O Teatro Nacional D. Maria II captou 650 mil euros de mecenato privado em 2024, enquanto a Ópera de Paris arrecadou vinte e três milhões no ano anterior. A diferença não está na qualidade artística, está na lei. E esta diferença brutal não é nem acidente geográfico, nem capricho do destino, mas resultado direto de escolhas políticas que Portugal tem sistematicamente adiado. Envolvendo-se em exercícios retóricos sobre a importância da cultura enquanto mantém um sistema fiscal que afasta precisamente aqueles que poderiam financiá-la. E isso retorna em forma de qualidade. Mais apoios de privados não significa menos apoio do Estado, significa mais e melhor programação.

A questão do mecenato cultural português não é técnica, é civilizacional. Quando um país permite que as suas principais instituições culturais dependam quase exclusivamente do erário público, está a abdicar de uma das mais poderosas ferramentas de desenvolvimento cultural que as sociedades modernas conhecem, transformando a cultura num departamento ministerial em vez de a elevar ao estatuto de responsabilidade partilhada entre Estado, empresas e cidadãos. O resultado é previsível e está à vista de todos os que queiram ver. As instituições culturais que sobrevivem com orçamentos apertados, programação condicionada por disponibilidades financeiras limitadas, e sempre numa relação empobrecida entre o tecido empresarial e a vida cultural do país, não inovam, não crescem, não são independentes.

Mas vamos a exemplos concretos, França oferece-nos um contraste instrutivo que deveria envergonhar qualquer responsável português pela área da cultura. A Lei Aillagon, aprovada em 2003, estabelece deduções fiscais de 66% para pessoas físicas e 60% para empresas, com limites generosos que tornam o investimento cultural não apenas socialmente responsável, mas economicamente atrativo. O resultado não se fez esperar, e as instituições culturais francesas foram fomentando departamentos especializados em mecenato, profissionalizaram a captação de fundos privados, e criaram uma cultura de responsabilidade social que transforma empresários em parceiros da excelência artística. Quando a Ópera de Paris arrecada trinta milhões de euros anuais em donativos privados, não estamos perante um milagre da generosidade gaulesa, mas diante dos frutos de uma lei inteligente que reconhece o papel do investimento privado na vida cultural.

Portugal, pelo contrário, oferece aos potenciais mecenas um sistema tão complexo quanto desencorajador, onde a dedução máxima de 25% no IRS, limitada a 15% da coleta, transforma o gesto cultural numa operação contabilística de rentabilidade duvidosa. Mas, mais grave ainda, o labirinto burocrático que envolve a obtenção do estatuto de mecenato cultural é de tal forma intimidante que muitas empresas – e associações – desistem antes mesmo de começar. Estas preferem canalizar os seus recursos para causas sociais com procedimentos mais simples ou, num cenário mais dramático, abandonar completamente a ideia de investimento cultural estruturado. E quando uma empresa consegue finalmente navegar pelos corredores da burocracia e obter as autorizações necessárias, depara-se com um regime fiscal que torna a dedução tão residual que o incentivo quase desaparece na insignificância.

Esta situação não é resultado de negligência acidental, mas de uma conceção profundamente errada sobre o papel do Estado na vida cultural, herdada de décadas de estatismo que vê na cultura um monopólio público a ser protegido da contaminação privada, como se o investimento privado fosse necessariamente suspeito e o financiamento estatal constituísse automaticamente garantia de pureza artística. Esta visão não apenas é ingénua como é contraproducente, porque condena as instituições culturais a uma dependência doentia do orçamento público e priva a sociedade civil da possibilidade de participar ativamente na vida cultural do país através do seu próprio investimento.

O panorama torna-se ainda mais desolador quando analisamos a forma como os poucos recursos disponíveis para apoio cultural são distribuídos. O sistema atual favorece sistematicamente um pequeno círculo de organizações culturais que dominam os procedimentos burocráticos e mantêm relações privilegiadas com os centros de decisão, enquanto projectos culturais inovadores ou instituições de menor dimensão se veem excluídos de um sistema que privilegia o conhecimento dos procedimentos administrativos sobre o mérito artístico. Este fenómeno, que poderíamos designar de uma espécie de captura regulatória da cultura – o paraíso dos burocratas – faz com que os mesmos nomes apareçam repetidamente nas listas de beneficiários de apoios públicos, criando uma aristocracia cultural burocrática que vive mais da sua habilidade para navegar nos meandros administrativos do que da sua contribuição efetiva para a excelência artística.

As associações e empresas culturais, segundo um diagnóstico realizado pela Fundação Gulbenkian, parecem depender em 85% dos recursos públicos, criando uma situação de dependência que infantiliza o sector e o torna refém das oscilações políticas e orçamentais. Esta dependência excessiva não apenas compromete a autonomia artística dessas organizações como cria uma mentalidade assistencialista que substitui a busca da excelência pela habilidade em preencher formulários de candidatura. Quando uma organização cultural sabe que a sua sobrevivência depende mais da sua capacidade de satisfazer os critérios burocráticos dos apoios públicos do que da qualidade do seu trabalho artístico ou da sua capacidade de conquistar audiências, algo fundamental se perde na relação entre a cultura e a sociedade.

O resultado desta arquitetura institucional perversa é uma paisagem cultural empobrecida, onde a experimentação artística ousada cede lugar à programação segura, de massas, ou assente no relativismo cultural, que satisfaça os critérios dos júris de apoio público, onde a inovação é desencorajada em favor da repetição de fórmulas aprovadas, e onde o mérito artístico é secundário relativamente à conformidade com as políticas culturais em vigor. Esta não é apenas uma questão de eficiência administrativa, é uma questão de liberdade cultural, porque um sistema que condiciona o financiamento cultural à aprovação burocrática está necessariamente a limitar o âmbito das expressões artísticas que podem florescer.

Quando a maioria das organizações culturais assenta a sua tesouraria em ciclos de concursos e dotações anuais, o risco não é apenas financeiro, é, sobretudo, estratégico. As associações culturais não podem estar sempre dependentes dos apoios e programas governamentais. Estes apoios servem para alavancar os projectos e torna-los próximos das populações e, com recursos mistos, o mais autossuficientes possível.

A reforma do mecenato cultural português não pode ser um ajuste técnico da legislação existente, mas deve constituir uma transformação estrutural que reconheça o papel fundamental do investimento privado numa sociedade culturalmente desenvolvida. Esta reforma deve partir de um princípio simples, mas revolucionário para os padrões portugueses, onde a cultura de excelência não pode ser monopólio do Estado, mas sim de responsabilidade partilhada de toda a sociedade. E essa partilha deve ser facilitada e incentivada através de instrumentos fiscais que tornem o mecenato cultural não apenas possível, mas atrativo.

Uma lei de mecenato verdadeiramente reformista deve estabelecer deduções fiscais substanciais que se aproximem dos padrões europeus mais avançados, criando simultaneamente procedimentos administrativos simples e transparentes que eliminem a atual selva burocrática. Isto significa deduções de pelo menos 50% para contribuintes particulares e 60% para empresas, com limites suficientemente amplos para permitir investimentos culturais significativos, acompanhadas de um sistema de certificação que funcione em dias, não em meses, e que se baseie em critérios objetivos de mérito cultural em vez de considerações políticas ou ideológicas.

Mas a verdadeira transformação vai além dos aspetos fiscais e administrativos, porque uma reforma séria do mecenato cultural deve questionar a própria conceção que temos do papel da cultura na sociedade. Em vez de vermos a cultura como um sector a ser tutelado pelo Estado, devemos encará-la como um bem comum que beneficia de contribuições diversificadas, onde o financiamento público se conjuga harmoniosamente com o investimento privado para criar condições em que a excelência artística possa florescer sem constrangimentos ideológicos ou limitações orçamentais.

E esta visão implica também uma mudança radical na forma como as próprias instituições culturais se organizam e relacionam com a sociedade. Em vez de recursos humanos semi-alocados à captação de recursos, e que funcionam como extensões da burocracia pública, as nossas instituições culturais precisam de equipas especializadas em mecenato. Mas equipas que compreendam as motivações e expectativas dos investidores privados, que saibam comunicar o valor social e cultural dos projectos artísticos, e que sejam capazes de construir relações duradouras entre as instituições culturais e os seus mecenas.

O mecenato cultural bem-sucedido não é apenas uma transação financeira, mas uma forma de envolver a sociedade civil na vida cultural do país, criando laços de responsabilidade partilhada que enriquecem tanto os mecenas quanto as instituições apoiadas. Quando um empresário ou uma empresa decide apoiar uma temporada de ópera, uma exposição de arte contemporânea, ou um festival de música, não está apenas a transferir recursos financeiros, mas a afirmar publicamente que a cultura é um valor que merece investimento.

Esta dimensão cívica do mecenato é particularmente importante numa época em que a fragmentação social e o individualismo excessivo ameaçam o tecido comunitário das nossas sociedades. O investimento cultural privado pode funcionar como uma das formas mais nobres de cidadania ativa, permitindo que pessoas e empresas contribuam concretamente para o enriquecimento cultural das suas comunidades, criando simultaneamente um sentido de propriedade partilhada sobre as instituições culturais que transcende a relação passiva entre contribuintes e serviços públicos.

A resistência política à reforma do mecenato cultural não é apenas resultado de incompetência técnica ou falta de recursos orçamentais, mas revela uma mentalidade profundamente estatista que vê no controlo público da cultura uma forma de manter poder sobre as narrativas culturais dominantes. Esta mentalidade, herdada de décadas de centralização cultural, teme que a diversificação das fontes de financiamento possa comprometer o controlo ideológico sobre a programação cultural, preferindo manter as instituições culturais numa dependência que as torna facilmente controláveis.

A verdade, porém, é precisamente o oposto a tudo isto. Precisamos de um sistema de mecenato robusto e diversificado constitui a melhor garantia da liberdade cultural, porque reduz a dependência de qualquer fonte única de financiamento e permite que a excelência artística se afirme através da competição pelos recursos disponíveis, em vez de depender das decisões centralizadas de burocracias. Quando uma instituição cultural tem mecenas diversificados, pode permitir-se uma programação mais ousada e independente, porque não está refém das oscilações políticas que afetam o financiamento público.

O momento político é propício para esta transformação, porque a crise das finanças públicas torna evidente que o modelo atual de financiamento cultural é insustentável a médio prazo, e porque existe uma crescente consciência de que a competitividade internacional de Portugal passa também pela sua capacidade de produzir e exportar cultura de qualidade. Países com sistemas de mecenato desenvolvidos não apenas têm instituições culturais mais robustas como se tornam mais atrativos para turismo cultural sofisticado e para investimento em indústrias criativas.

A reforma do mecenato cultural português deve ser encarada como uma oportunidade histórica para reposicionar o país no mapa cultural europeu, criando condições para que as nossas instituições culturais possam competir em pé de igualdade com as suas congéneres europeias, e para que os nossos criadores tenham acesso a recursos que lhes permitam desenvolver projectos com a ambição e qualidade que o talento português merece. Mas é claro que este tipo de modelo assusta muitos dos actuais beneficiários, pois iria obrigá-los a primar pela qualidade e a repensar a base filosófica sobre a concepção do que é a cultura.

A pergunta não é se Portugal precisa de uma reforma profunda do mecenato cultural – a resposta é obviamente afirmativa para o leitor que chegou até aqui. A pergunta verdadeira é se os responsáveis políticos terão a coragem de enfrentar as resistências instaladas e a visão suficiente para compreender que esta reforma não é uma concessão ao setor privado, mas um investimento no futuro cultural do país. Mas é claro que este tipo de modelo assusta muitos dos actuais beneficiários, pois iria obrigá-los a primar pela qualidade e a repensar a base filosófica sobre a concepção do que é a cultura.

O tempo das meias-medidas e dos adiamentos indefinidos tem que acabar. E a escolha é clara, ou Portugal se junta aos países com sistemas de mecenato modernos e eficazes, ou aceita a mediocridade cultural como destino permanente.