Desde a caminhada à padaria do bairro até uma ida ao cinema, passamos muito tempo da nossa vida a deslocar-nos. Essa é, de certa forma, a fotografia do que ainda são muitas das nossas cidades e uma nova iniciativa europeia veio confirmar algo que sentimos todos os dias: vivemos em cidades que ainda estão longe de ser “de 15 minutos”.
O Friendly City Index, lançado pela Bolt em nove países da Europa Central e de Leste, revela que a maioria das pessoas precisa de pelo menos meia hora para chegar à maioria dos destinos do seu quotidiano. As exceções, onde é possível viver, trabalhar e tratar da vida a um quarto de hora de distância, são poucas e concentram-se em cidades pequenas, com menos tráfego e um ritmo mais humano.
Portugal não entrou neste levantamento, mas não é difícil imaginar que o panorama seria semelhante ou até mais severo. Basta pensar nas filas de trânsito em Lisboa e no Porto às oito da manhã ou no tempo que por vezes se despende em transportes públicos pouco articulados. E, mesmo em cidades mais pequenas, onde tudo deveria estar perto, continuamos a depender de carro próprio para quase tudo. São sintomas de cidades de 30 minutos. Ou mais ainda.
O conceito da “cidade de 15 minutos” nasceu da ideia de que a vida devia caber num círculo pequeno. Ter o trabalho, a escola dos miúdos, o supermercado, o café e o jardim por perto, para se poder ir a pé, ou mesmo de bicicleta ou trotinete. É menos uma questão de tempo e mais uma questão de equilíbrio e bem-estar. Menos stress, menos gasolina, mais tempo livre.
Os dados recolhidos mostram também algo interessante: quem mais se aproxima desse ideal, não são aqueles que vivem em cidades mais ricas ou com transportes mais modernos, mas os que escolhem deslocar-se de forma alternativa. Os mais novos, por exemplo, combinam bicicleta, transporte público e até transportes partilhados como os TVDE’s nas suas deslocações. E conseguem chegar mais rapidamente quando comparado com quem prefere o transporte privado. No caminho, a cidade melhora.
Em Portugal, é justo dizer que há sinais de mudança. Há mais ciclovias, zonas 30 e serviços de micromobilidade do que há cinco anos. Mas a cultura do carro ainda pesa muito. Continua a prevalecer o reflexo automático de “vou ali” e pegamos no carro. E enquanto isso não mudar, vamos continuar presos ao mesmo tempo e ao mesmo trânsito.
Gosto de pensar que a cidade dos 15 minutos não depende exclusivamente dos planos urbanísticos, mas também da forma como vivemos nela. Podemos começar por pequenas mudanças. Explorar o nosso bairro a pé, ir de bicicleta ao ginásio, experimentar deixar o carro em casa de vez em quando, trocar uma ida a um hipermercado por uma caminhada a um mercado local. Pequenos gestos que vão transformando o nosso quotidiano e, no fundo, as nossas ruas.
As condições de uma cidade de 15 minutos ainda não estão criadas, mas não podemos esperar. Temos de começar a vivê-las de forma mais humana agora e a mudar, ainda que aos poucos, a forma como nos deslocamos nelas.