Descobrimentos

Descobrimentos espanhóis, navegadores estrangeiros

Autor
  • Jorge Couto

Os nacionalistas espanhóis deveriam reflectir sobre o facto de as mais relevantes viagens marítimas espanholas anteriores a 1519 se deverem a estrangeiros, uma linhagem em que entraria a de Magalhães.

Lavra intensa indignação nos meios nacionalistas espanhóis pela decisão de Portugal e Espanha de apresentarem uma candidatura conjunta à UNESCO no sentido de classificar a Primeira viagem de Circum-Navegação (1519-22) como Património da Humanidade. Estes protestos encontraram entusiástico eco no diário madrileno ABC, seu tradicional porta-voz.

É um facto histórico inegável que a decisão política e o financiamento da viagem foram da responsabilidade do primeiro rei de Espanha, Carlos I de Habsburgo (r. 1516-56), mas, como já foi amplamente demonstrado, sobretudo no recente livro de Luís Filipe Thomaz, O drama de Magalhães e a Volta ao Mundo sem querer… (Lisboa, Gradiva, 2018), os conhecimentos científicos e náuticos, bem como os pilotos que a tornaram possível eram portugueses.

Os nacionalistas espanhóis deveriam reflectir sobre o facto de as mais relevantes viagens marítimas espanholas anteriores a 1519 se deverem a estrangeiros, na linhagem dos quais se viria a incorporar Fernão de Magalhães.

A primeira viagem de Colombo (1492): as Antilhas

O genovês Cristóvão Colombo (1451-1506), depois de uma estada de vários anos em Portugal (c. 1476-84), onde aprendeu a navegar no Mar Oceano, designadamente a descrever a “volta pelo mar largo” na viagem de regresso a Lisboa a partir da Mina, procurou em Castela apoio para o seu projecto de alcançar a Ásia através do Atlântico ocidental que lhe havia sido recusado por D. João II de Portugal (r. 1481-95).

Concluída a conquista de Granada (Janeiro de 1492), Isabel I de Castela (r. 1474-1504) decidiu finalmente financiar a expedição do genovês (Capitulações de Santa Fé, 17 de Abril de 1492). Não se tratava de sufragar “a maior quimera da História” (Emílio Sola Castaño), mas de explorar a única possibilidade que se apresentava a Castela de se antecipar a Portugal na chegada à Índia e ao rico mercado asiático das especiarias sem violar o Tratado de Alcáçovas (1479).

Da primeira viagem de Colombo (1492-93) resultou a descoberta de cinco ilhas das Antilhas (entre as quais Cuba) por ele consideradas como pertencentes a um grande arquipélago adjacente à Ásia e que formariam uma guarda-avançada da sua principal unidade, o Cipango (Japão). Em consequência dessa viagem, Colombo foi investido nas funções de vice-rei das Índias (das quais viria a ser destituído) e nomeado primeiro Almirante do Mar Oceano, cargo em que lhe sucederia o luso-genovês Diogo, seu primogénito.

A terceira viagem de Colombo (1498): finalmente um continente, não o asiático mas um Novo Mundo

Na sua segunda viagem (1493-94), Colombo somente reconheceu três novas ilhas (Guadalupe, Porto Rico e Jamaica). Perante a falta de resultados em descobrir o continente asiático, o genovês decidiu (30 de Maio de 1498) enviar o grosso da armada da sua terceira expedição pelo percurso tradicional e, ao comando de três navios, percorrer um “caminho não acostumado”, escolhendo como base de partida para Ocidente as ilhas de Cabo Verde (Boavista e Santiago) em vez das Canárias. Tal facto só foi possível porquanto os reis de Portugal, D. Manuel I (r. 1495-1521) e sua mulher, D. Isabel, filha mais velha dos Reis Católicos, tinham sido jurados herdeiros do trono de Castela (Toledo, 28 de Abril de 1498). Nessa circunstância única na História peninsular, o Venturoso autorizou a entrada dos navios castelhanos no hemisfério português delimitado pelo Tratado de Tordesilhas (1494).

Foi exactamente porque optou por uma nova rota que Colombo avistou a ilha da Trindade (31 de Julho de 1498), efectuando, seguidamente, o primeiro desembarque no continente americano (5 de Agosto) numa região a norte do rio Orinoco, na costa da actual Venezuela. Assim, o moderno reconhecimento do continente americano ficou a dever-se ao genovês Colombo. No entanto, devido a várias peripécias, viria a ostentar o nome de um florentino: Américo Vespúcio (1454-1512).

Apesar dos desesperados esforços para encontrar a Ásia pelo Ocidente, os espanhóis apenas conseguem pôr um pé no Mar do Sul (futuro Pacífico), por via terrestre, após a expedição de Vasco Núñez de Balboa ter cruzado o istmo do Panamá (Setembro de 1513), no mesmo ano em que o português Jorge Álvares alcançou o litoral da China, tornando-se no primeiro europeu a lá chegar por via marítima.

O reconhecimento da Bacia Platina: a viagem de João Dias de Solis (1515-16)

O piloto português João Dias de Solis refugiou-se em Castela devido a ter assassinado a mulher. A sua perícia na arte náutica garantiu-lhe um lugar de piloto na Casa de Contratación (1508), integrando desde então o restrito grupo dos quatro maiores peritos náuticos ao serviço desse reino.

As informações fornecidas por Solis ao então regente de Castela, Fernando II de Aragão, de que a Coroa de Castela tinha direito a territórios a sul do Brasil, explorados pela expedição portuguesa de 1511-12, levaram o governante a com ele celebrar, em Novembro de 1514, uma capitulação que o incumbia de descobrir, de forma muito secreta, as terras que se encontrassem a sul da linha de demarcação e de procurar uma ligação marítima ao Oriente.

A expedição de Solis zarpou de Sanlúcar a 8 de Outubro de 1515, atingindo, em Fevereiro do ano seguinte, o rio baptizado de Solis (futuro Prata). Penetrou no seu estuário, onde se deu um violento recontro com ameríndios do qual resultou a morte de Solis e de muitos dos seus tripulantes. Na viagem de regresso (1516), a caravela de Francisco de Torres fez escala na baía da Guanabara e recolheu o piloto João Lopes de Carvalho, profundo conhecedor da costa sul-americana austral, que aí fora deixado  em regime de punição (1511). Foi este o homem que Magalhães viria a recrutar em Sevilha para conduzir a sua expedição.

Os pilotos da Casa de Contratación (1508-52)

Uma das instituições que a Coroa de Castela criou para executar a sua política ultramarina foi a Casa de Contratación (Sevilha). Um dos cargos mais relevantes deste organismo era o de piloto mayor, a quem competia coordenar a política náutica castelhana e recrutar pilotos régios. O primeiro titular do cargo foi o florentino Vespúcio (1508-1512), que havia efectuado viagens ao serviço de Castela na costa americana a norte do Equador. Mas o factor que mais deverá ter influído na sua escolha terá sido o de ter realizado duas extensas viagens no Atlântico austral, integrado nas esquadras de Gonçalo Coelho que, em 1501-02 e 1503-04, procedeu a minuciosos reconhecimentos da costa do Brasil e, sobretudo, por aprendido a usar o revolucionário “método de navegação astronómico” que permitia navegar em todos os quadrantes de qualquer oceano.

O segundo titular foi o português Solis (1512-16) e o terceiro o veneziano Sebastião Caboto que desempenhou as funções em 1518-47. Somente em meados de Quinhentos, um piloto espanhol assumiu tão importante cargo: Alonso de Chaves (1552-86).

***

Em suma, as mais relevantes viagens marítimas castelhanas de finais do século XV e de inícios do XVI foram induzidas do exterior, não resultando de uma política expansionista, nem de desenvolvimentos científicos e técnicos que as viabilizassem. Daí o papel determinante que nelas desempenharam muitos navegadores, pilotos, cartógrafos e outros técnicos navais estrangeiros.

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