E se o evento mais inovador do futuro for aquele em que nos esquecemos da tecnologia?
Além de arrojada e provocadora, é uma questão que pode parecer um pouco contraditória num momento em que a inteligência artificial, a realidade aumentada, os dados e a automatização estão a transformar praticamente todas as indústrias do mundo. E, no entanto, quanto mais penso sobre o futuro dos eventos, mais acredito que esta contradição faz sentido. Vejamos.
Trabalhar em gestão de eventos é, em grande parte, como muitos sabemos, trabalhar na criação de experiências impactantes e memoráveis. Pensamos em espaços, fornecedores, conteúdos, pessoas, timings, detalhes e emoções e, inevitavelmente, pensamos também em tecnologia: como podemos utilizá-la para criar algo mais personalizado ou simplesmente inesperado? Verdade?
Hoje, as possibilidades são quase ilimitadas, sendo o céu o limite (com um orçamento à medida, obviamente!).
Podemos transformar um espaço através da realidade aumentada ou virtual, podemos utilizar a inteligência artificial para adaptar conteúdos a diferentes públicos, analisar dados em tempo real, recomendar contactos para a rede de networking, criar experiências imersivas e personalizadas adaptadas às necessidades de cada um, que, até podem ser antecipadas mesmo antes de serem verbalizadas pelos próprios. Mas, existe uma questão que me parece fundamental refletir: só porque podemos fazer alguma coisa com tecnologia, significa que devemos sempre fazê-la?
A inovação nem sempre está em adicionar mais uma camada tecnológica a uma experiência, por vezes, está em perceber que essa camada não é necessária.
Vivemos rodeados de impulsos, notificações, ecrãs, algoritmos e estímulos digitais. Por isso, paradoxalmente, algumas das experiências que mais valorizamos ao momento são aquelas que nos permitem desligar de um mundo intenso e exigente, que nos obriga inconscientemente a estar disponíveis 24h/7. E a vida é muito mais do que isso. Ao invés, damos cada vez mais valor ao silêncio, à leitura de um bom livro, a um convívio descomplicado em casa ou a um passeio junto ao mar com o nosso cão. A uma conversa sem interrupções, a um encontro inesperado, a um momento de surpresa, a uma sala onde sentimos que estamos realmente presentes. E a vida é sobre isto.
Não me julguem, mas é precisamente aqui que vejo uma das maiores oportunidades para o futuro dos eventos: utilizar a tecnologia para criar experiências mais humanas e não necessariamente mais tecnológicas.
A bendita inteligência artificial, por exemplo, pode ajudar-nos a eliminar tarefas repetitivas e a libertar tempo para aquilo que realmente exige criatividade e empatia.
Os benditos dados podem ajudar-nos a compreender melhor o público, mas continuam a ser as pessoas que transformam essa informação numa experiência com significado, ou não.
A bendita tecnologia pode dizer-nos que alguém tem interesse num determinado tema, mas não consegue garantir que essa pessoa vá ter uma conversa memorável com outra. Pode efetivamente recomendar uma ligação nas não pode criar a ligação e esta distinção parece-me fundamental, colocando o foco na componente emocional e relacional.
Durante muito tempo, falar de inovação em eventos significava falar de novidade: a tecnologia mais recente, o formato mais disruptivo, o painel led mais extravagante, a experiência mais instagramável. Hoje, talvez, na minha humilde opinião, devêssemos começar a medir inovação de outra forma e perguntar: esta tecnologia tornou a experiência melhor? Ajudou verdadeiramente as pessoas a conectarem-se? Resolveu um problema real? Criou valor ou apenas criou impacto visual?
Estas questões podem parecer simples, mas promovem o nosso critical thinking. Obrigam-nos a mudar o nosso ponto de partida e em vez de começarmos pela tecnologia começarmos pelas pessoas. E talvez seja esse o verdadeiro significado deste tema The Future of Experiences.
Porque, no final de um evento, ninguém leva para casa a tecnologia que foi utilizada na sala, mas leva sim uma memória, leva uma ideia, leva uma conversa, leva uma emoção, leva uma nova relação. É por isso que acredito que o grande desafio da próxima geração de experiências não será acompanhar a velocidade da inovação tecnológica, mas sim saber utilizá-la sem perder aquilo que nos torna mesmo humanos.
Talvez a experiência mais inovadora do futuro não seja aquela que nos faz dizer: “Uau, que tecnologia incrível!” Talvez seja aquela que nos faz esquecer que a tecnologia estava lá – porque estávamos demasiado ocupados a sentir, descobrir e conectar. A arrepiar a pele.
E não é de todo tirar o protagonismo à tecnologia, longe disso. É só fazer-nos pensar um pouco melhor sobre o interessante paradoxo de como o futuro das experiências será provavelmente menos sobre high-tech e mais uma simbiose entre high-tech e high-touch.
That, to me, is the future of experiences.