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Porque é que os partidos políticos, a base da democracia moderna, se tornaram a raiz de todos os males, responsáveis por todos os problemas do país? Os partidos são apontados como “o sistema”, aquela entidade sinistra que impede os portugueses, todos e cada um, de cumprirem o destino sonhado. À esquerda ou à direita, não há demagogo populista que não subscreva esta visão.

Convenhamos que o facto de nos últimos anos alguns responsáveis políticos se terem mostrado indignos da confiança que os eleitores neles depositaram também não contribuiu para a imagem da política. Para mudar isto, os partidos têm desde logo não só de formar mas também de atrair os melhores. Técnica e eticamente. E aqui o que tem de valer é a qualidade das pessoas. Não é por se ser de um partido que se é mau, nem por se ser independente que se é bom.

Nas democracias representativas quem assume a função de converter a vontade das pessoas no rumo do país são os partidos. Muito simplesmente, não há democracia sem partidos políticos. A questão de fundo é como adaptar esse papel histórico à realidade do século 21. Como adaptar estruturas criadas no século 19, a funcionar com programas e ideologias do século 20, às práticas e às urgências do século 21.

Que os partidos têm de se transformar é uma evidência – e uma evidência a nível global. Se Tsipras, Iglesias, Wilders, Le Pen ou Trump tomaram conta do espaço público, ou dos governos, foi porque os políticos do modelo habitual perderam a iniciativa. Por razões várias, os partidos tradicionais tornaram-se incapazes de produzir inovação. Iniciativa e rasgo para elaborar novas visões concretas para as comunidades e os países – zero, ou perto disso. Neste ambiente, a única diferença entre os partidos tradicionais é sobre quem é o melhor administrador da situação.

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E assim os cidadãos perdem a fé nos políticos, desconfiam das lideranças, deixam de conseguir ver naquelas figuras alguém que possa representar os interesses das pessoas. Pior, deixam de acreditar que conseguem influenciar a política. O resultado mais visível desta falta de confiança nos partidos e nos processos é uma participação eleitoral menor – e quase sempre em baixa.

Em Portugal, em comparação com a média europeia, os números são alarmantes. Nos últimos anos, o nível de apoio aos partidos chegou a descer até aos 15 por cento da população. À escala nacional, desconfiamos mais dos partidos e do Parlamento (e do Governo e da Justiça) do que acontece no resto da Europa. Temos eleições em Portugal sem a participação de mais de metade dos eleitores. As últimas autárquicas são o exemplo mais grave. Isto põe em causa a própria democracia. É contra isto que temos de agir.

Os caminhos da adaptação dos partidos ao século 21 não são propriamente um mistério. Se estivermos atentos, os sinais são claros. A primeira obrigação dos partidos é ouvir as pessoas. E ouvir as pessoas nunca foi tão fácil, desde logo com a evolução tecnológica da última década, redes sociais à cabeça, mas não só. Estas ferramentas, se permitem às pessoas partilhar as suas opiniões, persuadir e mobilizar-se com força e rapidez, permitem aos partidos que tenham iniciativa e o ouvido bem aberto envolverem-se com as suas comunidades, promovendo o diálogo que falta. Não o fazendo, e tendo as pessoas entre si possibilidade de o fazer sem eles, os partidos condenam-se à irrelevância.

Este caminho poderia promover a tentação de trocar a democracia representativa – como disse Churchill, um mau sistema tirando todas as alternativas – por uma forma moderna de “democracia directa”, de governar os partidos por sondagem, das redes sociais ou outra. Ora, isto não faz sentido nenhum, até porque a maior parte dos desafios que hoje enfrentamos não se resumem a simples questões de “sim” ou “não” nem têm soluções instantâneas.

Os partidos têm é de trabalhar mais com a sociedade, utilizando os instrumentos disponíveis. Numa palavra, os partidos têm de se refundar, não na dimensão ideológica, mas sim na sua atitude e organização interna.

Mas o problema não se reduz aos partidos políticos. Está também na organização do Estado. E aqui a resposta tem duas dimensões. Em primeiro lugar, a da relação dos eleitos com os eleitores. Uma das causas do afastamento entre eleitos e eleitores é a falta de ligação entre os dois. É comum elegermos listas de representantes onde só conhecemos o cabeça de lista e um ou outro candidato.

Por isso, sendo Portugal uma democracia representativa, vale também a pena discutir os círculos uninominais, numa lógica de ligar melhor os eleitores às caras que os representam. Porém, não podemos perder o fio condutor da visão nacional, integrada. Significa que aos círculos uninominais é preciso juntar um círculo nacional onde caiba a visão dos partidos para a sociedade que servem, reunindo uma visão nacional e várias visões locais.

A segunda dimensão é a relação dos eleitores com o território. O serviço público não é um acto administrativo ou burocrático. É identificar e resolver problemas. Não faz qualquer sentido que na estrutura do Estado o mapa da Saúde seja diferente do da Justiça, que não coincide com o da Educação, e os três por sua vez nada tenham a ver com os mapas político e dos bombeiros – que também são diferentes entre si.

Com um Estado organizado desta maneira, é impossível haver uma relação eficiente e produtiva dos cidadãos com quem governa o país a todos os níveis da administração pública. Assim nunca iremos garantir lógica na acção, compreensão das comunidades, e uma correcta percepção e organização dos territórios e das competências que eles podem desenvolver para dar resposta às pessoas.

Os partidos têm de se reorganizar, de se abrir. Mas o Estado também tem de se tornar lógico e encorajador da participação política.

Luís Newton é presidente da Junta da Freguesia da Estrela e Conselheiro Nacional do PSD