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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Um bilhete escrito à mão, pastilhas para a tosse e o telefone que não parou. O debate que não passou na TV

Foram quase quatro horas (com um intervalo pelo meio). O líder da bancada do PSD tentou, chamada a chamada, chegar a acordo com a oposição, sem sucesso. Crónica do debate que só se viu no parlamento.

O debate ainda não durava há 20 minutos quando Hugo Soares pegou no telefone interno da Assembleia da República pela primeira vez. Depois da intervenção inicial do primeiro-ministro, o hemiciclo ouvia Paulo Núncio, do CDS, o primeiro deputado a tomar a palavra para um pedido de esclarecimento. “Estás com pressa?”, atirou-lhe Patrícia de Carvalho, do Chega. Sete cadeiras ao lado, começava uma longa tarde de chamadas telefónicas para o líder parlamentar do PSD. E uma sessão dramática no parlamento.

O repto tinha sido lançado por Luís Montenegro no arranque do debate da moção de confiança. O Governo estava disponível para suspender a sessão e conversar com o líder do PS sobre as informações que os socialistas queriam obter do primeiro-ministro, em que moldes e em que prazo. E Hugo Soares pôs-se em campo. Durante toda a intervenção de Paulo Núncio, o líder parlamentar social-democrata conversou ao telefone com a bancada do lado. Primeiro com Pedro Nuno Santos. Logo depois com Alexandra Leitão. Estão separados por quatro deputados e um corredor.

Mas a azáfama que se fazia notar em Hugo Soares contrastava com a tranquilidade (e até desinteresse) que se vivia na bancada parlamentar do Bloco de Esquerda, Livre e PCP. Aos olhos da bloquista e antiga eurodeputada Marisa Matias, durante longos minutos o ecrã do telemóvel foi mais apelativo do que qualquer intervenção do primeiro-ministro ou deputado do CDS. Já o comunista Alfredo Maia durante a primeira hora de debate quis rentabilizar tempo e aproveitar para adiantar leituras: abriu um longo documento, que de vez em quando sublinhava, e só parou para ouvir e apoiar o líder do seu partido, Paulo Raimundo.

Meia dúzia de linhas escritas à mão num papel

Nas bancadas da Assembleia da República (AR) o ruído começava a sobrepôr-se às vozes dos deputados. A menção da palavra “avenças” por Mariana Mortágua provocou uma pequena insurreição na bancada do PSD. O ruído constante, e que obrigaria a várias intervenções de José Pedro Aguiar Branco, presidente da AR, ia sendo entrecortado pelo choro ocasional de uma criança vindo das galerias do Parlamento. Estão muitas vezes cheias apenas no início dos debates. Esta terça-feira, ficariam repletas até ao último minuto.

O barulho do hemiciclo contrastava com a tranquilidade da bancada do Chega. Quase à semelhança do seu líder no debate desta terça-feira. André Ventura surgiu rouco e teve de esforçar a voz para se fazer ouvir. Na fila de trás, uma deputada entregou-lhe um pacote de rebuçados para a garganta. Mas Ventura foi prevenido. Passou o debate com uma carteira de pastilhas para a tosse à mão. Perante a versão menos audível do líder do Chega, a deputada Felicidade Alcântara mandou calar a bancada oposta. Algumas cadeiras ao lado, na bancada do PSD, Hugo Soares voltava a pegar no telefone fixo.

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Ainda não corriam rumores sobre negociações com o PS nem havia propostas concretas em cima da mesa quando o líder parlamentar do PSD passou das chamadas para o ‘entra e sai’ do hemiciclo. Na primeira vez que regressou ao lugar, na fila da frente, Hugo Soares começou por procurar na bancada alguém que não conseguia encontrar. O debate durava há uma hora quando lhe foi entregue um bilhete. Eram meia dúzia de linhas escritas à mão que Hugo Soares leu, voltou a dobrar e deixou encostadas junto ao ecrã do computador da AR que tem o seu nome. Pegou de imediato no telefone, mas desta vez no seu próprio smartphone. Pedro Nuno Santos está a intervir e Aguiar Branco voltou a mandar parar o tempo por causa do barulho, porque em casa “os portugueses não conseguem perceber nada”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Na primeira intervenção no debate, Hugo Soares pediu a abstenção do PS na moção de confiança. O braço de ferro entre os dois maiores partidos do parlamento ainda estava a começar. Depois de Luís Montenegro voltar a sugerir suspender os trabalhos para conversar com o PS, o telefone fixo de Hugo Soares voltou a sair do descanso. No topo do hemiciclo, Aguiar Branco atendeu o seu. A conversa durou menos de um minuto.

Do lado esquerdo do Parlamento, o barulho e a confusão subiram de tom. Enquanto o líder do Chega, André Ventura, deixava um alerta para o facto de a esquerda poder voltar a governar, as risadas espalhavam-se pelo PCP, Livre e Bloco de Esquerda, que se uniram numa troca de ideias. Paulo Raimundo acabou mesmo por abanar a cabeça e gesticular expressivamente para negar as críticas de Ventura. Mais tarde, ainda Hugo Soares continuava desesperadamente a tentar encontrar forma de viabilizar a moção de confiança, o telefone interno do líder do Livre, Rui Tavares, tocava. A chamada era do deputado do Bloco de Esquerda Fabian Figueiredo. O teor da conversa, fosse qual fosse, provocou gargalhadas em ambos, assumindo uma postura descontraída de quem já sabia o que iria ser votado minutos depois.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Numa tarde repleta de acontecimentos raros no parlamento, o PSD protagonizou mais um, quando a bancada se levantou em peso para aplaudir um deputado do PS. O autor da ‘façanha’ foi Eurico Brilhante Dias e a frase que fez erguer os deputados sociais-democratas é bem conhecida da bancada laranja: “Primeiro Portugal, depois o partido e por fim a circunstância de cada um de nós”. Foi dita há mais de 40 anos por Francisco Sá Carneiro. Eurico Brilhante Dias retomou a palavra e Alexandre Poço, vice do PSD, atirou: “Cita Cavaco agora: ‘Deixem-nos trabalhar’”.

Pedro Nuno em marcação rápida e uma deputada que se sacrificou por 12 minutos

Perto das cinco da tarde e das duas horas de debate, Hugo Soares já tinha Pedro Nuno Santos em marcação rápida. Falavam uma e outra vez. A conversa mais longa durou cerca de três minutos. O líder do PS desligou o telefone fixo, mas Hugo Soares continuou ao telefone. Na bancada do Governo, Leitão Amaro, ministro da Presidência, atendeu, recebeu a mensagem e passou-a ao primeiro-ministro. Minutos depois, o país ficou a conhecer o resultado das conversas.

Hugo Soares fez uma interpelação à mesa para pedir a suspensão dos trabalhos para que Montenegro e Pedro Nuno Santos possam conversar durante meia hora. Na bancada do Chega, o silêncio impera. À esquerda, só Alexandra Leitão, líder parlamentar do PS, se manifestou de forma veemente. Pelo caminho, enquanto Pedro Nuno Santos recebia chamadas da oposição, na sua própria bancada alguns deputados preferem acompanhar o que é dito e publicado nas redes sociais, em particular no X, como a antiga ministra Ana Abrunhosa, que passou longos minutos a fazer scroll.

O debate da moção de confiança tem a duração oficial de cerca de duas horas e meia. Com os minutos a escassear e ainda sem uma solução à vista que permita evitar a queda do Governo, o PSD começou a ser criativo. A deputada Regina Bastos inscreveu-se para falar. Pronunciou as palavras devagar e estendeu o discurso, que começou com uma biografia do primeiro-ministro, por quase 12 minutos. Quando regressou ao lugar que lhe pertence, recebeu um abraço sentido de Hugo Soares e, logo depois, o deputado à sua direita, Alexandre Poço, susurrou-lhe ao ouvido algo que lhe provocou um sorriso.

O líder parlamentar do PSD continuou a desdobrar-se em conversas, cochichos e telefonemas. Falou com o ministro Pedro Duarte e chegou a mudar de lugar para conversar com Rui Rocha. Fará o mesmo minutos depois com a líder parlamentar da IL e candidata à Presidência da República, Mariana Leitão.

São 17h52 quando o ministro Pedro Duarte apresentou uma nova proposta ao PS. Uma comissão de inquérito com conclusões em 15 dias. Em troca, o Governo deixava cair a moção de confiança. A “comissão privada de inquérito” não convenceu o PS. “Nunca mais saímos daqui”, ouviu-se na galeria central do Parlamento. O Benfica já perde em Barcelona e entre os deputados há quem não resista a ir espreitando o resultado no telemóvel.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

As ordens de Ventura, fila por fila

“O Governo tentou tudo”, lamentou-se Hugo Soares. O Governo está prestes a cair mas André Ventura ainda tem tempo para fazer ouvir a voz rouca mais uma vez. “A culpa” da queda do Executivo “não é do André Ventura, não é do Pedro Nuno Santos, não é do Paulo Raimundo, não é do Rui Rocha…”, enumerou o líder do Chega. Na bancada do PSD apontava-se para o lugar atribuído a Miguel Arruda (que esteve ausente): “É do deputado não inscrito”, ouviu-se. Ventura dirigiu-se às seis filas da sua bancada parlamentar e deu uma ordem clara: “Voto contra, um a um”. Hugo Soares ainda teve tempo para mais um telefonema e para sair a correr do plenário antes de Paulo Núncio fazer um pedido potestativo para a suspensão dos trabalhos.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O intervalo forçado durou uma hora. São poucos os deputados da direita que ficaram no plenário. Do PS permaneceram quase todos. As notificações começaram a chegar a quem estava nas galerias. O Governo fez uma última proposta ao PS: uma comissão de inquérito com um novo prazo fixado para o final de maio e evitavam-se as eleições. As mesmas notificações acrescentam, minutos depois, que o PS não vai negociar. Às 19h42 os trabalhos retomam. Já se sabe que o Benfica perdeu por 3-1 em Barcelona. Os deputados voltam aos seus lugares. Do Governo, Pedro Duarte chegou sozinho. Durante um minuto, é o único ministro sentado na bancada do Governo.

O debate da moção de confiança é retomado. Já só falta votar. Aguiar Branco pediu aos deputados para se registarem e às 19h47, com os votos contra do PS, Chega, Bloco, PCP, Livre e PAN a moção foi rejeitada. Sem quaisquer aplausos. O presidente da Assembleia da República despediu-se do Governo e do primeiro-ministro. Na bancada do Chega, uma deputada imitou, sorridente, o gesto de quem agita uma bandeira. Começavam os ensaios para a campanha eleitoral que aí vem.

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