A identidade de um povo também se manifesta através da sua arte. Nunca será demais exaltar a nossa arte manuelina da expansão marítima nos séculos XV e XVI e a nossa arte barroca dos séculos XVII e XVIII em coexistência com outros estilos autóctones, como o «estilo nacional» relativo à talha ou o «estilo joanino» para a arte cortesã de D. João V.
Gosto de pensar que a palavra «barroco» tem origem em Garcia de Orta, quando nos Colóquios dos Simples se refere a «huns barrocos mal afeiçoados e não redondos» e traduz o resultado lógico da semântica popular para se referir às zonas pedregosas de feição irregular. O barroco é considerado por Eugenio d’Ors, como uma criação ibérica que valoriza na arte o movimento da natureza e da concretude da existência espiritual e despreza a representação do ideal estático, inane e vazio. É a arte rústica da pedra granítica e da terra argilosa em que afundamos as raízes do nosso pensamento atlântico. É a arte filigrana do calcário e do lioz em que delineamos os contornos do nosso sentimento saudoso.
Garcia de Orta (1501-1568)
Teríamos em contexto ibérico a arte aquática do Manuelino português e a arte telúrica do Barroco espanhol, que surge mais tardiamente no reinado dos Filipes em Portugal, quando os Jerónimos e Tomar mostravam um caminho inédito para a arte. Nesta expressão artística a figuração da natureza realiza-se mais pelo recurso ao elemento sólido da terra, dinamizada pela imagética do impulso telúrico e vegetalista. Trata-se do barroco jesuítico que teremos mais tarde em Portugal nos séculos XVII e XVIII, como contributo original da crítica romana contra-reformista e da crítica à paganização renascentista veiculada pelo regresso às configurações míticas e mágicas do real e veiculada pelas tendências secularizantes de absoluta autonomia do homem e da arte.
Para o séc. XIX de Garrett a Herculano e a Oliveira Martins, o barroco é sinal de decadência em relação ao Manuelino e ao Renascimento, sendo associado a protagonistas responsáveis por todos males da pátria, como os Jesuítas e a Inquisição. Serão os artistas estrangeiros, como Robert Smith, a valorizarem a nossa arte barroca, dando-lhe a importância adequada no contexto luso-brasileiro. Para o século XX de António Quadros, o Barroco preserva alguns elementos do Manuelino, como acontece, por exemplo, com as representações plasmadas nos azulejos dos frontais de altar dos séculos XVII e XVIII que contêm estilos formais e motivos iconográficos comuns aos séculos anteriores da Expansão Marítima. O mesmo se passa com as linhas sinuosas e composições vegetalistas da talha.
A arte portuguesa destes séculos iluminados resulta de um impulso cultural e religioso sobre o valor e utilidade das imagens, tendo como pano de fundo político-social a Restauração e as guerras consequentes e tendo como base filosófico-teológica uma visão plural do conceito de belo que se sintetiza em duas grandes correntes: a tridentina e a clássica. O estilo barroco da talha e do azulejo vai ser aplicado, na maioria dos casos, em edifícios de arquitetura clássica como veículo da compreensão essencial e natural do belo.
No sentido judaico-cristão manifesto no Manuelino e no Barroco, não há separação entre a arte, a ética e a espiritualidade, pelo que o belo se apresenta como reflexo da beleza e bondade divinas, como participação do ser da própria divindade, não no sentido da indistinção panteísta, mas no sentido paradoxal pantiteísta de uma transcendência que ao mesmo tempo é imanente nas suas criaturas sem nelas esgotar a sua manifestação. O objeto artístico belo produzido pela criatura humana é símbolo desta beleza divina e no contexto religioso tem a função evangelizadora de explicar os mistérios cristãos da Revelação nos seus diversos âmbitos.
O espaço sagrado deixa de ser o Universo povoado de deuses e deixa de ser a estatuária de natureza ideal, para ser o encontro pessoal com o mistério da Cruz na harmónica relação entre a vivência do sobrenatural e a peregrinação natural. Superando a abstração medieval gótica de uma relação dualista corpo-alma, razão-fé, sombra-luz, homem-Deus e real-ideal, que diabolizou os elementos naturais, a arte barroca assume o pleno significado cristão de um Deus que se constitui na tríplice realidade do Pai, Filho e Espírito Santo.
A simbólica dualista divina-titânica de corpo-alma é superada pela simbólica da tríplice determinação antropológica de corpo-alma-espírito ou físico-psíquico-racional, em que a salvação do ser humano por Deus inclui a salvação do Cosmos, isto é, inclui a redenção integral da sua natureza existencial, porque Deus é transcendente na sua imanência e imanente na sua transcendência. Assim, se pode compreender a distinção entre o românico português naturalista e cósmico e o gótico francês de oposição entre o espírito e a matéria. Se em França, o Românico anuncia o Gótico que tende a uma representação que diaboliza a natureza, em Portugal o Românico anuncia o Barroco pelo uso do seu simbolismo rural das formas naturais, presente num primeiro momento no «estilo manuelino». A esta arte corresponde uma espiritualidade mística naturalista distinta da mística dualista especulativa de tradição renana.
A renascença neoclássica apresenta um mundo supremo que já não se perde nas alturas inatingíveis para que aponta o traço ogival gótico, mas é agora percetível em quadros mentais que procuram eternizar o efémero, restabelecendo os velhos mitos helénicos da ucrónica idade do ouro e do ucrónico paraíso terreal. Como se prevalecesse a saudade da harmonia perdida de um paraíso terreal. Mas à bi-dimensionalidade helénica ideal-real, divina-titânica, e à bi-dimensionalidade românico-gótica céu-inferno, fé-razão, Deus-Homem, segue-se a tri-dimensionalidade da arte barroca ibérica que assume a natureza como o lugar mediador do movimento e assume a ação do homem no mundo como elemento dinâmico de espiritualização existencial.
Este dinamismo evolutivo da realidade na sua auto-realização histórica natural e humana passa a ser traduzido pelo sentimento saudoso, já não do passado estático e ancestral, mas sim do futuro em abertura ao horizonte infinito do Amor criativo e indizível. A redenção divina do Universo é feita em colaboração com a criatura humana na demanda do Paraíso futuro. A simbólica do barroco manifesta a síntese do natural e do sobrenatural, do humano e do divino neste movimento futurante de esperança escatológica.
Capela Imperfeitas, Mosteiro da Batalha
O novo sentido harmónico de íntima cumplicidade e paradoxal distinção entre o transcendente e o imanente através da inclusão das formas irregulares e dinâmicas da energia, da paixão e do impulso vital já está presente no estilo manuelino do Gótico tardio que, por isso, é denominado de barroco atlântico ou barroco aquático, tal como se expressa na Catedral de Santa Maria de Belém, nas capelas imperfeitas da Batalha e no convento de Tomar, com uma simbólica que se fundamenta na tensão entre o cósmico e o transcendente e inclui as diversas modalidades de movimento, como as da paixão e do impulso vital. Este dinamismo de colunas torsas, motivos marítimos e vegetalistas, proporciona a consciencialização da missão navegadora, planetária, universal e movente do homem, religando o Oriente e o Ocidente, numa marcha espiritual para o futuro, integrada no evolucionismo psíquico e cósmico.
Na experiência contemplativa da nossa arte também compreendemos o sentido lusófono da nossa origem e do nosso destino.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]