Bom dia, |
Vamos começar por um assunto invulgar. Não há ninguém em Portugal com um olho tão treinado para as tendências do mundo contemporâneo, tão capaz de mostrar o que se pensa pelo mundo fora sobre o wokismo, as novas direitas e as contra-culturas do século XXI. Falo, é claro, de Patrícia Fernandes, que desta vez nos trouxe, a partir de Yesteryear, um excelente texto sobre as trad-wifes que é um optimo ponto de partida para pensar a relação entre a mulher e as novas direitas. |
Ainda com os Estados Unidos no centro, o grande assunto da semana foi o acordo de paz entre o Irão e os norte-americanos. Os nossos dois cronistas de internacional que mais olharam para a guerra – José António Rodrigues do Carmo e Bruno Cardoso Reis – escreveram dois textos com conclusões muito diferentes, e vale a pena contrapô-los. |
Em Portugal, o arco noticioso foi grande. Começámos com a PSU, e José Manuel Fernandes escreveu sobre ela, houve o caso das bandeiras – e Rui Pedro Antunes aproveitou para lembrar que António José Seguro não abandonou a esquerda – e acabámos no chumbo da reforma laboral. |
Curiosamente, Nuno Gonçalo Poças e José Manuel Fernandes realçaram o mesmo fenómeno: a facilidade com que reformas sérias se transformam em discussões tolas. José Manuel Fernandes dá mesmo uma série de exemplos que mostram como as propostas são alegremente distorcidas, e por isso perguntámos-lhe: |
Se isso acontece, se há de facto uma distorção daquilo que está na proposta do governo para a PSU, como é que o próprio governo não tem capacidade para comunicar de forma clara aquilo que pretende, e desmentir com eficácia as caricaturas daquilo que propõe? |
A resposta de José Manuel Fernandes foi esta: |
“Mais do que uma distorção, há um preconceito: a ideia de que qualquer mecanismo de controle das prestações sociais são formas de “humilhar os pobres”. É assim desde 2003, quando a fórmula do Rendimento Social de Inserção substitui o guterrista Rendimento Mínimo Garantido.A partir do preconceito trata-se de construir uma narrativa, sendo que nas narrativas conta mais a forma como apelam à cultura dominante – que nas redações é preconceituosamente desconfiada de todo e qualquer governo de centro direita – do que o rigor dessas mesmas narrativas. É por isso que poucos se preocupam em verificar os factos e qualquer “notícia” crítica é imediatamente reproduzida pelos outros órgãos de informação com muito pouco sentido crítico e ainda menos verificação dos factos.
Por fim devo dizer que não compro a ideia de que a raiz dos problemas é uma alegada falta de capacidade para comunicar – é difícil explicar o que quer que seja quando do outro lado não se pedem explicações, pedem-se expiações. Mais: a ideia de que o problema das reformas é por regra a dificuldade de as comunicar é uma ladainha muito repetida pelos profissionais do comentário político que nunca me convenceu, sempre me pareceu mais uma desculpa para nem se esforçarem na avaliação séria do que está em causa nas reformas”. |
Reformas, e a incapacidade de fazer reformas. A semana esteve cheia de textos sobre isso. Ou sobre a pouca atenção dada às empresas, como no texto de João Marques de Almeida, ou sobre o ar cansado do Governo, como no de Miguel Pinheiro, ou, a partir do novo livro de Nuno Palma, o texto de Rui Ramos sobre a doentia relação entre Portugal e os subsídios vindos da Europa. |
Rui Ramos ala de uma “cumplicidade de Bruxelas” no uso do enquadramento europeu como um expediente para dispensar reformas. Por isso, perguntámos-lhe: porque é que isso interessa a Bruxelas? Como é que Bruxelas se sujeita a ser uma doadora permanente de recursos, sem contrapartidas? |
Rui Ramos respondeu de uma forma muito simples, mas que merece ser lembrada quando discutimos o funcionamento da UE: |
“Nuno Palma explica isso no seu livro O Vício dos Fundos Europeus. De facto, há contrapartidas para estes fundos: o apoio às decisões da UE que pressupõem a unanimidade dos Estados membros. Desse ponto de vista, os fundos europeus são um caso de compra e venda de votos”. |
|