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Rui Ramos, José António do Carmo, Leão XIV: as respostas e a encíclica

30 mai. 2026, 11:20
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Fotografia de Carlos Maria Bobone
Carlos Maria Bobone
Editor de Opinião

Entre o recolher dos estilhaços da reforma laboral e os avanços e recuos sobre a hipótese de paz no Golfo, o grande tema da semana esteve em Espanha.

Nuno Gonçalo Poças bem explicou a Fabian de Figueiredo que nem toda a riqueza vem da espoliação dos outros, mas a explicação não parece ter convencido os socialistas dos dois lados da Península Ibérica.

Na semana passada, perguntámos nesta newsletter ao Jorge Fernandes quais eram as semelhanças entre o caso de Sócrates e o de Zapatero; esta semana, José Manuel Fernandes explica-as bem, e mostra porque é que o caso espanhol pode ser ainda pior do que o Português.

Rui Ramos também escreveu sobre o assunto, num texto que mostra que a corrupção nunca pode ser um acto isolado. Só é possível num contexto que a incentiva ou, pelo menos, não desencoraja. No meio do texto, há uma passagem que nos chamou a atenção. Rui Ramos diz que os Partidos são meios competitivos, com várias pessoas em disputa pelo poder. Faz sentido, sobretudo dentro de uma lógica que olha para a competição como um modo próprio da natureza do homem. Isto, no entanto, levou-nos a perguntar: o que é que há de especial nos partidos para que neles essa competição não funcione como um meio para prevenir contra a corrupção? De onde vem o beneplácito e a indiferença, quando as acusações de corrupção seriam armas fáceis que os inimigos internos podiam arremessar contra quem está no poder?

Rui Ramos respondeu que “A tolerância da corrupção nos meios partidários talvez se possa explicar pela percepção de que “facilitar” negócios é, independentemente das contrapartidas pessoais, uma forma de alargar influência e exercer poder. É esse o perigo maior: quando a corrupção se torna parte natural da política. De qualquer modo, também é provável que algumas investigações criminais tenham começado a partir de pistas dadas por rivais dos visados”.

Fizemos também uma pergunta a José António Rodrigues do Carmo, que dissecou o acordo de Obama com o Irão e fez dele uma leitura muito crítica. Fizemos-lhe a pergunta clássica para casos destes; se o acordo é tão mau como ele o pinta, o que é que levou a que fosse feito. Incompetência? Ignorância? Ingenuidade no trato com os iranianos? Cegueira ideológica?

José António Rodrigues do Carmo respondeu: “Não creio que tenha sido medo, inépcia ou intenção. Foi sobretudo uma escolha estratégica de controlo temporário de danos em vez de uma solução final.

No fundo, uma  preferência para gerir o risco, em vez de o eliminar, adiar a crise em vez de a enfrentar.  Um acordo imperfeito, em vez de uma confrontação sem garantia de sucesso.

Há alguma racionalidade nisso, mas também uma mistura de realismo, ilusão, cálculo político e aversão à guerra.

Contudo, em política internacional, comprar tempo só é uma boa estratégia quando se sabe o que fazer com ele. Caso contrário, é apenas pagar juros ao problema até ele regressar maior, mais rico e mais insolente”.

Por fim, fizemos ainda uma pergunta a Patrícia Fernandes, que a propósito dos recentes furtos em grandes cadeias explicou, a partir da História contemporânea e dos exemplos internacionais análogos, o alcance e os problemas deste tipo de protesto, a que habitualmente se chama “micro-looting”. A pergunta (e a resposta) foram um pouco mais filosóficas, porque têm que ver com a natureza da crítica de Patrícia Fernandes ao fenómeno. Perguntámos-lhe:

Um dos pontos importantes no texto é a questão do plano inclinado – é difícil aceitar que podemos roubar algumas coisas por razões políticas, sem cair depois numa justificação do roubo de coisas maiores, por exemplo.

O problema com este argumento é que nega a importância do “micro” como categoria, como se a quantidade não fosse um valor político. Ou seja, a política não se faz apenas de princípios – isso é a ideia abstracta da esquerda; o princípio em matar uma mosca e matar uma manada de elefantes pode ser o mesmo, mas não é a mesma coisa. Dessa forma, o microlooting não pode ser defensável?

Patrícia Fernandes respondeu: “De acordo com as Filosofias da Razão, os seres humanos agiriam sempre segundo princípios éticos, mas essa visão parece-me longe da realidade: nós não funcionamos assim e tendemos a violar constantemente regras pequenas que nos parecem injustas. São aqueles exemplos iniciais que a jornalista dá: quem nunca partilhou a pass da netflix? E quem é que nunca usou aqueles sites que desbloqueiam os artigos de jornal para não pagar uma subscrição de 40e? Ou quem é que nunca registou nas caixas de continente um pão que pesa o mesmo mas custa metade do preço? Somos bastante flexíveis, sobretudo se tivermos a certeza que ninguém está a ver ou que que as pessoas não vão julgar. Por isso, acredito que a maioria das pessoas acha o microlooting aceitável em certas condições – não tenho ilusões quanto à natureza humana. O que sobra é chamar a atenção para o plano inclinado e tentar convencer as pessoas dos possíveis efeitos negativos (é a disputa filosofia pragmatista vs. filosofias da razão)”.

A Figura

Podia, claro, ser Sánchez, podia até ser António José Seguro, sobre quem Helena Garrido escreveu, mas desta vez apeanhámos um pouco as ideias. Foi a semana em que saiu a primeira encíclica do Papa Leão XIV, e a opinião do Observador desdobrou-se em textos sobre o assunto. Pedro Lomba, André Azevedo Alves, Bruno Cardoso Reis, o Padre João Basto – todos escreveram sobre a encíclica, numa colecção notável de perspectivas.

Fotografia do Colunista
Jaime Nogueira Pinto

O 28 de Maio de há um século

Indiferentes à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da Revolução de Maio.

Fotografia do Colunista
Helena Matos

O activismo de bordo

Portugal tem uma política diferente da espanhola em relação às Lajes e a Israel pela mesma razão que teve uma política diferente da francesa em relação à ETA. A razão chama-se interesse nacional.

Fotografia do Colunista
Miguel Morgado

Zapatero

Um cínico manipulador das partes sensíveis da alma da esquerda política que operou para, sem qualquer escrúpulo, e arrastando consigo para o fundo as instituições e o Estado de Direito, enriquecer.

Fotografia do Colunista
Carlos Maria Bobone

Isabel Moreira, a censurada

A quantidade de gente que prefere achar que não é publicada porque incomoda alguém poderoso, ou é demasiado acutilante é extraordinária.

Papa Leão XIV

"Mais do que a promessa de capacidades extraordinárias ou mesmo de novos estádios da evolução humana, arrisco dizer que para o imaginário colectivo das sociedades contemporâneas é a possibilidade colocada no horizonte de remover todo o sofrimento e perda que gera efectivamente um apelo mais tentador. "

André Azevedo Alves

sobre o problema fundamental da encíclica, que justifica que um Papa se debruce sobre a Inteligência Artificial

"Leão XIV coloca a irrepetibilidade da pessoa – na sua identidade, fragilidade, imperfectibilidade – no centro da sua resposta à inteligência artificial. Para o Papa, há domínios da vida humana em que a delegação às máquinas é simplesmente inadmissível, qualquer que seja o nível de precisão do sistema. Magnífica humanidade, perfeita desumanidade. "

Pedro Lomba

a explicar de que modo Leão XIV tenta, pela via teológica, recuperar a ideia da consciência como fundamento da dignidade humana

"Para o Cristianismo a fragilidade não é um erro que deve ser corrigido; a plenitude coexiste com a falha. “Para suprimir totalmente a dor, seria necessário, no fundo, extinguir também o amor e o desejo”, diz o Papa. "

Pe. João Basto

a propósito das relações entre o Cristianismo e a Civilização Ocidental, e sobre o papel que o Cristianismo pode ter na sua salvação

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