Parece que, de tempos em tempos, cada nova geração é alvo de críticas por ser “diferente demais” da anterior. Mas, na verdade, é um ciclo: todas as gerações pensam que a sua é melhor do que a seguinte. O verdadeiro impacto de uma geração só se revela quando olhamos para os seus legados. E que legado nos promete deixar a “Gen Z”, para além de memes e likes?

Para entender melhor esta nova Geração Z, vale a pena rever as mudanças que moldaram as gerações anteriores.

Os Baby Boomers (1946-1964) reerguem-se no pós-guerra, num período de prosperidade económica e social, tornando-se os avós do trabalho duro e da crença de que “Deus ajuda quem cedo madruga”. Os da Geração X (1965-1980) marcados por um período de transição digital, incerteza económica e fragmentação familiar, são definidos como céticos e independentes, mestres do “do it yourself”. Os Millennials (1981-1996) cresceram no auge da revolução digital e globalização. Conectados, adptáveis e evangelistas do conceito “work-life balance”, valorizam experiências sobre bens materiais. E aqui estamos nós, a Geração Z (1997-2012) – na qual me incluo -, a primeira a crescer totalmente imersa no digital, com uma forte consciência social e ambiental. A saúde mental é uma prioridade, colocando o bem-estar no centro de tudo e elevando o conceito de “work-life balance” para “balance life-work”.

É impossível prever com exatidão o impacto que a Geração Z terá no futuro, mas é crucial entender que não somos apenas o reflexo das redes sociais, memes e da busca incessante por likes.

Somos a geração com mais acesso à educação. Em média, 47% dos jovens entre os 20 e 34 anos estão a frequentar ou concluíram o ensino superior (Fonte: OCDE). Isso não significa apenas mais diplomas na parede, mas uma maior consciência crítica e social. Formação esta que vem com um preço: somos também a geração com os níveis mais elevados de ansiedade e depressão. Um terço dos jovens entre os 18 e 24 anos relatam sintomas físicos ou emocionais devido ao stress (Fonte: The Guardian). Fomos criados a acreditar que podemos ser tudo, mas enfrentamos um mercado de trabalho competitivo e instável.

A “hustle culture”, onde só és valorizado pelas horas trabalhadas, já não ressoa connosco. Trabalhar até à exaustão não é sinónimo de produtividade, mas de burnout. Um estudo da Randstad revela que 56% dos trabalhadores da Geração Z priorizam o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, acima de salários mais altos.

Aqui reside um paradoxo interessante: somos a geração mais propensa a procurar ajuda para questões de saúde mental, mas também os que mais sofrem com ela. Entre 30-40% dos jovens entre 18 e 24 anos (dependendo dos países da OCDE) procuram regularmente terapia, um número superior às gerações anteriores que demonstra como o bem-estar emocional se tornou uma prioridade. Esta geração tornou-se mais exigente na forma como os serviços de saúde são prestados, e inclusive, um estudo realizado pela Accenture prevê que o mercado global de digital health deve crescer nos próximos anos, impulsionado pela demanda da Geração Z por soluções de saúde personalizadas e mais acessíveis.

Ao criarmos novas expectativas sobre como deve ser a vida moderna, somos a geração que está não só a reconhecer a importância da saúde, mas também a moldar o futuro das tecnologias de bem-estar. Desde aplicações de mindfulness a wearables que monitorizam a nossa saúde, a Geração Z está a liderar um movimento onde a tecnologia e a saúde andam de mãos dadas, colocando o ser humano no centro de tudo.

Somos muito mais do que a geração das selfies e dos influencers. Somos a geração que enfrenta um mundo complexo e desafiante, mas que também têm uma visão clara do que precisa de mudar. Um legado expressivo até à data, pode ser a criação de um novo conceito de saúde e bem-estar, onde a tecnologia serve para melhorar a vida e não apenas para nos manter conectados. A questão não é o que a Geração Z pode fazer pela sociedade, mas como podemos, juntos, quebrar barreiras e possibilitar que cada geração alcance todo o seu potencial. Sejamos catalisadores dessa mudança, independentemente do ano em que nascemos.

O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõem o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.