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Do Reino Unido à união contra a mudança

16 mai. 2026, 18:38
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Fotografia de Carlos Maria Bobone
Carlos Maria Bobone
Editor de Opinião

A semana abriu com uma derrota estrondosa. Não cá, no Reino Unido, mas é uma daquelas derrotas que parecem irrecuperáveis. É verdade que não são legislativas, mas o Labour, ou pelo menos Starmer, saiu destas eleições condenado. Como diz João Marques de Almeida, “Com Starmer a PM, o governo trabalhista será, usando outra expressão inglesa, a lame duck, ou um governo sem futuro. Ainda faltam quase três anos para as próximas eleições legislativas. Nenhum governo aguenta tanto tempo nesta situação. Por razões óbvias, os trabalhistas não querem provocar eleições antecipadas agora, para evitar outra grande derrota. Precisam de recuperar para competir nas próximas eleições. Só conseguem tentar uma recuperação com outro PM”.

Ninguém acredita que Starmer recupere, mas as consequências podem ser bem mais sérias do que a troca de um primeiro-ministro.

As votações no Reform e nos Verdes levam muita gente a prenunciar o fim do mais que centenário bipartidarismo britânico; no entanto, André Azevedo Alves põe água na fervura. Pode haver uma mudança, sim, mas apenas nos partidos representados, não no sistema de representação: “Dado o sistema eleitoral britânico, não é de todo evidente que esta fragmentação conduza a um governo de coligação (nomeadamente entre Reform e Partido Conservador). Ainda que a distribuição regional assimétrica de apoio entre os dois partidos possa favorecer essa possibilidade, o sistema FPTP faz com que não seja impossível ao Reform conseguir uma maioria parlamentar com um resultado apenas ligeiramente superior ao que vai tendo por agora nas sondagens. Ou seja, o Reform pode mesmo substituir o Partido Conservador”.

Esta mudança é importante porque, como nota João Marques de Almeida, pode travar outra. Ou seja, a insatisfação com o bipartidarismo britânico levou a grandes votações nos partidos independentistas, sobretudo na Escócia e Gales; contudo, o que parece travar este ímpeto independentista é precisamente o grande agregador do outro lado do voto de protesto: o Reform. “Neste momento, e tem alguma ironia” – diz João Marques de Almeida – “é a votação no Reform na Escócia que pode continuar a garantir a unidade do Reino Unido.”

A pergunta que persiste, quando assistimos a estes fenómenos, é o porquê? O que é que leva ao ruir de lealdades com centenas de anos e ao abandono de instituições que parecem ter representado eficazmente, durante tantos anos, os povos que outrora confiaram nelas?

Uma possível resposta pode ser encontrada no texto de José Manuel Fernandes, que trata precisamente da sensação que preside ao olhar comum sobre os governos. “No fundo o que notamos é a crescente incapacidade dos governos, sejam eles mais sociais-democratas ou mais conservadores, de cumprirem qualquer promessa de “mudança”, no fundo de realizarem muitas vezes os programas com que foram eleitos.” A ideia espantosa de que mesmo os governos são incapazes de ter controlo sobre os seus países parece cada vez mais pertinente e generalizada: “Não foi só o governo britânico que não conseguiu parar os barcos que cruzam, cheios de imigrantes, o Canal da Mancha. Em França ninguém consegue reformar minimamente o sistema de pensões. Na Alemanha os governos sucedem-se mas sempre em fórmulas de “grande coligação” incapazes de quebrarem impasses há muito conhecidos. Em Espanha governa-se há anos sem Orçamento e em Itália são os juízes que bloqueiam, em nome de leis europeias, soluções para a imigração que a Europa talvez gostasse de ver concretizadas”.

Mesmo em Portugal, vimos esta semana um exemplo claro deste imobilismo de que José Manuel Fernandes falava. Helena Garrido retomou o tema da legislação laboral, para mostrar como a “radicalização” se transformou numa forma política de cristalizar a sociedade e uma força de bloqueio que nos impede de lidar com o mundo contemporâneo: “Lamentavelmente para todos nós, as alterações à lei laboral transformaram-se numa batalha político-partidária. Como a realidade é uma poderosa força, vamos pagar caro não nos prepararmos para a revolução tecnológica. Empregos seguros para a vida acabaram e acabam ainda mais depressa se as empresas morrerem por falta de adaptação”.

A Figura

André Ventura esteve, por várias razões, no centro do debate. Seja ainda pela questão da idade da reforma, seja porque, diante do caso da esquadra do Rato, foi inevitavelmente chamado à pedra. Também aqui no Observador houve vários textos interessantes sobre ele.

Fotografia do Colunista
João Marques de Almeida

A revolução política no Reino Unido

A primeira consequência da fragmentação do sistema partidário britânico será a normalização dos governos de coligação. O próximo governo será, muito provavelmente, uma coligação entre Reform e Tories.

Fotografia do Colunista
André Azevedo Alves

O fim do bipartidarismo no Reino Unido?

O que pode sinalizar uma mudança mais estrutural no sistema partidário britânico é o facto de o Partido Conservador não ter sido capaz de capitalizar o descontentamento com os trabalhistas.

Fotografia do Colunista
Nuno Gonçalo Poças

O pequeno luxo do país pobre

Escolhe-se um culpado politicamente apresentável, constrói-se uma narrativa pública, produz-se legislação simbólica, e quando os resultados não aparecem parte-se directamente para o alvo seguinte.

Fotografia do Colunista
Paulo Ferreira

2000 anos depois a Igreja continua a não saber de finanças

O Patriarca de Lisboa acha a diferença salarial entre Portugal e países mais ricos é “um dos grandes mistérios”. Pode começar por resolver o enigma dentro de casa.

André Ventura

"André Ventura acredita que é possível ser de direita e de esquerda ao mesmo tempo; acredita que é possível descer a idade da reforma e, simultaneamente, descer os impostos (...). Olhando para a distribuição de votos no Reino Unido, e olhando para a distribuição de votos em Portugal, se calhar tem razão ao apresentar essas convicções aos eleitores. "

Miguel Pinheiro

a comparar o caso do Reform, de Farage, com o de André Ventura

"A proposta de antecipação da idade de reforma de André Ventura não é necessariamente “de esquerda” ou uma cedência à Esquerda, como alguns críticos afirmaram ou insinuaram. O problema da proposta é a sua desadequação ao caso português e às tendências dominantes no sector de trabalho, em Portugal e na Europa. "

Jaime Nogueira Pinto

a explicar que há uma tradição social que não é necessariamente de esquerda, e que seria possível enquadrar a proposta de Ventura nesse contexto

"a direita não sabe reagir a estas situações. Quando não se põe em defesas insensatas de culpados e a montar teias de condicionantes que desculpem o indesculpável, quando não lança suspeitas insensíveis sobre as vítimas, o máximo que tem para dar é o argumento inútil da excepção – não é excepção se é uma possibilidade real e sempre presente "

Carlos Maria Bobone

sobre a dificuldade que a direita tem em lidar com casos como o da esquadra do Rato

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Uma boa semana, e no próximo sábado cá nos encontramos.

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