e sempre desafiante".

Antes de tudo, uma declaração de intenções: sou fã do Kanye West. E começo por aqui porque sei que é uma figura controversa que é catalogada algures entre o génio e o completo imbecil. Talvez seja um pouco das duas, mas lá chegarei.

No passado dia 24 de Junho, Kanye estreou o vídeo de “Famous” com pompa e circunstância num LA Forum esgotado e com direito a transmissão mundial (por agora, o vídeo só pode ser visto no serviço de streaming Tidal). Sabendo que West se auto-proclama como um dos maiores génios musicais à face da terra (compara-se a Stanley Kubrick e a Picasso frequentemente), a curiosidade para ver o vídeo era muita, especialmente por ser um tema que abre com a letra “For all my Southside niggas that know me best / I feel like me and Taylor might still have sex / Why? I made that bitch famous” numa referência directa ao momento em que West subiu ao palco dos MTV Music Awards em 2009 e interrompeu Taylor Swift com um discurso desconexo e infantil que ficaria na história da televisão como um dos momentos mais constrangedores de sempre.

LOS ANGELES, CA - AUGUST 30: Vanguard Award winner Kanye West speaks onstage during the 2015 MTV Video Music Awards at Microsoft Theater on August 30, 2015 in Los Angeles, California. (Photo by Kevork Djansezian/Getty Images)

À hora marcada e para estupefacção geral, o vídeo irrompeu e justificou a excitação: durante longos 10 minutos, uma câmara percorre uma série de 12 corpos nus e adormecidos na mesma cama, uma espécie de sono pós-orgia visto por olhos voyeuristas. Quando a câmara se aproxima, as identidades dos corpos são lentamente reveladas: George W. Bush, Donald Trump, Anna Wintour (editora da revista Vogue), Rihanna, Chris Brown (ex-namorado de Rihanna e culpado no caso de violência doméstica contra ela), Taylor Swift, Kim Kardashian (a mulher de West), Ray J. (músico ex-namorado de Kardashian e que participa com ela numa sex-tape que correu o mundo), Amber Rose (ex-namorada de West), Caitlyn Jenner (madrasta de Kardashian, anteriormente conhecida por Bruce Jenner), Bill Cosby (comediante mítico americano envolvido num processo onde é acusado de ter violado diversas mulheres ao longo de décadas) e, claro, o próprio Kanye West.

Que músico é este que faz referência constante ao mundo da arte contemporânea e que ao mesmo tempo é a estrela constante dos serviços noticiosos de boatos e coscuvilhices como o site TMZ? Que mistura é esta entre estes dois mundos aparentemente opostos?

As figuras são feitas em cera de forma assustadoramente realista, com a canção a ser interrompida a meio para podermos ouvir as suas respirações durante o sono. A música é quase uma antítese das imagens, um beat algo escuro que depois é redimido por um refrão luminoso com Rihanna a liderar e a terminar com Nina Simone em tom confessional, mas o que vemos nas imagens remete para algo mais negro e imprevisível. O que estamos a ver afinal?

O desafio

Numa época em que o mainstream musical está pejado de ideias desinteressantes numa tentativa de agradar sistematicamente a quem está do outro lado de forma anódina sem ferir a susceptibilidade de ninguém, esta sequência de imagens é um oásis em forma de terramoto no planeta dos nomes musicais maiores do mundo. Só no capítulo referencial, este vídeo coloca-se numa espécie de avant-garde sem paralelo no mainstream. É clara a inspiração na obra do pintor realista americano Vincent Desiderio (“Sleep”, 2008) ou no vídeo-instalação de Malerie Marder (“At Rest”, 2003). E numa entrevista recente, Kanye menciona Matthew Barney e o seu Cremaster como uma grande influência. Que músico é este que faz referência constante ao mundo da arte contemporânea e que ao mesmo tempo é a estrela constante dos serviços noticiosos de boatos e coscuvilhices como o site TMZ? Que mistura é esta entre estes dois mundos aparentemente opostos?

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“Sleep” (2008), de Vincent Desiderio

Kanye diz que a presença destas figuras no seu vídeo, algumas delas bastante controversas, não trazem nenhuma posição pessoal sua em relação a cada uma delas, surgem contextualmente como um comentário à ideia da fama. E nesse sentido, o vídeo acerta em cheio. Estas figuras de cera, literalmente despidas de todo o seu contexto, são usadas na sua forma mais básica, no seu valor enquanto “caras e corpos reconhecidos do público”. Independentemente do que defendem ou do que são acusadas, são figuras públicas que facilmente captam a atenção das redes sociais numa espécie de “caça ao like”. E é nesse sentido que Kanye West subverte por completo este jogo, geralmente habitado por concordâncias e lugares comuns. Vai atrás do mesmo objectivo mas com algo mais poderoso e capaz de dividir opiniões, aumentando ainda mais o fosso entre os seus fãs e os seus detractores.

Passadas poucas horas do vídeo ter sido lançado, havia já imensas acusações de misoginia pela exposição dos corpos nus (ainda que numa figuração de cera) de Taylor Swift ou Rihanna. No entanto, publicações como a MTV Portugal, só para dar um exemplo, falam sobre o novo vídeo com o título “O novo vídeo do Kanye West inclui a Taylor Swift… nua!”, reduzindo o vídeo à ideia básica de uma celebridade exposta. Haverá inocentes nesta luta pelo like da rede social?

Kanye é um dos últimos punk-rockers do mundo. E essa coisa do punk-rock tem a ver principalmente com a liberdade com que um artista se exprime, uma espécie de ideia selvagem que não consegue ser derrotada por um mundo redondo e por vezes tão entediante.

O que é certo é que vivemos um momento claustrofóbico do politicamente correcto. Numa lógica de “likes e dislikes”, aquilo que é dissonante no mainstream tem a tendência a ser posto de lado para não ferir susceptibilidades ou, pior ainda, fazer descer o número de presenças online que trariam menos negócio às novas plataformas. Como resultado, a excentricidade tem um lugar cada vez menor na cultura popular, assim como a diferença de ideias ou lugares pouco comuns. Não deixa de ser irónico, numa era que se quer afirmar tão mais aberta que todos os outros momentos na história, que seja a mais dura e intransigente quando toca à novidade ou à diferença. E nessa linha mediana onde a maior parte das coisas se encontram, é praticamente impossível encontrar alguma coisa de novo. Nesse sentido, Kanye West mistura tudo num jogo difícil de distinguir.

Polos opostos

Por um lado alimenta de forma inteligente toda a máquina sedenta de likes e notícias do minuto, seja em declarações absurdas ou acções idiotas (“He’s a jackass. But he is talented.”, terá dito Obama sobre ele), por outro faz discos como The Life of Pablo, um dos discos mais difíceis e incríveis do ano e que foi número 1 nos Estados Unidos apenas com números de streaming e sem nunca ter sido editado fisicamente. Por um lado usa o seu estatuto de “famoso” para atingir os seus fins (assim como a sua mulher Kim, uma das pessoas mais influentes da internet sem sabermos exactamente porquê), de maneira a conseguir encher um fórum gigante com bilhetes a 25 dólares apenas para ver a estreia de um vídeo seu mas, sobretudo, para vê-lo a ele, o culto insano da celebridade americana; por outro faz música dissonante e desafiante para a maioria dos ouvintes do mainstream, uma espécie de polo oposto dos seus parceiros de fama de sites de mexericos.

Como dizia no início, sou fã do Kanye, melhor, sou fã da música e da arte do Kanye West. E gosto dele porque me parece que, dentro do universo mainstream, é dos raros artistas que se apresenta sem qualquer filtro. Aquilo que vemos é aquilo que ele quer ser e dizer, coisa rara num tempo de construção de artistas para as massas. Nesse sentido, acredito que é um dos últimos punk-rockers do mundo. E essa coisa do punk-rock tem a ver principalmente com a liberdade com que um artista se exprime, uma espécie de ideia selvagem que não consegue ser derrotada por um mundo redondo e por vezes tão entediante.

Num dos seus últimos discursos desconexos e absurdos no programa “The Ellen Show” com a Ellen Degeneres, a sua última frase não deixa de ser algo icónica e irónica: “Sorry daytime television. Sorry for…the realness”.

David Fonseca é músico

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