A cultura ocidental greco-romana e judaico-cristã está fundada numa compreensão metafísica da realidade que inclui quatros áreas principais de conhecimento científico: antropologia e gnosiologia, ontologia e teologia filosófica ou teodiceia. Em consonância com a República de Platão e com a Metafísica de Aristóteles, que concluíam a sua reflexão sobre o Ser com uma abordagem sobre o Ser supremo ou divino, causa e fim de todas as coisas, e em concordância com o De Trinitate de Agostinho de Hipona e a Suma Teológica de Tomás de Aquino, que promoviam a conciliação entre a racionalidade mítico-simbólica da fé e a racionalidade lógico-analítica da filosofia e da teologia pela mediação do discurso analógico-metafórico, a nossa tradição filosófica seguiu a mesma via de diálogo entre a razão e a intuição, o rigor lógico e a criatividade da imaginação, o juízo crítico e o sentimento, a luz meridiana da evidência dianoética e a luz crepuscular da visão noética, a determinação objetiva e a compreensão indefinida de totalidade.

Depois de séculos na prevalência fecunda do ambiente escolástico, mesmo que matizada pelos movimentos modernos cartesianos, leibnizianos e kantianos, essa sensibilidade ganhou contornos singulares a partir do século XIX com a emergência do livre pensamento de autores como José Maria da Cunha Seixas, Amorim Viana, Antero de Quental ou Sampaio Bruno, assente na preocupação de um diálogo de complementaridade entre a filosofia, a arte literária, a ciência e religião.

Destacamos a integração das noções de «experiência», «evolução» e «progresso» nos sistemas metafísicos espiritualistas. Teria continuidade no século XX através do pensamento original de autores como Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, José Marinho, Álvaro Ribeiro, Afonso Botelho, António Quadros, José Enes, Joaquim Cerqueira Gonçalves, Manuel Ferreira Patrício ou António Braz Teixeira, que reconheceram na metafísica fenomenológico-hermenêutica da «razão poética» a mediação ajustada para o acolhimento da manifestação ou revelação do Mistério do Ser.

Uma das especificidades do pensamento português e, talvez, o seu melhor contributo para a história global da filosofia é o reconhecimento de que não há uma experiência pura nem uma racionalidade pura. Por distinção com o dualismo antropológico e ontológico da tradição grega gnóstica, com o naturalismo empirista da tradição anglo-saxónica, com o idealismo espiritualista da tradição alemã e com o espiritualismo existencialista da tradição francesa, a filosofia portuguesa desenvolve-se através de uma razão experiencial, animada, cordial, comovida e mistérica, capaz de compreender o dinamismo saudoso da realidade no seu movimento de ascensão progressiva para a Plenitude divina da Verdade e do Amor.

A filosofia metafísica da saudade enquadra-se nesta preocupação de compreensão integral da realidade, atendendo a experiências e a noções que na filosofia antiga e medieval tinham menor dignidade. Nessa medida, é uma reflexão que antecipa, de alguma maneira, as filosofias fenomenológicas e existencialistas da contemporaneidade que atendem à situação concreta e afetiva do ser humano no dinamismo histórico do mundo.

D. Duarte, o rei-filósofo.

Enquanto reflexão sistemática sobre um sentimento, a filosofia da saudade tem a sua origem mais remota no século XV com D. Duarte e desenvolve-se em várias fases até ao saudosismo de Teixeira de Pascoaes do início do século XX e às suas reapropriações contemporâneas. A primeira meditação filosófica conhecida sobre a saudade encontra-se no Leal Conselheiro (c.1438), de D. Duarte (1391–1438), rei e “rei-filósofo”. Distingue a “suidade” (forma antiga de “saudade”) de outros afins como nojo, pesar, desprazer e aborrecimento, afirmando a sua especificidade e intraduzibilidade. Define-a como um sentimento gerado pela ausência de quem se ama ou estima. Subordina valorativamente o desejo à lembrança e introduz a ideia de que a saudade pode ter uma dimensão positiva: “a melhor saudade é a que nos atualiza, pondo-nos de acordo com o tempo e dando-nos portanto prazer”. Refere-se à saudade, não como mero estado psíquico inferior (como a dor ou o aborrecimento), mas como um sentimento com estrutura própria que solicita a esperança.

Nos séculos seguintes, a reflexão sobre a saudade ganha contornos mais conceptuais e metafísicos. Duarte Nunes de Leão, no tratado Origem da língua portuguesa (1606), oferece uma definição concisa que se tornará clássica: saudade como “memória de uma coisa com o desejo dessa mesma coisa”. D. Francisco Manuel de Melo (1608–1666) apresenta-se como o iniciador da preocupação metafísica com a saudade, alargando-a para além da psicologia do sentimento.

Silvestre Pinheiro Ferreira e Almeida Garrett são igualmente referidos como figuras fundadoras da linha de investigação filosófica da saudade em língua portuguesa, integrando-a num quadro mais amplo de reflexão sobre a linguagem, o sentimento e a identidade. Neste período, a saudade começa a ser pensada não só como experiência individual, mas também como traço distintivo da sensibilidade portuguesa, especialmente no contexto das navegações e da expansão ultramarina, onde a ausência e a distância se tornam experiências coletivas.

No século XIX, com o Romantismo, a saudade é elevada a categoria central da identidade nacional. Almeida Garrett e Alexandre Herculano exploram-na literariamente, ligando-a à história, à pátria e à melancolia romântica. A saudade passa a ser vista como expressão privilegiada do “modo de ser” português, especialmente em contextos de perda, exílio, decadência imperial e nostalgia de um passado glorioso. Esta transformação prepara o terreno para a sistematização filosófica e poética que viria a acontecer no início do século XX, em que a filosofia da saudade atinge o seu momento de maior densidade especulativa com o Saudosismo, movimento ligado à Renascença Portuguesa.

Teixeira de Pascoaes é a figura central: transforma a saudade em princípio metafísico e motor de um projeto de renascimento nacional, definindo-a como “desejo da coisa ou criatura amada, tornado dolorido pela ausência. O desejo e a dor fundidos num sentimento são a Saudade”. Para o poeta filósofo do Marão, o saudosismo é “o culto da alma pátria ou da Saudade erigida em Pessoa”, isto é, uma espécie de religião poético-filosófica da portugalidade. A saudade é pensada como transcendência imanente: a solidão descobre-se potencialmente transcendível pelo amor; o presente descobre-se como eternidade, ligado ao passado pela lembrança e ao futuro pelo desejo. O Saudosismo torna-se, assim, uma corrente de raiz poético-filosófica com ambição cultural totalizante, onde a saudade é elevada a categoria ontológica e histórica.

Ao longo do século XX, a filosofia da saudade será retomada numa articulação fenomenológica e ontológica que não dispensa a metafísica. Afonso Botelho e António Braz Teixeira organizam, em 1986, a antologia Filosofia da Saudade, reunindo textos desde D. Duarte até ao século XX e consolidando a ideia de uma tradição filosófica portuguesa centrada na saudade, que é analisada como sentimento estruturante da relação do ser humano com a temporalidade, a finitude e o infinito. Significa a experiência da ausência e da morte, mas também da esperança de presença e ressurreição.

Apresenta-se como categoria antropológica e cultural que define, não só o espírito da cultura portuguesa, mas também o espírito da cultura de outras nações de língua portuguesa, como no caso da “morabeza” cabo-verdiana, no sentido de cordialidade, hospitalidade e a abertura amável e afável ao outro. A palavra morabeza deriva do crioulo cabo-verdiano, provavelmente do adjetivo morabi (ou moradi), que, por sua vez, tem origem na palavra portuguesa amorável. A saudade do fado em íntima cumplicidade com a saudade da morna. Tal como a saudade, a morabeza é considerada pelos cabo-verdianos difícil de traduzir integralmente noutras línguas, funcionando como marcador identitário da lusofonia africana.

Hoje, a filosofia da saudade é frequentemente distinguida do saudosismo enquanto movimento histórico: a saudade é entendida como sentimento ou consciência refletida desse sentimento, enquanto o saudosismo é uma construção ideológico-poética específica do início do século XX.

No âmbito atual de uma metafísica fenomenológico-hermenêutica da saudade, devemos salientar duas vias distintas: uma que a interpreta como carência e desejo de regresso a um passado perdido (sentido negativo, de deficiência) e outra que a compreende como excesso e abundância no desejo de um paraíso futuro (sentido positivo, de eficiência e plenificação).

Esta primeira leitura, associada sobretudo a António Dias de Magalhães, entende a saudade como: sentimento de deficiência ontológica, que revela a condição contingente, finita e incompleta do ser humano, marcada pela privação e pela ausência. Está associada à memória e ao desejo de uma completude perdida, sendo vivida como nostalgia de uma unidade originária, de uma comunhão divina ou de um paraíso já perdido, gerando um movimento de regresso ou retorno ao passado.

Esta conceção está associada à experiência da queda e da separação: a saudade está ligada à ideia de uma cisão original (queda) e ao desejo de restauração de uma harmonia prévia, aproximando-se de esquemas gnósticos ou panteístas de emanação e degradação.  O acento está na angústia e na solidão: a ênfase recai sobre o polo negativo da saudade – a dor da ausência, a angústia da separação, a consciência da finitude e da morte. Marcada por um certo dualismo maniqueísta, a saudade torna-se essencialmente sinal de uma falta irremediável e de uma nostalgia impossível de satisfazer na história, tal como se expressa no Regresso ao Paraíso de Teixeira de Pascoaes.

Na segunda leitura da saudade como excesso e abundância no desejo de um paraíso futuro, em diálogo com autores como Leonardo Coimbra e Manuel Cândido Pimentel, o foco está num sentimento de eficiência ontológica: a saudade não é apenas carência, mas excesso de presença, manifestação do dinamismo infinito do Ser que se doa de forma superabundante. A tónica está no desejo de plenificação futura e na orientação para um futuro escatológico – o “paraíso-por-amar”, o Reino de Deus, a comunhão plena ainda não realizada.

A primazia está na criação e ascensão: a saudade é entendida como impulso criador, movimento ascensional de redenção integral e de manifestação plenificadora de fraternidade pessoal universal, e não como simples retorno a uma origem abstrata e indiferenciada da Unidade absoluta. Aqui, o realce vai para a esperança e a alegria: o polo positivo da saudade (esperança, alegria, graça) prevalece sobre o negativo (angústia, dor), numa metafísica teísta da criação e da consumação, onde Deus não é apenas a unidade perdida, mas o é o Excesso inefável que atrai o ser humano para uma comunhão mais ampla. Para Pimentel, a saudade em Deus não é sinal de falta ou deficiência, mas de eficiência na realidade infinita da eterna reciprocidade do uno e do múltiplo, do incriado e do criado, ou seja, a saudade divina é o próprio movimento de amor que deseja a comunhão com as criaturas e a sua plenificação escatológica de mais amor.

Leonardo Coimbra (1883-1936).Fonte: Universidade do Porto.

Leonardo Coimbra ocupa um lugar central nesta discussão, pois a sua metafísica criacionista oferece os elementos para ultrapassar a dicotomia entre carência e excesso. Por via da razão experimental e da razão mistérica, o filósofo portuense propõe uma razão que não é apenas lógico-analítica, mas também mistérico-analógica, capaz de integrar ideia e sentimento, vontade e desejo, predicação e intuição. A tríade noético-emocional da Alegria, Dor e Graça traduz esta tensão paradoxal. A Alegria corresponde à experiência atemática originária de comunhão com o Ser; a Dor à consciência da separação e da finitude; e a Graça à síntese superadora, onde a saudade se converte de forma espiralar em esperança de comunhão futu.ra. A saudade apresenta-se como sentimento do caminho e não apenas memória do passado perdido, ou seja, sentimento de ir a caminho da maior presença divina, vivendo numa permanente invenção de Amor e numa exaltação indizível da relação com o Mistério.

No artigo “A reflexão metafísica sobre o fundamento divino da saudade” (in Viagens da Saudade, 2019), salientamos que a saudade é um sentimento metafísico que manifesta a experiência antepredicativa de abertura ao Ser infinito, não como carência absoluta, mas como excesso inefável do Mistério.

A dinâmica conatural à saudade não é abertura para a angústia, mas para a esperança. Numa metafísica teísta, a primazia é da esperança e não do desespero, da comunhão e não da indistinção. A saudade revela a alteridade ontológica entre Deus e as criaturas e traduz a possibilidade de uma comunhão amorosa universal e definitiva no futuro escatológico. Todos sentimos o desejo natural e saudoso dessa plenitude sobrenatural na plena harmonia da matéria e do espírito.

[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]