A recusa da Academia em conceder o Nobel a Borges faz parte do património cultural da direita. O escritor argentino foi mais uma vítima do preconceito da esquerda, isto é, da ideia de que um intelectual deve pertencer a esse lado do espectro político. É um beco sem saída: os artistas e os pensadores são todos de esquerda; quando algum não se enquadra nesta referência não deve ser reconhecido enquanto tal.

Desde a Revolução Francesa que a intelectualidade e a cultura são bandeiras oficiais da esquerda. A direita, assumem, demasiado obscurantista e retrógrada, não sabe criar nem pensar por si própria, ficando condenada à estagnação e à consequente reprovação pelas autoridades académicas e bem-pensantes. Neste imaginário, onde os conservadores são remetidos para a disfunção intelectual, apagam-se deliberadamente os nomes daqueles que ousam e ousaram contrariar as convenções: assim, não se fala em Céline, Ezra Pound, Vargas Llosa, Hamsun, Mishima, Chesterton, nos futuristas, em Dalí, Rivarol, de Bonald, De Maistre, Maurras, Chateaubriand, Roger Scruton, Carl Schmitt, Raymond Aron, T. S. Eliot, Wagner, só para referir alguns clássicos. Omite-se sem qualquer pudor uma tradição rica e fecunda quer de artistas quer de filósofos e teóricos do pensamento.

O mais preocupante é o facto de alguns líderes da direita não demonstrarem em público esse cuidado relativamente às artes e ao saber. Talvez desconfiem – pensamos que erradamente – que o seu eleitorado não dá proeminência a essas questões, ou até sentirem que, efetivamente, são coisas da esquerda. O dilema tradicional entre ministério ou secretaria-de-estado para a cultura, optando os conservadores pela última, mais contida e menor orçamentada, demonstraria a todos os eleitores que o património tem o seu peso e, como tal, deve ter a boa medida. Face a dificuldades crónicas nos campos da saúde e da habitação, por exemplo, não teria cabimento dar prioridade a museus e obras-de-arte. Este aspeto desemboca naturalmente na atribuição de subsídios a artistas, ou seja, se deve o Estado aplicar o dinheiro dos impostos a acalmar a avidez de empresários e a homens e mulheres das artes, ou se pelo contrário, devem os mecenas (por exemplo) individuais ou empresariais servir esse nobre propósito. A boa arte financia-se a si mesma, parece, em princípio, uma boa tese. Ter uma sala de cinema (por exemplo) vazia com um film d’auteur que ninguém aprecia nem muito menos percebe, não parece ser a estratégia nem o investimento mais sóbrio e equilibrado. Por defeito e prudente contabilidade, a direita tem preferido, como regra geral, a solução utilizador-pagador.

Os marxistas, que adoram pensar a arte de uma perspetiva anticapitalista e moralista, e, conforme apontei, julgam ser os donos do jogo, quando no poder dão exemplos embaraçosos de cânone artístico: o realismo socialista suscita na mais sensível das pessoas uma graçola. Nessas mundividências totalitárias cabe somente ao Estado financiar as artes e a cultura – com o imperativo de os criadores se submeterem ao jugo das normas.

Enquanto as leis económicas e financeiras se tornaram apanágio do pensamento de direita (por razões evidentes e salutares), a cultura caiu completamente no colo da esquerda. Os fenómenos de contracultura, com origem nas universidades dos EUA, provocaram um afunilamento intelectual ainda mais vincado na sociedade ocidental. O neoconservadorismo tentou dar uma réplica adequada, discutindo os assuntos no plano das ideias. Contudo, o movimento cultural e artístico europeu continua na esfera da esquerda e, preferencialmente, marxista. O tema do intelectual e do artista comprometidos politicamente, agindo diretamente na sociedade, desmascarando os capitalistas e outros fascistas, é demasiado provocador para ser abandonado pelas suas hostes.

Borges, a dada altura da sua vida, terá dito prefiro a clara espada. Apertou também a mão a Pinochet, num desafio maior do que a sua cegueira. Por estas e por outras atitudes, perdeu a célebre medalha. (Outros, com simpatias declaradas a Estaline e afins, tiveram direito a envergá-la). A nova direita, democrática e orgulhosa, deve resgatar a cultura e as artes da prisão ideológica. Espalhar a palavra pelos eleitores de todos os quadrantes e, sem rodeios, assumir a vertente intelectual da política.