A semana abriu com uma derrota estrondosa. Não cá, no Reino Unido, mas é uma daquelas derrotas que parecem irrecuperáveis. É verdade que não são legislativas, mas o Labour, ou pelo menos Starmer, saiu destas eleições condenado. Como diz João Marques de Almeida, “Com Starmer a PM, o governo trabalhista será, usando outra expressão inglesa, a lame duck, ou um governo sem futuro. Ainda faltam quase três anos para as próximas eleições legislativas. Nenhum governo aguenta tanto tempo nesta situação. Por razões óbvias, os trabalhistas não querem provocar eleições antecipadas agora, para evitar outra grande derrota. Precisam de recuperar para competir nas próximas eleições. Só conseguem tentar uma recuperação com outro PM”. |
Ninguém acredita que Starmer recupere, mas as consequências podem ser bem mais sérias do que a troca de um primeiro-ministro. |
As votações no Reform e nos Verdes levam muita gente a prenunciar o fim do mais que centenário bipartidarismo britânico; no entanto, André Azevedo Alves põe água na fervura. Pode haver uma mudança, sim, mas apenas nos partidos representados, não no sistema de representação: “Dado o sistema eleitoral britânico, não é de todo evidente que esta fragmentação conduza a um governo de coligação (nomeadamente entre Reform e Partido Conservador). Ainda que a distribuição regional assimétrica de apoio entre os dois partidos possa favorecer essa possibilidade, o sistema FPTP faz com que não seja impossível ao Reform conseguir uma maioria parlamentar com um resultado apenas ligeiramente superior ao que vai tendo por agora nas sondagens. Ou seja, o Reform pode mesmo substituir o Partido Conservador”. |
Esta mudança é importante porque, como nota João Marques de Almeida, pode travar outra. Ou seja, a insatisfação com o bipartidarismo britânico levou a grandes votações nos partidos independentistas, sobretudo na Escócia e Gales; contudo, o que parece travar este ímpeto independentista é precisamente o grande agregador do outro lado do voto de protesto: o Reform. “Neste momento, e tem alguma ironia” – diz João Marques de Almeida – “é a votação no Reform na Escócia que pode continuar a garantir a unidade do Reino Unido.” |
A pergunta que persiste, quando assistimos a estes fenómenos, é o porquê? O que é que leva ao ruir de lealdades com centenas de anos e ao abandono de instituições que parecem ter representado eficazmente, durante tantos anos, os povos que outrora confiaram nelas? |
Uma possível resposta pode ser encontrada no texto de José Manuel Fernandes, que trata precisamente da sensação que preside ao olhar comum sobre os governos. “No fundo o que notamos é a crescente incapacidade dos governos, sejam eles mais sociais-democratas ou mais conservadores, de cumprirem qualquer promessa de “mudança”, no fundo de realizarem muitas vezes os programas com que foram eleitos.” A ideia espantosa de que mesmo os governos são incapazes de ter controlo sobre os seus países parece cada vez mais pertinente e generalizada: “Não foi só o governo britânico que não conseguiu parar os barcos que cruzam, cheios de imigrantes, o Canal da Mancha. Em França ninguém consegue reformar minimamente o sistema de pensões. Na Alemanha os governos sucedem-se mas sempre em fórmulas de “grande coligação” incapazes de quebrarem impasses há muito conhecidos. Em Espanha governa-se há anos sem Orçamento e em Itália são os juízes que bloqueiam, em nome de leis europeias, soluções para a imigração que a Europa talvez gostasse de ver concretizadas”. |
Mesmo em Portugal, vimos esta semana um exemplo claro deste imobilismo de que José Manuel Fernandes falava. Helena Garrido retomou o tema da legislação laboral, para mostrar como a “radicalização” se transformou numa forma política de cristalizar a sociedade e uma força de bloqueio que nos impede de lidar com o mundo contemporâneo: “Lamentavelmente para todos nós, as alterações à lei laboral transformaram-se numa batalha político-partidária. Como a realidade é uma poderosa força, vamos pagar caro não nos prepararmos para a revolução tecnológica. Empregos seguros para a vida acabaram e acabam ainda mais depressa se as empresas morrerem por falta de adaptação”. |
A Figura |
André Ventura esteve, por várias razões, no centro do debate. Seja ainda pela questão da idade da reforma, seja porque, diante do caso da esquadra do Rato, foi inevitavelmente chamado à pedra. Também aqui no Observador houve vários textos interessantes sobre ele. |