A estratégia desenvolvida por Afonso de Albuquerque para a expansão — e, depois, a consolidação — da presença portuguesa em terras do Oriente assentou, de forma significativa, na intervenção de um grupo de capitães, recrutados entre gente com provas dadas, um grupo relativamente pequeno, bem adestrado e, quase sempre, coeso. Era um sistema usual na época, mas o capitão-geral e governador da Índia apurou-o, imprimindo-lhe disciplina, a par de autonomia e flexibilidade. O modelo funcionou, em larga medida, graças ao facto de os colaboradores de Albuquerque se revelarem bastante aptos, tanto nos cenários do mar como nos de terra, à execução dos arrojados planos que o seu superior delineara, mesmo quando as circunstâncias implicavam alterações de última hora.

Figura maior de tal escol de militares e administradores, Diogo Fernandes de Beja foi um dos braços-direitos do Terribil. Ressaltou, neste e noutros serviços, por aliar o conhecimento da navegação e a perícia castrense, dois utensílios fundamentais nos contextos em que o Império se firmava, à argúcia política e ao rigor para gerir a vida pública (realidades já não tão frequentes entre homens de armas). Depositando grande confiança nas capacidades do fidalgo alentejano, Afonso de Albuquerque entregou-lhe algumas das principais missões levadas a cabo durante o seu governo, de carácter militar, diplomático ou tão-só administrativo, visando a consolidação de uma hegemonia lusa sobre o Índico. Coube à nau comandada por Fernandes o destino de ser o local onde o «Leão dos Mares» faleceu, em 1515.

De Beja para Lisboa — e de Lisboa para o Oriente

Uma aura de mistério rodeia as origens de Diogo Fernandes. Ignora-se a data do seu nascimento, tal como se ignora o local onde isso aconteceu, não obstante o apelido Beja, associado ao nome e sobrenome, possa indicar, com verosimilhança, a sua terra de origem. A dúvida é antiga. Cristóvão Rebelo de Macedo, numa obra manuscrita, datada de 1625 e intitulada Diálogos que Tratam da História, Antiguidades, e de Algumas Famílias da Sempre Nobre, e Leal Cidade de Beja, narrativa da fictícia jornada de quatro fidalgos naturais da cidade a Roma, para ganharem o Jubileu, ocupou-se com razoável pormenor do assunto.

Segundo Constantino, um dos interlocutores nos diálogos travados entre esses peregrinos, o egrégio conterrâneo descendia de uma «geração, muito nobre», que existiu em Beja, conquanto não fosse natural dela: vinha de Óbidos, no Couto de Alcobaça, e usava dos apelidos de Fraga, Saraiva e Valadares. Outro participante, Apolo, especula sobre a introdução do toponímico e sugere que lhe possa haver sido atribuído pelos cidadãos bejenses, devido aos seus feitos, em sinal de agradecimento e de honra da pátria, ou, então, pelos escritores que, «por não lhe saberem o nascimento», recorreram à povoação onde viu a luz do dia. Sendo Fernandes a um patronímico bastante comum, o acrescento da designação do berço serviria para o distinguir fora de Beja e acabou por ganhar foros. Este sobrenome, aliás, denotava regionalmente, em não raros casos, extracção social elevada, atestando nítida marca toponímica (como é o caso de A-dos-Fernandes, no termo de Almodôvar, um exemplo a ponderar).

Ainda de acordo com Rebelo de Macedo, novamente pela voz de Apolo, Diogo Fernandes foi neto de Leonel Fernandes Fraga, vedor da fazenda da infanta D. Brites, esposa do infante D. Fernando, 1.o duque de Beja — os pais do futuro D. Manuel I —, e filho de Álvaro Fernandes de Valadares, que sucedeu ao progenitor no dito cargo. Tratava-se, pois, de uma linhagem da nobreza provinciana, a viver na órbita da casa ducal e a participar do quotidiano da respectiva corte, embora averbando influências mais latas. Quando D. Manuel, 4.º duque, ascendeu ao trono, em 1495, surgiram oportunidades para a descendência do vedor, agora na corte do novel rei, o qual não deixaria de rodear-se de pessoas de confiança, que já tinham servido lealmente, a si e aos seus.

Nessa altura, decerto em atenção aos méritos familiares, Diogo recebeu uma tença anual de 10 000 réis e passou a gozar do estatuto de moço de Câmara. Contando apenas doze anos, deu provas de intrepidez que causaram espanto em Lisboa e agradaram a D. Manuel, não tardando a ser chamado à carreira das armas. Terá ido para a Índia, em 1503, na primeira armada de Afonso de Albuquerque, que partiu com o objectivo de auxiliar o rajá de Cochim (Kochi), em luta contra um inimigo comum, o samorim de Calecute (Kozhikode), garantir a segurança da feitoria portuguesa aí existente e erguer uma fortaleza. A expedição cumpriu o desejado, assegurando um ponto estratégico fundamental ao policiamento do tráfego no Oceano Índico, algo que se fortaleceria, mais tarde, através da conquista de entrepostos com a relevância de Goa e Malaca. Logrou, outrossim, estabelecer relações comerciais com a distante cidade de Coulão (Kollam).

O rei acolheu entusiasticamente Albuquerque e os seus homens no regresso a Lisboa. Diogo Fernandes não deixaria de beneficiar desta atmosfera favorável. Uma vez em Beja, casou com uma senhora da família dos Raposos, Isabel Borges, enlace que o forçou a fazer face à oposição de um irmão — ou tio — dela, João Gomes Raposo. Num inevitável duelo, acabaria por matá-lo. A intervenção do conde do Prado, D. Pedro de Sousa, alcaide-mor da terra, obstou a que também ele fosse morto, agora às mãos dos parentes do defunto. Acolhido na corte pelo soberano, não recebeu qualquer castigo, visto esperá-lo nova jornada em partes do Oriente.

Veio a integrar a armada que saiu de Lisboa, em 1506, levando Albuquerque para a sua segunda missão, com o posto de capitão-mor da «Costa da Arábia», mas incumbido, em segredo, de substituir o vice-rei D. Francisco de Almeida na administração da Índia, assumindo os cargos de capitão-geral e governador (como realmente aconteceu). Quanto ao filho de Álvaro Fernandes de Valadares, devia já desfrutar da estima do responsável pela expedição. Cabe referir que os seus irmãos também usufruíram das ligações privilegiadas com a corte, granjeando o desempenho de elevados postos: um outro Álvaro Fernandes de Valadares, o primogénito da família, sucederá ao pai no serviço de D. Brites; Duarte Fernandes Saraiva ascenderá, com o tempo, a tesoureiro-mor do Tesouro do Rei; e João Fernandes, talvez menos falado, apesar de não menos preponderante, tornar-se-á o primeiro feitor de Cochim.

Lançar os fundamentos do Império, no mar e em terra

Foi na presente conjuntura que Diogo Fernandes de Beja alcançou proeminência sob as ordens de Albuquerque, que fez dele um dos seus principais capitães. Demonstrou ser tão exímio na qualidade de navegante como na de cabo de guerra ou, ainda, na de enviado diplomático ou de gestor de homens e bens — vertentes fulcrais, todas elas, para a afirmação de um Império «nascido do Mar» (Charles Ralph Boxer). A sua intervenção nessas e noutras funções de responsabilidade encontra-se largamente descrita por cronistas dos meados de Quinhentos, entre eles Fernão Lopes de Castanheda, João de Barros e Gaspar Correia, além do próprio biógrafo do rei D. Manuel, Damião de Góis.


Fac-símile da assinatura de Diogo Fernandes de Beja, num documento de 1521 (Arquivo Nacional da Torre do Tombo).

As narrativas dos autores que citamos, afeitas à exaltação das façanhas honrosas (ou desonrosas) em prol da gesta imperial, com base nas acções de figuras a quem se atribui a condução dos principais acontecimentos históricos, revelam um enviesamento, de pendor biográfico, e não só, opção deveras característica da época. Sem dúvida, «contaminaram» posteriores interpretações de factos e, até, de contextos, na historiografia romântica, marcada por ideais nacionalistas e profundamente associada à valorização do papel do herói na História — conceitos que atingiriam o clímax com a historiografia produzida no quadro de um outro nacionalismo, o do Estado Novo, a pretexto da apologia do Império Colonial Português. Elencamos, nesta sinopse, vários aspectos fundamentais da prosopografia de Diogo Fernandes de Beja, com a noção de que persiste a necessidade (para evitar incidir em algum tipo de prosopopeia) de um escrutínio aprofundado das fontes documentais mais «directas», quer as portuguesas, quer as dos territórios de Além-Mar onde operou.

Em 1510, na sequência da malograda tentativa de conquista de Calecute, hoje Kozhikode, por uma expedição que levava à cabeça o marechal D. Fernando Coutinho, recebeu instruções de Afonso de Albuquerque para acudir em seu auxílio, cabendo-lhe garantir a retirada das forças portugueses, nas quais se incluía o próprio governador, já ferido. Agiu com assinalável eficácia, ao ponto de, em sucessivas ocasiões, salvar Albuquerque: sempre que o inimigo o visava ou se aproximava em excesso, defendia-o com o próprio corpo, tarefa nada fácil, dado ter estatura mediana, quando comparada com a do representante do rei, um homem alto. Tal facto consolidou a amizade dele por Diogo Fernandes, a quem passou a chamar «padrinho», asseverando dever-lhe a vida. Forjara-se, entre os dois, um vínculo indelével.

O governador incumbiu-o, seguidamente, de missões arriscadas, começando pela reparação do castelo da baía de Cintacora (Carwar). Assumiu também o comando do embarque clandestino das gentes de Goa, no dia triste em que Albuquerque teve de abandonar a cidade, sitiada pelas hostes do sultão de Bijapur, Yusuf Adil Shah, o Hidalcão. Durante a intensa peleja com as tropas deste soberano, demonstrou grande ousadia, mesmo após ter sido alvejado. Uma iniciativa de supremo arrojo foi a de subir o rio com a sua galé, até onde aguardava o Hidalcão, rodeado pelo estado-maior, vencendo as fustas que foram mandadas para incendiar a frota portuguesa. Feitas as pazes, ele mesmo encabeçou um grupo de reféns que, a dado momento do processo, ficou sob a alçada de Yusuf Adil Shah, o que evidencia o valor em que era tido na região.

Ainda em 1510, participou na segunda e definitiva conquista de Goa, tendo papel assaz relevante ao longo de várias fases desta campanha, em que deu provas, mais uma vez, do seu engenho bélico. Foi o primeiro, aliás, a entrar na cidade. Todavia, nunca desguarneceu a coluna de Albuquerque e, quando os adversários procuraram voltar sobre Goa, assumiu o encargo de os repelir. Com sentido táctico, fomentou a desordem entre eles, o que acabaria por se revelar muito útil para as forças portuguesas os baterem.

No ano seguinte, o governador, saindo em direcção ao Mar Roxo, tornou-o capitão-mor da esquadra que cumpriu a rota do cabo Guardafui (Raas Caseyr ou Ras Asir), a fim de desmantelar a fortaleza da ilha de Socotorá (Socotra ou Suqutra). Esta praça-forte tinha sido erguida, a partir de 1507, quando os portugueses consideraram que representava um enclave estratégico para a fiscalização do Mar Vermelho, até porque aí habitava uma comunidade supostamente cristã. Porém, a esterilidade da terra, demasiado seca, o que impedia que as culturas agrícolas medrassem, e o seu isolamento em território fustigado pelo inimigo, a partir do vizinho Iémen, obrigaram a abandoná-la. Diogo Fernandes ordenou demolir os edifícios até aos alicerces e recolheu a guarnição, a artilharia e os outros apetrechos que podiam ser úteis em Goa, tudo deixando ao cuidado do feitor da cidade. Trouxe igualmente mais de duzentas mulheres e outros «cristãos» residentes na ilha.

Com Afonso de Albuquerque ausente, Goa ficara vulnerável às investidas dos adversários. Fernandes assumiu a direcção dos negócios da cidade e, usando de fino tacto político, cuidou de administrá-la, restituindo seja aos moradores, seja aos que vinham mercadejar. Nessa senda, empenhou-se pessoalmente em aplacar dissidências, garantir as eleições dos vereadores, favorecer a construção de igrejas e diversas outras medidas que tiveram impacto positivo na comunidade. Meses depois, quando o capitão-geral e governador empreendeu a campanha que levaria à conquista de Malaca, numa altura também difícil para a salvaguarda dos interesses portugueses no Sudeste da Ásia, preferiu deixá-lo em Goa, como pessoa de carácter inabalável, encarregando-o de reger a urbe e o termo.

Em finais de 1512, deu-lhe outra missão grave: apurar a credibilidade de um certo Mateus, que chegara pouco antes a Dabul (Dabhol), dizendo-se enviado pela regente da Etiópia, Leni, a D. Manuel e ao papa. Viera, por conselho de Pêro da Covilhã, em busca de uma aliança contra a ameaça que os territórios da sua rainha enfrentavam perante o avanço da influência otomana na região. Diogo Fernandes de Beja, cuja opinião era muito aceite pelo superior, conseguira averiguar o essencial para que a embaixada prosseguisse. Apesar de alguns temerem que se pudesse tratar de um espião muçulmano, Albuquerque irá recebê-lo, com todas as honras, mas só mais tarde, em Dezembro de 1515.

Na expedição ao Mar Vermelho, em 1513, o fidalgo alentejano fez parte do grupo de capitães que acompanharam o Terribil. Durante o assalto a Adem, foi atingido por uma bala que nunca se conseguiu extrair. Quando a armada tornou à Índia, já em 1514, Albuquerque, ciente do seu talento como negociador, incumbiu-o de uma missão diplomática junto de Muzafar II, sultão de Cambaia (Khambhat), no Guzerate. Objectivo: granjear a anuência desse potentado, de modo a que os portugueses construíssem um forte na ilha de Diu, foco de intenso movimento comercial. A comitiva encabeçada por Fernandes caiu em boas graças junto do soberano, que aceitou os presentes oferecidos pelos visitantes, retribuindo com outros, para o delegado do rei português na Índia e para o longínquo D. Manuel.

Sem dúvida importante do ponto de vista das relações internacionais, a vitória assim obtida só correspondeu parcialmente aos propósitos de Afonso de Albuquerque, na medida em que a possibilidade de guarnecer Diu teria que ser adiada, pois Muzafar declinou o pedido relativo a esta cidade. Em contrapartida, autorizou que se fortificassem outros lugares dos territórios em que exercia a sua jurisdição, mas isto não era algo que atraísse particularmente, pelo menos de momento, a cobiça dos portugueses.

Ganda, o rinoceronte trazido de Surate para Goa por Diogo Fernandes de Beja, em 1514, deu origem, no ano seguinte, a uma célebre xilogravura de Albrecht Dürer (National Gallery of Art).

Ganda, o rinoceronte que surpreendeu a Europa

Damião de Góis descreveu com pormenor, na Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel, as generosas ofertas entregues pelo sultão ao enviado português:

«[…] o qual rei Modafam, por se escusar de lhe dar Diu, mandou a Afonso de Albuquerque muitos presentes de panos de seda, e de algodão mui subtis, e peças de ouro, e de prata, e um animal que em linguagem daquela terra chamam Ganda, e os Gregos, e Latinos Rinocerote, o qual Diogo Fernandes de Beja trouxe a Goa, de que Afonso de Albuquerque fez presente a el-rei dom Manuel, e o mandou no primeiro navio que partiu para este Reino, que chegou a Lisboa no ano de mil e quinhentos e quinze.»

Vulgarmente denominado, nas fontes coevas, Ganda — quer dizer, rinoceronte, em sânscrito —, o animal foi entregue a Diogo Fernandes já em Surate. Coube-lhe zelar pela sua condução até Goa com o maior esmero. Uma vez aqui, tratando-se de um obséquio destinado ao rei, Afonso de Albuquerque remeteu-o sem demora para Lisboa, a bordo da nau Nossa Senhora da Ajuda. O paquiderme foi desembarcado na capital do Reino, a 20 de Maio, em companhia do tratador, de nome Ocem. Teve por destino a «casa das feras» de D. Manuel: este monarca, à semelhança de outros grandes senhores, interessava-se pela aclimação, em Lisboa, de animais selvagens, quase todos oriundos de regiões tropicais, numa antecipação do que viriam a ser os jardins zoológicos.

A travessia obrigara a escalas em Moçambique e nos arquipélagos de Santa Helena e dos Açores, demorando mais de quatro meses, pelo que a notícia da vinda de Ganda chegou ao Reino antes da embarcação que o transportava, o que deu azo a imensas expectativas. Quando a nau, finalmente, tocou terra, em Lisboa, uma multidão afluiu ao cais, ávida por vislumbrar o rinoceronte. Tornado o centro das atenções, veio a causar sensação. Era, sem dúvida, uma criatura impressionante: ostentava cerca de duas toneladas de peso; o par de chifres dispostos sobre o focinho dava-lhe um ar de todo insólito; e a sua pele, grossa e dura em extremo, assemelhava-se a uma armadura composta por conchas, segundo relatos de autores coevos.

Tamanho fascínio radicava, em larga medida, no facto de que, após a época romana, nenhum exemplar da espécie, aparentemente, voltara a pisar solo europeu. Ainda que se conhecesse a existência do rinoceronte através de velhos bestiários, as notícias a seu respeito eram difusas e, inclusive, levavam a que vários estudiosos julgassem — tomando-o por um unicórnio — tratar-se de um ser mítico. O ambiente de espanto geral instigou os escultores contratados pelo rei para a ornamentação da torre de Belém, à data em plena construção, a lavrarem-lhe a efígie, numa das guaritas da fortaleza. Também surge representado, agora em corpo inteiro, sob a forma de uma gárgula, no claustro do mosteiro de Alcobaça.

Gárgula com a forma de um rinoceronte, na Torre de Belém, em Lisboa (Rimer Mosh).

Ganda ficou temporariamente a viver, num recinto próprio, dentro dos jardins do Paço da Ribeira, onde a corte ia visitá-lo com frequência. Era também costume que algumas feras da colecção real fossem apresentadas ao povo, em cortejo, por ocasião de procissões e outras festividades. Afirma a tradição que o monarca, desejando proceder deste modo com o rinoceronte, mandou empedrar as ruas da cidade por onde ele iria seguir, devidamente ataviado, de modo a que nem o animal, nem a sua comitiva se enlameassem. Diz-se também que essa ordem régia esteve na origem da calçada portuguesa, sobremaneira representativa de Lisboa — uma lenda simpática.

Conhecida que a era a suposta inimizade mortal entre rinocerontes e elefantes, D. Manuel quis opor um destes a Ganda, para averiguar qual deles o mais forte. Ajustou-se que o encontro teria lugar num pátio que ligava o Paço e a Casa das Índias. Quando o elefante, ainda jovem, divisou o adversário, fugiu a correr, derrubando os ferros de uma grade. Damião de Góis, que assistiu, na juventude, a este e outros episódios relacionados com o rinoceronte, notou que, apesar do aspecto imponente e couraçado, ele não exibia a ferocidade esperada: deixava-se conduzir sem resistência e interagia docilmente com o tratador, surpreendendo quem o achava indomável.

Nesse tempo, D. Manuel pugnava pelo apoio do papa Leão X à legitimação do domínio português no Oriente. Decidiu, por isso, oferecer-lhe o rinoceronte, gesto idêntico ao que fizera, em 1514, com um elefante, de nome Hano. O capitão João de Pina recebeu a incumbência de transportá-lo, por mar, até Roma. Ganda devia ser conduzido ante o sumo pontífice com uma corrente dourada e um colar de veludo verde, tendo como enfeites rosas e cravos também dourados; outras alfaias de ouro e prata completariam a homenagem, enfatizando a munificência de um soberano que os áulicos intitulavam «Novo Salomão». A nau, saída de Lisboa — outrossim denominada, pelos mesmos lisonjeadores, «Nova Jerusalém» —, em Dezembro de 1515, aportou no mês seguinte a Marselha. Aqui se deslocou adrede Francisco I, rei de França, para observar o animal. Este pastou alguns dias na ilha de If, posto avançado do arquipélago de Frioul, enquanto a embarcação recebia indispensáveis arranjos.

Da baía de Marselha, João de Pina seguiu rumo à costa italiana, naufragando, em virtude de uma tempestade, no golfo de Génova. O corpo do animal foi encontrado numa praia junto de Villefranche-sur-le-Mer e devolvido a Lisboa, onde D. Manuel o mandou dissecar e empalhar. Enviou-o, assim, ao papa. Embora o rinoceronte taxidermizado não despertasse tanto interesse em Roma como se verificara em Portugal e em França, Rafael Sanzio e um seu colaborador, Giovanni da Udine, figuraram-no, em 1516, numa pintura mural do Palácio Apostólico do Vaticano, alusiva à Criação dos Animais.

O maior contributo para a divulgação de Ganda ficou a dever-se, porém, a Albrecht Dürer, que nunca chegou a vê-lo, mas o desenhou, logo em 1515, a partir de um ou mais relatos escritos (e, talvez, de apontamentos gráficos) oriundos de Portugal, onde tinha informadores. Consagrou-lhe, nesse mesmo ano, uma xilogravura, acompanhada por extensa legenda, obra que ajudou a generalizar o conhecimento da imagem do animal. Tanta aceitação teve a sua estampa que determinados erros dela constantes perdurariam até bem entrado o século XVIII.

Com Albuquerque (e após ele)

Ormuz, a ilha persa de Hormoz, tornar-se-ia o novo destino de Diogo Fernandes de Beja. Participou, em 1515, ao começar do Estio, na expedição, sob a directa chefia do capitão-geral e governador, para a reconquista da cidade, afinal conseguida sem grande oposição: os defensores acabaram por render-se, evitando maiores perdas. Numa etapa do processo de negociações que antecedeu a capitulação, o capitão-mor do mar permaneceu como refém do inimigo, segundo era habitual. Regressou a Goa no comando da Frol de la Rosa (ou Flor da Rosa). Foi a bordo desta célebre nau, uma das mais importantes da Carreira das Índias, que Afonso de Albuquerque faleceu, a 16 de Dezembro daquele ano, à vista de Goa, numa altura em que, já muito enfermo, preparava outra expedição ao Suez. Coube ao capitão do navio ordenar as manifestações públicas e de luto oficial.

Era chegado o momento de o novo governador, Lopo Soares de Albergaria, rival de Albuquerque, entrar plenamente em funções, situação pouco favorável a quem fizera parte, antes, do círculo do poder. Diogo Fernandes não tardou a voltar ao Reino, onde os serviços que prestara à Coroa mereceram a atenção do poder. Consta que D. Manuel o tinha em tão alto crédito que, ao inteirar-se de que regressava do Oriente, declarou: «segura a fica a Índia, pois ele vem».

Quando o bejense, recém-desembarcado, acudiu ao paço, para o tradicional beija-mão, el-rei saudou-o assim: «vinhais embora — quer dizer, “em boa hora vindes” —, D. Diogo». Este admirou-se com o honroso título de dom, que acabava de lhe ser assim concedido, afirmando, galantemente, preferir ser tratado como antes… A sua resposta, tão pronta quanto inflada, segundo graciosas práticas da vida cortesã, deu origem a um célebre romance em verso, que finda nos seguintes termos:

«Só meu rei é melhor que eu,

e quem tem seu real sangue;

no mais ninguém se avantaja

ao nobre, que nobre nasce.»

Embora seja de considerar o pendor literário da vertente peça, não há dúvida de que existiu um certo à-vontade no relacionamento entre o soberano e o seu leal súbdito, justificado pelo convívio de outros tempos, na corte ducal de Beja. Diogo Fernandes, pelo que é sabido, nunca se coibiu de dizer a verdade a D. Manuel, nem de protestar, em termos respeitosos, mas firmes, contra injustiças vindas «de cima».

ArquiDigit, Lda
A cidade de Diu em 1541, segundo o Roteiro do Mar Roxo, de D. João de Castro (Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra).

No ano de 1519, o monarca fê-lo capitão da fortaleza que se havia de construir, finalmente, em Diu — uma escolha que devemos relacionar com a substituição de Lopo Soares de Albergaria por Diogo Lopes de Sequeira, acarretando substanciais transformações no equilíbrio da cúpula governativa, em Goa (e, consequentemente, de toda a administração do Império). Pouco antes de empreender a viagem para o Oriente, elevou-o à categoria, mais consentânea com o seu currículo e, até, com a sua idade, de cavaleiro fidalgo da Casa Real.

Embora a intervenção de Fernandes, nesta terceira campanha no Oriente, como defendeu Teresa Lacerda, se revelasse porventura menos vivaz do que anteriormente, em 1521 participou na expedição de Lopes de Sequeira a Diu, com a principal finalidade de coagir as autoridades locais a anuírem ao levantamento de uma fortaleza. Perante o malogro da iniciativa, devido às hábeis tergiversações de Malik Ayyaz, governador da cidade, a escolha dos portugueses recaiu em Chaul, nos contornos da actual Revdanda, à data importante centro produtor e exportador de panos de algodão. A capitania prometida acabaria por ser entregue a Henrique de Menezes, ao passo que Diogo Fernandes recebeu o cargo de capitão-mor do Mar de Cambaia, com a missão de declarar guerra às forças muçulmanas que, sob a alçada de Ayyaz, guarneciam a zona.

Pode formar-se uma ideia, a partir das fontes estudadas, de como reagiria o bejense a tal decisão, que implicava o fim da «miragem de uma fortaleza», para lembrarmos a incisiva expressão de Alexandra Pelúcia. Do ponto de vista prático, viu reforçada a sua jurisdição no teatro de operações naval, apesar do melindre do adiamento, sine die, da possibilidade de exercer o comando, em terra, de um posto de superlativo prestígio, atento o indigitamento régio. Todavia, varão disciplinado, cumpriu as ordens vindas de «cima» e, juntando-se a Diogo Lopes de Sequeira no cerco a Chaul, tomou parte, à frente das suas tropas, em prolongadas lutas contra as hostes dos sultões do Guzerate. Num dos combates que ali se travaram, a 14 de Dezembro de 1521, o pelouro disparado por uma bombarda — outros falam de uma simples bala — atingiu-o no peito e matou-o instantaneamente.

Quem o acompanhava no campo de batalha não deixaria de assinalar que o projéctil lhe despedaçou o corpo, mas não fez derramar nem uma gota de sangue, circunstância tida por «coisa maravilhosa». Atribuíram-na ao facto de Diogo Fernandes trazer consigo uma pequena cruz; só quando a removeram, bastante depois, é que fluiu um pouco de sangue do cadáver. Em conformidade com o sentimento religioso do tempo, ambos os fenómenos foram vistos à luz de uma intervenção sobrenatural: havia chegado a hora daquele grande homem render a alma, porém a cruz, símbolo da vitória sobre a morte, preservara o seu invólucro terrestre, sinal evidente do amparo divino.

O desaparecimento de um dos mais célebres guerreiros da Índia foi muito lamentado no Oriente e no Reino, tornando-se objecto de composições poéticas em seu louvor, da mão de consagrados autores, que constam dos cancioneiros e romanceiros coevos. Quase um século mais tarde, outro bejense, um missionário da Ordem de Santo Agostinho, D. Fr. António de Gouveia, bispo titular de Cirene e vigário apostólico dos Arménios junto da corte safávida de Isfahan, lembrou-o na obra Trophea Lusitana, acabada de redigir em Ormuz, em 1614: deu-lhe por troféu uma coroa de louro, com a legenda Virtus præmia digna refert («A virtude traz justas recompensas»).

A ermida de Santa Catarina, em Beja

Terá sido durante o último período em que esteve no Reino, de 1516 a 1519, distinguido com o beneplácito de D. Manuel, que Diogo Fernandes, agora senhor de grossos cabedais, promoveu a fundação, nos arredores de Beja, de uma ermida consagrada a Santa Catarina. A escolha do orago homenageava uma virgem e mártir que era, há muito, objecto de fervorosa veneração popular, ao ponto de integrar o grupo dos «Sete Santos Intercessores» — os de maior culto nos finais da Idade Média, fenómeno que marcou também a espiritualidade do século XVI. Por outro lado, deu-se a 25 de Novembro, dia em que a Igreja celebra a festa litúrgica de Santa Catarina de Alexandria, a tomada definitiva de Goa, feito da maior relevância militar e simbólica, pelo valor estratégico da cidade, implicando enormes riscos para os que nele tomaram parte. De acordo com a mentalidade neocruzadística do tempo, esta vitória não deixou de ser atribuída à mediação da santa; entregaram-lhe, pois, a custódia da futura capital portuguesa no Oriente.

Partilhando da devoção dos seus contemporâneos, Diogo Fernandes quis, também ele, agradecer o amparo de Santa Catarina, padroeira dos navegantes, em tão perigoso lance, à semelhança do que fizeram Afonso de Albuquerque e outros que colaboraram na proeza. Tudo sugere, aliás, que a construção da ermida bejense que ele e a esposa patrocinaram obedeceu a um propósito votivo, como a tradição local registou (e várias outras fontes tardias parecem corroborar). A igreja representaria uma afirmação de prestígio, mantendo viva, aos olhos dos patrícios, e não só, a lembrança de façanhas perpetradas no Oriente.

Morto Diogo Fernandes em plena acção, no cerco de Chaul, coube à viúva, Isabel Borges, dar cumprimento ao que o defunto ordenara em seu testamento, fazendo levantar a ermida, fora das portas da cidade, junto à estrada de Santa Clara de Louredo, e instituindo nela uma missa perpétua, pela alma de ambos. Há quem defenda que a escolha do local implicou um desagravo à memória de João Gomes Raposo, ali morto, décadas atrás, no duelo a que aludimos.

Os trabalhos de construção prolongar-se-iam pelo segundo quartel do século XVI adentro. Isabel Borges terá mandado também vir da Índia os restos mortais do esposo. Após o falecimento, em 1551, da que fora, afinal, o lídimo motor da obra pia, ficaram a administrá-la, nos termos de uma cédula do ano anterior, dois servos a quem dera carta de alforria, Manuel e João Fernandes, pai e filho (note-se que adquiriram o apelido do antigo senhor, um uso habitual). Legou-lhes, para a sustentação do culto, rendas suficientes, além das alfaias de prata e dos paramentos necessários à celebração de missas, com a condição de que, em suas vidas, não pudessem alienar este património, o que eles cumpriram.

Na ermida foi colocada, plausivelmente por iniciativa dos administradores, uma lápide com uma inscrição, em caracteres góticos, que hoje só conhecemos através do testemunho de um cronista setecentista, Fr. Manuel de Sá. Rezava que «esta igreja da Bem-Aventurada Santa Catarina» era fruto de uma determinação de Diogo Fernandes — nada mais —, que morreu na Índia, em Chaul, sendo capitão-mor da «frota toda que trazia Diogo Lopes de Siqueira», capitão-mor da Índia, cargo para o qual o bejense «fora elegido por todos os que naquele tempo eram na Índia»; e acrescentava-se que «morreu em Chaul pelejando com a armada de Milacuza de uma bombarda». A epígrafe lembrava, ainda, que a igreja resultara das diligências da «virtuosa Isabel Pereira» e que ela e o marido deixaram «para sempre uma missa». É interessante a referência à força naval de Malik Ayyaz, sultão de Diu e temível inimigo dos portugueses, cuja alçada se estendia, segundo vimos, a Chaul.

Uma vez finados Manuel e João Fernandes, a gestão da ermida deve ter entrado numa situação delicada, pelo que, a partir de inícios do século XVII, se sucederam as iniciativas para lhe conferir novos responsáveis. Finalmente, em 1734, passou a estar nela instalada a Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. Esta irmandade logrou, ano atrás de ano, reunir meios de monta, pelo que os seus responsáveis, considerando o edifício acanhado, optaram por demoli-lo e construir, no mesmo local, uma igreja substancialmente mais ampla, cujas obras prosseguiram até aos finais do século XVIII.

Poucos vestígios restam, actualmente, da mole primitiva, com excepção de uma imagem de Santa Catarina, em madeira policromada, que é voz comum ser a mandada fazer por Isabel Borges (e que se venerava, outrora, no altar-mor). Aquando da realização de obras de conservação do monumento, a cargo da Paróquia de São João Baptista, na década de 1990, descobriu-se por casualidade, sob o pavimento da actual sacristia, o acesso à cripta da antiga ermida, onde ainda permanecem cinzas, supostamente as dos fundadores.

No entanto, segundo Cristóvão Rebelo de Macedo, os ossos do capitão-mor do Mar da Índia ficaram depositados, não na ermida de Santa Catarina, em Beja, mas na igreja de igual invocação, em Lisboa — destruída pelo terramoto de 1755 —, com um letreiro que dizia assim:

«Aqui jaz, aqui tem sua sepultura um Beja que, morrendo, mereceu outra vida alcançar que sempre dura, seu corpo as ninfas têm, sua alma o céu. De esforço teve muito; de ventura, não teve pouca, pois tão bem morreu. E aqui se encerra a glória do mar, a honra da terra.»

Memórias tangíveis e intangíveis

Se a lembrança de Diogo Fernandes nunca arrefeceu de todo em Beja, a verdade é que quase desapareceu a pista da sua família na cidade. Viremos a lobrigá-la, ao longo do século XVII, em terras da Beira Baixa, nomeadamente as vilas de Castelo Novo e de São Vicente da Beira. Alguns destes Bejas regressarão ao Alentejo, em tempo das «Guerras da Restauração», fixando-se nos concelhos de Grândola e Santiago do Cacém. Não tardarão a lançar outros braços em localidades vizinhas — Alcácer do Sal, Torrão, Sines, Ferreira, Odemira… Perdurou a límpida noção de que eram descendentes do capitão quinhentista, embora isto decerto ocorresse por via colateral, quiçá através de um dos seus irmãos. Efectivamente, o único filho de Diogo Fernandes e Helena Borges, Nuno Fernandes, morreu, ao que parece, sem geração.

A consciência desse entroncamento manter-se-ia viva graças a velhos papéis, que um investigador activo na transição do século XVIII para o XIX, Bernardo Falcão, autor das Memórias sobre a Antiga Miróbriga (a primeira monografia acerca do antigo concelho de Santiago do Cacém) ainda pôde estudar. No entanto, conservaram-se, quase milagrosamente, outros testemunhos materiais. É o caso de uma colcha indo-portuguesa, em seda bordada, com as armas dos Noronhas de Valadares. Transmitida de geração em geração, continua na posse de um ramo da família Beja. Afirma a lição oral haver pertencido a Diogo Fernandes de Beja, servindo para guarnecer da tenda que ele preferia usar, por causa do clima cálido, em terras asiáticas. Parece difícil admitir que date do século XVI, todavia pode tratar-se de réplica do século XVII (senão do século XVIII), que substituiu, nas funções de aparato, a peça original, já gasta.

Uma fotografia oficial da visita dos príncipes das Astúrias, D. Felipe e D. Letizia, à cidade de Beja, em 15 de Outubro de 2007, a convite do então presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e da esposa. Como pano de fundo, a colgadura indo-portuguesa que se diz ter pertencido a Diogo Fernandes de Beja (Presidência da República).

Raras vezes a luz do dia alcança a preciosa alfaia, que permanece oculta em profundo recato. Vem a talhe de foice dizer que, numa destas parcas ocasiões, ela regressou a Beja, a pedido da Câmara Municipal, por ocasião da visita dos príncipes das Astúrias — hoje reis de Espanha — à cidade, em 15 de Outubro de 2007, de modo a ornamentar a sala do Capítulo do antigo convento de São Francisco (Pousada), onde D. Felipe e D. Letizia se reuniram com os anfitriões: o então presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e a esposa. Na fotografia oficial que assinalou o fim do périplo, vemo-la servir de fundo. Foi um simbólico volver da colgadura a «casa», depois de larga ausência.

O reavivar das ligações de Diogo Fernandes à terra natal, em 1938, num quadro preparatório das comemorações, em 1940, do Duplo Centenário da Fundação (1140) e da Restauração (1640), ensejo para que o Estado Novo promovesse a celebração, um pouco por todo o país, de vultos históricos relacionados com o Império, ficou a dever-se a Diogo de Castro e Brito, apaixonado investigador da história e das tradições de Beja, muito influente na região. Teve a secundá-lo Manuel Ribeiro, escritor e historiador de projecção nacional, oriundo de Albernoa, freguesia rústica do aro bejense. A Câmara Municipal deu o nome do capitão-mor do Mar da Índia a uma praça central da cidade, vulgo Jardim do Bacalhau; há breves anos, nos órgãos autárquicos competentes, foi debatida a hipótese de se alterar a designação do largo, mas a proposta — introduzida em nome do «revisionismo» típico de certas tendências culturais da actualidade — não vingou, graças ao discernimento histórico de eleitos de todas as forças políticas. Também uma placa colocada numa sala da torre de menagem do castelo, sítio nobre por excelência, continua a lembrar, em termos assaz dignos, o valoroso bejense.

[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]