Para alguns, já passou o Natal, para outros, teremos Natal até 06 de Janeiro. Mas, alheias desta discussão quase dialéctica, as luzes da cidade cintilam entre as decorações, ficando um pouco mais fortes no ar agora mais frio. O calor das tradições, das memórias, do sabor da infância, do imaginário volta a preencher-nos. Ficamos mais compreensíveis, mais benevolentes e, bem lá no fundo, ainda desejaríamos voltar a acreditar neste imaginário, neste Natal da infância. Onde o Pai Natal desce pela chaminé, o trenó voa, existe paz no mundo e tudo parece mais fácil. Antes, o mundo era mais mágico, tinha mais cor, tinha mais mistério e a Arte tinha um papel muito diferente.

Aproveitando as temperaturas mais baixas, refugiei-me novamente num pequeno livro de estética, Philosophy, Art, and Religion, de Gordon Graham. Voltar a debruçar-me sobre estes temas, contrastando com a realidade que se experimenta, é algo quase raro. Aqui, os temas Disenchanting the World e Unweaving the Rainbow voltam a emergir da sua função original e o autor coloca os dois conceitos em evidência para nos mostrar como o mundo ficou menos colorido, menos imaginado, menos belo. Passámos a viver no mundo do imediatismo, do rápido, onde a ciência explica tudo, onde temos uma resposta para todas as coisas, onde nada é mistério.

Os termos que o autor nos traz remetem-nos para duas realidades de análise sociológica bem anteriores. Entzauberung, que cunha Disenchanting the World, é uma referência a Max Weber, que alegava que antes o mundo era cheio de espíritos, entes mágicos, mistério e histórias fantásticas. Em oposição ao mundo actual, dominado pela ciência, onde já não é necessário recorrer à magia ou ao imaginário para nos preencher.

O outro termo, Unweaving the Rainbow, é uma referência a um poema de John Keats que, por sua vez, remete para Isaac Newton. Neste contexto, alega-se que o físico inglês destruiu a beleza do arco-íris ao explicá-lo como luz refractada. Com isto, os autores, cada um nos ombros do anterior, falam do medo de que a explicação científica anule a maravilha estética e espiritual. E suma, ao sabermos como funciona, deixamo-nos, consequentemente, de maravilhar com o que é.

No fundo, fomos perdendo a capacidade de nos fascinar, de nos deixar espantar, de criar lendas e de colocarmos a imaginação a fluir. O mundo não nos surpreende, mesmo com todo o aparato noticioso. O funcionamento das coisas já não é novidade. Um qualquer avanço é quase tido como natural, como mais um passo até ao pleno tecnológico.

Mas onde anda a contemplação, a beleza estética, a fruição artística?

Ela não deixou de ser necessária. Pelo contrário. Cada vez mais jovens procuram o conceito de slow living. E, com isto, a possibilidade de aproveitar cada momento, saborear a beleza da vida, deixar-se fascinar pela natureza, pelo fantástico, pelo mágico.

Mas voltemos ao tema central. Onde anda a fruição artística?

Eu arriscaria dizer: longe da programação cultural.

A nossa programação cultural tornou-se tão política que é mais de acção do que de contemplação. E quando digo “política”, não estou a falar de partidos, nem dessa preguiça mental de reduzir tudo a trincheiras. Falo de outra coisa, mais subtil e mais penetrante. Falo da transformação da cultura numa espécie de catecismo cívico permanente, onde a obra já não chega, onde a beleza, essa palavra suspeita, precisa de ser justificada por uma utilidade exterior a ela. Como se o belo, sozinho, fosse um luxo culpado. Como se fosse um capricho de quem não percebe “o mundo real”.

Entramos numa sala e, antes de vermos, lemos. Há sempre um texto. Um enquadramento. Uma parede de intenções. Uma nota que antecede a criação e lhe pede licença. A obra passa a ser, muitas vezes, o pretexto para um argumento. O concerto torna-se plataforma para uma mensagem. O museu transforma-se num seminário. O teatro, num tribunal moral. E não é que estas dimensões sejam ilegítimas. A arte sempre conversou com o seu tempo, sempre feriu, provocou, iluminou. O que hoje me inquieta é a monotonia do gesto. Essa sensação de que a programação já chega com o veredicto escrito, e nós somos convidados não tanto a contemplar, mas a aderir.

Isto percebe-se nos bastidores, na linguagem que se vai impondo. Em vez de se falar de repertório, de risco estético, de exigência, de silêncio, de maturação, fala-se de “linhas programáticas”, de “agenda”, de “impacto”, de “sensibilização”. A cultura torna-se uma extensão da política pública, e a política pública, por sua vez, começa a escolher uma estética. E desengane-se Hegel, pois não se trata de uma estética do belo. Trata-se de uma estética do correcto, do útil, do imediatamente traduzível em comunicação. Tudo precisa de caber num cartaz e numa frase. Tudo tem de ser explicável sem resto. Tudo tem de ser defensável, como se a arte fosse um pedido de financiamento com medo da auditoria.

O efeito colateral, ou como se diria na economia, a externalidade, traduz-se num empobrecimento do espanto. Porque o espanto precisa de tempo e precisa de ambiguidade. E essa ambiguidade, hoje, é tratada como defeito. A contemplação surge quase como afronta. “E isto serve para quê?” — pergunta-se. Serve para muito, mas não se mede facilmente. Serve para nos devolver ao que perdemos quando o arco-íris foi “explicado” até ficar apenas correcto. Serve para nos lembrar que há verdades que entram sem bater à porta, precisamente porque não vêm em forma de argumento. A beleza, quando é verdadeira, não nos dá um panfleto. Dá-nos uma espécie de rendição interior. Dá-nos catarse.

E atenção. Não quero, com isto, romantizar um passado em que tudo era puro e elevado. Nem ignorar que a democratização cultural, a abertura de portas, a inclusão de públicos, a correcção de injustiças antigas, não tenham ganhos reais. Há muito de necessário em trazer para a programação aquilo que foi silenciado, em dar palco a quem não tinha voz, em discutir o que não se discutia. Mas o problema começa, precisamente, quando a discussão se substitui à obra e quando a “causa” se torna critério estético. Ou quando o programador passa a ser mais um gestor de sensibilidades do que um curador de experiências. E aí, a arte perde uma das suas funções mais humanas. Deve ser oferecer-nos um lugar onde não precisamos, por instantes, de estar sempre do lado certo. Um lugar onde podemos apenas… estar.

Então, mas e deve a Cultura ser livre? Mas livre de quê? Livre para quem? Livre como autonomia, isto é, capacidade de criar, programar e apresentar sem tutela ideológica, sem medo de desagradar, sem a necessidade de se justificar por fora? Ou livre como gratuitidade, como se bastasse abrir a porta e dizer “entrada livre” para termos resolvido o problema?

A gratuitidade, quando é bem pensada, pode ser justiça. Porque abre acessos, derruba barreiras, convida quem nunca se atreveu. Mas também pode ser um álibi demasiado fácil. Porque, às vezes, “livre” significa “sem risco”. Sem risco financeiro. Sem risco estético. Sem risco de falhar. E uma cultura sem risco é uma cultura que, lentamente, perde a capacidade de surpreender.

Mas com isto, não digo que bilheteira seja o inimigo. O inimigo é quando a cultura fica prisioneira do mercado, isto é, do imediatismo, ou quando fica prisioneira do edital, isto é, da conformidade, ou ainda, quando fica prisioneira da comunicação, isto é, do slogan. A cultura paga sempre, seja com dinheiro, ou com liberdade, ou com tempo. E, no fim, paga-se quase sempre com atenção. Essa moeda escassa que hoje é disputada como se fosse oxigénio.

É por isso que tantos procuram o slow living. E com isto não se trata apenas de fugir ao ritmo, mas para recuperar uma relação com o mundo que não seja utilitária. E o que se pede à cultura não é que se torne um serviço público de mensagens edificantes, nem um parque temático de entretenimento. Pede-se um espaço onde a vida volta a ganhar densidade. Onde há lugar para o inútil que nos salva. Para a beleza que não precisa de pedir desculpa. Para o mistério que não se traduz, mas que nos refaz.

E, se isto parece ingénuo, lembro-me de como a infância não era ingénua. Era séria à sua maneira. Acreditar que o mundo podia ser mais do que aquilo que se vê era um acto de inteligência afectiva, não um erro. Dizia Chesterton que os contos de fadas não dizem às crianças que os dragões existem. As crianças já sabem que os dragões existem. Os contos de fadas dizem às crianças que os dragões podem ser mortos. Hoje, adultos e cansados, continuamos a precisar desse “mais”. Só mudámos o nome e ficámos envergonhados de o admitir. E é por isso que, quando a programação cultural se limita a ensinar-nos o que devemos pensar, eu volto a perguntar, e sempre com a mesma esperança secreta de sempre, se não estamos, afinal, à espera de outra coisa. De uma carta. De uma passagem. De um sinal de que o mundo, apesar de explicado, ainda pode ser encantado.

E com toda a magia do Natal, e da vida, a esvair-se novamente, pergunto: afinal, não estamos ainda secretamente à espera da nossa carta de Hogwarts?