Quando nos dizem que a História é cíclica, verificamos que os ciclos afundam-se no esquecimento, porque geralmente são longos.

Porém o que se passou na eleição da Mesa da Assembleia Municipal de Lisboa, transporta-nos para um passado muito recente, sinal de uma repetição de um ciclo muito mais curto, reveladora de um desespero democrático.

Em 2015 Pedro Passos Coelho ganhou as eleições legislativas, ainda que sem maioria. A tradição que a liberdade de abril consolidou na democracia de novembro, era de que os partidos aceitavam que a força mais votada, formaria governo.

E nesses anos, na negação da rejeição dos portugueses da liderança socialista, a esquerda radical inventou uma nova tradição: mesmo que os outros ganhem a esquerda une-se para mudar as tradições.

Dez anos depois, o PS voltou a repetir o exercício, porém alicerçado na convicção que o Bloco de Esquerda é mais aceitável na democracia que o Chega atual.

E sejamos claros, o PS não caiu na esquerda por ingenuidade, mas por escolha estratégica.

Há momentos na vida pública em que o observador atento não pode deixar de franzir o sobrolho, como quem encontra uma nódoa teimosa no linho novo.

E Lisboa, sempre paciente e cortês, viu-se agora confrontada com uma dessas nódoas, onde a esquerda, contrariando a vontade dos lisboetas, decidiu estender o seu velho xaile sobre a Assembleia Municipal, não para a proteger do frio, mas para a esconder da luz.

A eleição da Mesa da Assembleia Municipal não foi, como seria de esperar numa democracia ilustrada, um exercício de respeito pela maioria.

A esquerda, minoritária, mas engenhosa, uniu-se com a pundonor dos que, não podendo comandar a nau, exigem ao menos segurar o leme do bote.

Facto revelador de um fenómeno político que merece atenção cuidadosa: derrotados para a Câmara, encontraram ainda assim forma de preservar o controlo do órgão fiscalizador através de uma nova coligação.

Tudo isto apesar de a soma dos mandatos evidenciar, clara e inequivocamente, que Lisboa votou maioritariamente à direita.

As forças políticas à direita (PSD, Chega, IL e CDS) totalizam 38 deputados municipais, já as forças políticas à esquerda (PS, Livre, BE, PAN e CDU) apenas 37.
E, mesmo assim, é a esquerda que passa a presidir à mesa do órgão que fiscaliza o executivo.

Na sessão de instalação, o novo presidente da Assembleia Municipal, eleito pelo PS, ensaiou palavras de equilíbrio, moderação e respeito institucional.
Porém, o discurso não sobreviveu ao eco das paredes.

Pouco depois, Alexandra Leitão anunciava que não viabilizaria orçamentos nem facilitaria propostas estratégicas do executivo de Carlos Moedas.
O que podia ter sido um gesto de cooperação institucional transformou-se numa declaração de guerra política.

Tudo isto, porque sabe que não tem maioria na Assembleia Municipal.
Sabe até que a vontade dos lisboetas se inclinou para a direita.

Mas, sabendo tudo isto, insiste em governar o órgão deliberativo contra a maioria, como uma trupe que, escorraçada do palco principal, se pendura nos arames do cenário para continuar a gesticular perante o público.

E assim, o discurso de equilíbrio de André Moz Caldas caiu morto ao chão.

Não chegou a viver o tempo de uma badalada do sino da Sé.

Esta contradição ensaiada, impele-nos para uma dura realidade. Não vai existir colaboração e respeito. A AML será o palco do cerco das esquerdas à governação de Carlos Moedas e tudo farão para minar a concretização da ambição que Moedas quer para Lisboa.

Ora Lisboa não merece esta pantomima.

A situação exige uma clarificação, já que o PS recusou aceitar o convite para integrar uma lista encabeçada pela primeira eleita com mais votos (Margarina Mano), e porque a vontade dos lisboetas foi expressa nas urnas com uma maioria de direita, então deve ser essa maioria a presidir à Assembleia Municipal.

E é precisamente aqui que o PSD, responsável pela governação municipal, não vai permitir qualquer redoma de equívocos. A cidade exige clareza. Exige respeito pelo voto. Exige que a maioria que elegeu a direita para liderar a Câmara tenha também voz e dignidade na Assembleia Municipal.

Este PSD, porque pode dispor de uma maioria, não a irá entregar à esquerda radical. Não mais se repetirá qualquer geringonça que prejudique a cidade, como a de 2015 prejudicou o país.

E, curiosamente, numa ironia dos tempos, o Chega tem mostrado sinais de moderação na AML. Não atacou, não invadiu as mesas da ponderação. Absteve-se porque exigia o reconhecimento da sua relevância num quadro onde, tradicionalmente, o ignoravam.

Para melhor descrever os próximos passos, permito-me a plagiar e adaptar a frase célebre de Eça, esse moralista irónico que via o país como uma casa burguesa onde tantas vezes se varre o lixo para debaixo do tapete:

Esta Mesa da Assembleia Municipal não cairá porque não é um edifício;
sairá com benzina porque é uma nódoa.

E a benzina, no caso, é a democracia.