Depois de um enquadramento da situação atual da Universidade e de uma discussão sobre os principais desafios que enfrenta, este artigo aborda a sua evolução histórica e os diferentes modelos de Universidade que foram surgindo em diferentes contextos.
1) Um ideal originário
A instituição universitária, no sentido em que a conhecemos hoje, surgiu no final do século XI, na Europa Medieval – e não em Fez – a partir das escolas catedrais, com a designação “Universidade de Mestres e Estudantes”. A sua principal razão de existir era “o amor ao conhecimento pelo conhecimento”. Os primeiros ciclos de estudos não eram concebidos para responder às necessidades práticas da sociedade, e o conhecimento tinha um valor intrínseco, independente de razões práticas ou económicas.
O ideal do “saber pelo saber”, independentemente da sua utilidade, moldou a Universidade durante séculos, seguindo uma mentalidade claramente oposta à de Fedro (se não for útil o que fizermos a glória será vã). Paradoxalmente, foi essa atitude livre e não utilitarista que permitiu o progresso da tecnologia, e a resposta a inúmeros problemas práticos da sociedade, pois foi esse ideal que lançou as bases do espírito científico.
Desde a sua origem até hoje, a Universidade atravessou diferentes contextos sociais, políticos, económicos e epistemológicos. A Universidade atual desviou-se consideravelmente do ideal original, mas há aspetos familiares que permitem reconhecê-la como descendente direta da Universidade Medieval. De todas as instituições seculares atuais, a instituição universitária é talvez a única que continua a gozar de uma elevada consideração social, ao contrário, por exemplo, das instituições militares, políticas ou religiosas.
2) A Universidade Medieval
Desde sempre, pessoas curiosas e interessadas pelo saber, com sede de conhecimento, têm-se reunido para estudar, debater e filosofar, como acontecia nas escolas, nas academias e nas ágoras da Grécia Antiga. No entanto, isso não corresponde ao conceito de Universidade, tal como as madraças da cultura islâmica também não são consideradas universidades.
As primeiras universidades (séculos XI-XIII) nasceram, maioritariamente, sob a autoridade eclesiástica, com uma missão “teológica” (Deus, Espírito, Verdade). Assim permaneceram durante cerca de sete séculos, como o caso de Oxford (1096), Paris (1170), Cambridge (1209) ou Salamanca (1218). Funcionavam como corporações de “mestres e estudantes”, financiadas pela Igreja, por reis e por mecenas. No caso de Bolonha (1088) a sua origem é mais laica. Até meados do século XVI, o método de ensino-aprendizagem era a Escolástica, baseada na filosofia aristotélica, harmonizando a fé cristã e a razão. Existia a Faculdade de Artes, para estudos preparatórios, correspondente às sete artes liberais: Trivium (gramática, lógica e retórica) e Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música); e existiam as Faculdades profissionais (Teologia, Direito e Medicina).
O declínio da Escolástica deu-se no final da Idade Média (século XV), no contexto do Humanismo e do Renascimento, que valorizavam mais a observação e a experiência do que os textos clássicos. No entanto, foi mais tarde, cerca do século XVIII/XIX, que as universidades passaram por um processo de secularização e autonomia, sem a autoridade eclesiástica. No final do século XIX a maioria dessas universidades já era essencialmente laica.
É interessante notar que, durante este período sob a autoridade eclesiástica, a Universidade permitiu o florescimento do pensamento científico moderno, preparando o terreno para a Revolução Científica do século XVII. As universidades foram o centro do conhecimento no Ocidente, sendo responsáveis pelo desenvolvimento do Direito e do pensamento jurídico, bem como por inúmeros avanços científicos, tais como a Ótica (Bacon, 1267), Heliocentrismo (Copérnico, 1543), Anatomia (Vesalius, 1543) e Astronomia (Kepler, 1609).
3) Os modelos de Universidade dos séculos XVIII e XIX
Neste período, em França, na Alemanha e na Inglaterra foram desenvolvidos três modelos diferentes de Universidade que a influenciaram até hoje.
De acordo com o modelo Napoleónico ou Francês (final do século XVIII), a Universidade tem a missão do ensino profissionalizante. A Universidade é um instrumento para a formação dos quadros do Estado e para formar profissionais com competências úteis às necessidades sociais e económicas, nomeadamente, nas áreas da Engenharia, Direito e Medicina.
O modelo Humboldtiano ou Alemão (início do século XIX), idealizado por Wilhelm von Humboldt, defendia que a Universidade tinha a missão de gerar e de preservar a “cultura nacional”. A formação universitária deveria ser realizada por meio da investigação e pela unidade entre ensino e investigação. O ensino deve ser interdisciplinar, com ênfase na formação humanística, e a Universidade deve gozar de liberdade académica e autonomia administrativa. A Universidade de Berlim (1810) é o paradigma desse modelo.
Por sua vez, o modelo de Newman ou Inglês (meados do século XIX), foi estabelecido pelo Cardeal John H. Newman, enquanto reitor da Universidade de Dublin, através do famoso ensaio “The Idea of a University” (1852). O modelo defende que a Universidade é “um lugar de ensino e de conhecimento universal” para uma educação humanista e integral, que não visa apenas a formação profissional técnico-científica. A missão da Universidade não é a formação de profissionais, mas de pessoas, com uma visão mais abrangente de toda a realidade. Refere também que “o seu objetivo é intelectual, e não moral”, ou seja, a Universidade não deve endoutrinar. Este modelo de Universidade enfatiza o ensino das artes liberais, ou seja, um currículo de pendor clássico e humanista, que promova o caráter e da capacidade crítica dos estudantes.
4) Modelos de Universidade mais recentes (século XX)
Ainda hoje, o modelo típico da maioria das universidades é um híbrido que combina elementos dos modelos Napoleónico, Humboldtiano e de Newman. Contudo, durante o século XX, algumas inovações, variantes ou combinações destes modelos deram origem a outros modelos de Universidade.
A área da Medicina ficou muito marcada pelo modelo de Flexner (EUA, 1910), que enfatizou o ensino baseado na investigação científica e na experimentação. Defendia o rigor do ensino, com docentes a tempo inteiro, a exigência nas condições de entrada dos estudantes, bem como a regulamentação estatal do ensino.
O modelo Soviético (século XX), adotado em países comunistas, privilegiava a educação técnica e científica, orientada para as necessidades económicas e políticas do Estado, o qual exercia forte controlo sobre as universidades. Existia uma separação entre o ensino e a investigação, já que o foco estava, tendencialmente, na aplicação prática e nos objetivos governamentais, e não no interesse puro pelo conhecimento.
O modelo de Massas (após a II Guerra Mundial) procurou responder à expansão e à necessidade de massificação do ensino superior, introduzindo a democratização do acesso, a diversificação dos cursos, e uma maior ligação da Universidade ao mercado de trabalho, o qual passou a ser um importante desígnio da Universidade.
O modelo Neoliberal (final do século XX) emerge no contexto da globalização e da mercantilização do ensino superior, introduzindo a necessidade de autossustentabilidade financeira, nomeadamente, através de parcerias com o setor privado. Prospera uma lógica de mercado, de competitividade, de pressão por resultados imediatos e mensuráveis, bem como os modelos de financiamento público em função do desempenho. O plano de ação é internacional e os rankings são quase idolatrados, tornando-se, por vezes, um critério totalizante.
5) 900 anos de história em 3 passos
Resumidamente, de forma simplificada, pode descrever-se o percurso histórico de 900 anos da Universidade em 3 passos:
– Modelo Medieval: Sob a autoridade eclesiástica, a Universidade surge como corporação de mestres e estudantes, movida pela sede de conhecimento, com vocação teológica, centrada no ensino escolástico de Direito, Medicina e Artes.
– Modelo híbrido (Profissionalizante + Investigação + Humanista): A Universidade amplia as suas funções, combinando, simultaneamente, a formação de quadros para o Estado (modelo Napoleónico), a criação e preservação de cultura nacional e de novos conhecimentos através da investigação científica (modelo Humboldtiano). Torna-se centro de investigação e inovação, mas também local de educação humanista e integral de pessoas (modelo de Newman).
– Modelo Empreendedor / Neoliberal / Global: A Universidade torna-se mais democrática e de massas, focada no mercado de trabalho, com atividade económica, criadora de valor através da investigação e de start-ups, em estreita relação com o setor privado. Adota uma lógica de mercado, orientada para resultados e avaliação por rankings. Baseia-se no conceito da “tripla hélice”, integrando a academia, a indústria e o governo.
Todos estes modelos de Universidade têm vícios e virtudes e todos foram além e ficaram aquém em diferentes aspetos: se havia idealismo, faltava democratização; onde havia foco nas necessidades, não havia independência; se havia liberdade académica, faltava ligação ao mercado de trabalho; onde havia eficiência não havia horizonte humanista nem pensamento crítico, etc. Contudo, estes modelos são compreensíveis, e cada um reflete as necessidades e o contexto do seu tempo. Atualmente, porém, as coisas parecem menos claras…
6) Modelos de Universidade propostos no século XXI
Se antes era fácil entender a racionalidade e os objetivos dos diferentes modelos de Universidade, hoje as coisas complicaram-se… Há uma profusão de propostas, com alguns autores a sugerir mais do que um modelo. Por outro lado, o excesso de retórica e de lugares-comuns dificulta o entendimento. Alguns exemplos:
– A Universidade 4.0: com uma designação pouco original, promete uma universidade “campeã da inovação inclusiva e motor de uma transformação socioeconómica positiva, criando ecossistemas de inovação prósperos que proporcionem um desenvolvimento sustentável e local e um crescimento inclusivo”. Segundo os proponentes, “a quarta geração é uma resposta a um mundo em rápida mudança e impulsionado pela tecnologia”. Alguns autores concretizam, para além da retórica, propondo que a Universidade 4.0 deve “personalizar o ensino”; que deve conferir “qualificações e credenciais de ciclo mais curto”, para além dos diplomas tradicionais; que deve dar “maior atenção à gestão da carreira dos estudantes”, enquanto estudantes e enquanto antigos estudantes; que as universidades devem “tornar-se locais físicos de co-localização e de colaboração em investigação com a indústria”.
– A Universidade Ecológica: proposta pelo Prof. Ron Barnett, é uma universidade “interdependente do mundo”, que assume uma “responsabilidade ativa em múltiplas ecologias” — não somente a ecologia ambiental, mas também outras 6 envolventes, nomeadamente, “a economia, a ecologia do conhecimento, a aprendizagem, a cultura, as instituições sociais e a subjetividade humana”. Trata-se de uma universidade vinculada à “sustentabilidade e ao bem-estar coletivo”, atuando com “consciência crítica e ética no âmbito das complexidades globais”.
– A Universidade Cívica: trata-se de uma universidade comprometida “com a cidadania, a justiça social e o desenvolvimento das comunidades”. Para além da missão tradicional da transmissão de conhecimento, tem sobretudo a pretensão de “transformar a sociedade”, através do diálogo, da ação pública direta e da interação com atores sociais. A universidade Cívica pretende assumir um papel ativo na vida pública, atribuindo a si uma capacidade de resposta aos problemas da comunidade global e local.
– O modelo da Hélice Quádrupla: preconiza a interação entre Universidade-Indústria-Governo-Sociedade Civil. Segundo esta visão, a universidade deve estar integrada numa “rede de inovação”. Para além da universidade, como produtora de conhecimento e inovação; a Indústria financia e utiliza essa inovação; o Governo assume o papel de regulador e promotor de políticas públicas; enquanto a Sociedade Civil contribui com a definição de necessidades e “perspetivas sociais”. Existe uma lógica de cocriação, que pressupõe uma universidade aberta, colaborativa e orientada para responder a problemas atuais. Alguns propõem adicionar uma quinta hélice: naturalmente, o ambiente e as “interações sócio-ecológicas”, tendo em vista o desenvolvimento sustentável.
900 anos de história desembocaram neste tipo de modelos de Universidade. O que têm em comum é procurarem maximizar o “impacto” na sociedade. É um objetivo compreensível e nobre, mas o caminho proposto passa por um “ativismo institucional”, como se a Universidade fosse uma espécie de ONG, com ação direta, concreta e imediata na sociedade. Por outro lado, uma vez que o foco está na instituição per si, os estudantes perdem centralidade.
Mas será essa a forma de criar um impacto verdadeiro e duradouro? Quais serão as transformações de fundo num horizonte mais distante? Haverá, nestes modelos de Universidade, espaço para cultivar a paciência do pensamento e a investigação de longo prazo? Um impacto pré-determinado não será sempre limitado? Historicamente, muitos dos desenvolvimentos mais impactantes decorreram, ironicamente, da curiosidade aparentemente inútil e da busca livre e desinteressada pelo conhecimento…
A Universidade deve estar imersa na sociedade, mas sem seguidismo social; deve estar no seu tempo, mas sem imediatismos. À primeira vista, estes modelos parecem propor uma Universidade altruísta – em saída. Mas, na realidade, podem produzir universidades autorreferenciadas e perdidas no labirinto da imediatez – no limite, sem rumo nem relevância.
Relativamente aos documentos essenciais produzidos nas últimas décadas, que enquadram a Universidade atual, destaca-se, a Magna Charta Universitatum (1988), a Declaração de Sorbone (1998) e a Declaração de Bolonha (1999). Mais recentemente, o que se tem “declarado” sobre a Universidade resume-se, cada vez mais, a um discurso circular e repetitivo. Um exemplo são as Conferências Mundiais de Educação Superior da UNESCO: a de Barcelona (2022) enfatizou a “inclusão, diversidade e sustentabilidade”, recomenda a “garantia de acesso equitativo ao ensino superior” e destaca a “transformação digital e inovação pedagógica” — tal como já tinha sido repetido em conferências anteriores.
7) Quando a Universidade fica para trás: uma analogia com o século XVII?
Uma história de 900 anos permite estabelecer analogias. No século XVII, o surgimento das Academias Científicas foi uma reação ao imobilismo das universidades, desafiando a sua missão e o seu papel na sociedade. Nessa altura, a produção de conhecimento passou a depender, cada vez mais, da realização de experiências científicas. No entanto, a investigação experimental era, na altura, negligenciada pelas universidades tradicionais, que ainda mantinham o registo epistemológico da Escolástica.
Dada a incapacidade de a Universidade acompanhar a evolução do pensamento científico da época, começaram a surgir as Academias Científicas, com o objetivo de criar e partilhar conhecimento com utilidade prática, nomeadamente, por meio da investigação experimental, realização de conferências, publicações próprias, etc. Assim nasceu, em 1660, a Royal Society of London for Improving Natural Knowledge, e logo depois outras Academias por toda a Europa.
A Universidade não acompanhou a realidade que então se impunha, e, por isso, surgiram instituições alternativas… Estaremos hoje a assistir a algo semelhante? Qual é a analogia? Será que hoje, tal como há 350 anos, o aparecimento de instituições alternativas à Universidade indicia uma dificuldade de esta se adaptar ao seu tempo? Ou será que o surgimento de instituições que assumem tarefas da Universidade indica que esta deve recentrar a sua missão no que é verdadeiramente exclusivo e distintivo?
8) Perspetivas para o futuro
Afinal, a Universidade ainda faz sentido? Sim, sem dúvida, enquanto não for redundante com as empresas, os centros de I&DT empresariais, as start-ups, as ONG, as agências de serviços sociais, as instituições de caridade, as luminárias ideológicas, os centros de qualificação técnica, as escolas profissionalizantes, as plataformas de ensino online…
A Universidade faz sentido, e é cada vez mais necessária, enquanto for uma realidade específica e distinta de todas as outras, ou seja:
– Um espaço para a curiosidade, a reflexão, a contemplação, a crítica, a pergunta, o conhecimento e o contentamento intelectual que tudo isso provoca;
– Essencialmente, um espaço onde se aprende – onde os professores aprendem com a investigação que realizam; e os estudantes aprendem com o ensino que lhes é proposto;
– Um espaço que favoreça o grande objetivo do “jovem”: crescer e tornar-se adulto;
– Um espaço que contribua para formar cidadãos ativos, com uma visão abrangente, histórica, filosófica, estética, científica e holística do mundo;
– Um espaço onde se procura a verdade – não apenas com o conhecimento teórico, (pois este, só por si, acaba por deixar tristeza) –, mas com o conhecimento do bem;
– Em síntese, um espaço para introduzir a pessoa à realidade total.
Tendo por base este percurso histórico de 900 anos, os principais desafios que a Universidade enfrenta, e as novas questões com que se defronta, poderá agora refletir-se melhor sobre as propostas para o futuro da Universidade – o que poderá ficar para próximo artigo.
As opiniões aqui expressas vinculam apenas o autor e não as instituições a que está filiado.