A quebra no número de estudantes no ensino superior, sobretudo fora dos grandes centros, é um sinal claro de que algo está estruturalmente errado. O país está a envelhecer, sim. Mas o problema não é apenas demográfico — é económico. Cada vez mais jovens olham para a universidade e perguntam: vale mesmo a pena?

A resposta, infelizmente, é muitas vezes “não”. E é fácil perceber porquê.

Licenciaturas com retorno nulo
Portugal é dos países da OCDE onde o retorno salarial de uma licenciatura é mais baixo. A maioria dos jovens licenciados começa a trabalhar com salários líquidos entre os 900 e os 1200 euros. Muitos ganham menos. Em simultâneo, o custo de vida aumenta, o esforço para obter um diploma é real e o tempo de retorno do investimento é cada vez mais longo. Resultado? O sistema perde atratividade.

Num estudo recente, 70 % dos estudantes da Universidade de Coimbra afirmaram que tencionam emigrar. A principal razão? Os salários baixos. O Estado investe — e o talento vai-se embora.

O erro de base: financiar edifícios, não escolhas
O modelo de financiamento do ensino superior é o verdadeiro elefante na sala. O Estado continua a canalizar dinheiro para instituições com base em critérios históricos, sem qualquer ligação à qualidade da formação, empregabilidade ou utilidade económica dos cursos.

É um sistema que premeia a inércia e protege a mediocridade. Enquanto isso, os estudantes são tratados como meros ocupantes de lugares — não como clientes, investidores ou cidadãos com liberdade de escolha.

Cheque-ensino e empréstimos reembolsáveis: as alternativas
Está na hora de mudar.

Primeiro, implementar um sistema de cheque-ensino. Cada estudante deveria ter direito a um valor-base de financiamento público, que usaria na instituição da sua escolha — pública ou privada. O dinheiro seguiria o aluno, e não o edifício. A concorrência saudável entre instituições elevaria a qualidade, a eficiência e a responsabilidade.

Segundo, criar um sistema de empréstimos públicos reembolsáveis, em que os estudantes financiam os seus estudos e só devolvem os valores recebidos quando (e se) atingirem um certo patamar de rendimento. Quem não tiver sucesso, não paga. Quem for bem-sucedido, contribui para financiar a próxima geração. Responsabilidade, mérito, justiça.

Terceiro, incentivos fiscais reais para jovens qualificados. Redução de IRS nos primeiros anos após a conclusão da licenciatura, especialmente para quem trabalhe em Portugal. Premiar quem investe em si e fica no país.

Um sistema que respeite os estudantes
O que temos hoje é um modelo de ensino superior que funciona em circuito fechado: forma sem olhar para o mercado, recebe financiamento sem prestar contas, e depois queixa-se da falta de alunos.

O ensino superior não pode continuar a ser um fim em si mesmo. Tem de ser um investimento com retorno — para quem estuda, para quem emprega, para o país.

O Estado deve proteger o acesso, mas não determinar o destino. Um sistema liberal, competitivo e orientado para o mérito é a única forma de tornar o ensino superior relevante no século XXI. Até lá, continuaremos a pagar para formar jovens que já decidiram que o seu futuro será longe daqui.