A Espanha, e Portugal também, respiram hoje de alívio, após o anúncio do governo espanhol de Sánchez que, numa reviravolta de quase última hora, decide agora prolongar o funcionamento das centrais nucleares espanholas, após a feroz oposição e hostilidade demonstradas a esta tecnologia durante praticamente todo o mandato.
E não é de admirar, pelo menos do ponto de vista pragmático: estas centrais são um grande pilar de segurança e independência energéticas, e de estabilização do preço da eletricidade na península ibérica, cuja importância veio a ser realçada com a subida dos preços de petróleo e gás devido à guerra entre os EUA e Irão no Golfo Pérsico.
E a segurança?
A indústria nuclear é das indústrias mais reguladas e supervisionadas do mundo, sendo a indústria aeronáutica provavelmente a única comparável. Por outro lado, tal como o avião é o meio de transporte mais seguro, a energia nuclear também se encontra entre as mais seguras, apresentando fatalidades por kWh produzido equiparáveis à energia solar e eólica.
No caso espanhol, as centrais são reguladas e supervisionadas pelo regulador nacional espanhol CSN (Consejo de Seguridad Nuclear). Sem a permissão deste, não é possível o funcionamento destas. O regulador não autoriza o funcionamento das centrais sem que todos os requisitos para funcionamento seguro se verifiquem, e tem sempre a última palavra neste aspeto. Além do mais, existem representantes do regulador em permanência em todas as centrais nucleares, sendo que estes dispõem de autoridade total de acesso a qualquer das instalações da central a qualquer momento, dispensando permissão do operador, e de autoridade para ordenar o encerramento de um reator caso verifiquem que os requisitos de operação não estão cumpridos.
Uma central não se torna insegura simplesmente porque atingiu a idade de projeto inicialmente prevista. O que determina se pode continuar a operar é o seu estado efetivo, avaliado através de inspeções e sujeito à autorização do regulador. Tal como é o caso para qualquer infraestrutura, como pontes, túneis, ferrovias, etc. A vida destes pode ser estendida quando se verifique o bom estado de preservação, ou através de manutenções/renovações. Há exemplos de várias infraestruturas no país que já ultrapassaram o tempo de vida de projecto inicialmente atribuído e que continuam em operação sem quaisquer problemas. Alguns exemplos: Barragem de Castelo de Bode (com fim de vida inicialmente previsto em 2015), além de 24 outras barragens portuguesas!; Ponte D. Luiz I (atualmente com 140 anos) no Porto; vários túneis ferroviários do século XIX; ou até linhas e transformadores da própria rede elétrica nacional (com tempo de vida inicialmente previsto de 30 anos).
No caso do nuclear, nos EUA existem reatores inicialmente com licença para 60 anos que, devido ao seu excelente estado de conservação, foi-lhes concedida licença pelo regulador (NRC) para operação até aos 80 anos. Em vários destes, o estado de conservação é tal, que extensão até aos 100 anos ou mais se prevê provável. A Central de Almaraz, também de design americano (Westinghouse, modelo PWR 3-loop) opera há apenas 43 anos (iniciou operação em 1983).
“Reatores nucleares envelhecem como um bom vinho”
Estes reatores também não se mantêm estáticos no tempo: em vez disso, tendem a “envelhecer como um bom vinho”. Vão recebendo vários upgrades ao longo do seu tempo de vida, de modo a que todos os requisitos de segurança prévios e novos sejam respeitados. Por exemplo: pós-Fukushima foram instalados dispositivos como “Recombinadores de Hidrogénio” de modo a prevenir incidentes com fugas de hidrogénio, integrando lições modernas. Adicionalmente, com a atualização de certos componentes, os reatores podem ainda receber upgrades de potência, melhorando ainda mais a sua rentabilidade económica.
Justificam-se as críticas da Associação Zero ao prolongamento?
Infelizmente, associações ambientais como a Zero recusam-se a arredar pé da sua oposição à energia nuclear, oposição essa que não se baseia em ciência, e não serve nem o ambiente nem os portugueses. Países como a Alemanha, que encerraram os seus reactores, já reconheceram o tiro no pé que tal decisão representou e os danos que isso causou, não só à economia (com um dos preços de eletricidade ao consumidor mais elevados da Europa apesar dos subsídios que dá ao setor), mas também ao ambiente, sendo que a electricidade que de outro modo seria fornecida por nuclear, teve de ser fornecida por fontes como o carvão. Associações como a WePlanet Portugal, a única associação ambiental pró-nuclear em Portugal, reconhecem a importância da energia nuclear num mix elétrico saudável.
Mas há sinal de esperança. A extensão da operação das centrais espanholas parece ser o primeiro passo para aprender com os erros dos outros, e evitar que a Ibéria os repita.